Monday, April 30, 2012

Carta ao meu pai



A perda do meu pai marcou-me imenso.
Porque aos nossos progenitores os queremos imortais.
Talvez essa dor esteja ainda muito na pele, impedindo-me de aceitar os outros na sua mortalidade, de alguma maneira, mantendo a racionalidade a par com os sentidos.
O Luís Gaspar pediu-me meia dúzia de coisas que eu tivesse rasurado.
Enviei, uma delas a carta ao meu pai, em jeito de despedida num processo continuado de dor.
Fica aqui a carta recitada por ele nos Estúdios Raposa, para quem quiser ouvir, ler.
E mais poemas recitados aqui, na voz do Luís Gaspar



Exercício literário - Pai, uma memória antiga
Fiz de ti bussola e só por isso perdoa-me.


Eu fico por lá, escondida, debaixo da escrivaninha onde ninguém me sabe ou adivinha. Talvez tu mas finges que não me vês. Vejo-te, imagina, sentado ainda no cadeirão de mogno. 
Os teus pensamentos não eram (não são, que ainda hoje sinto o mesmo que então) reveladores e claros, como os desenhos rasgados à madeira desse teu cadeirão. 
E nem a linha severa a meio da testa que te deixava mais frágil, ou ausente. Ou ambos. 
Se eu alisasse esse teu frisar grave do tempo e o retirasse da testa , oferecias-me o mais lindo sorriso que se pode oferecer a uma filha que não adivinhava que te ia perder. 
E que, com a tua perda, iria perder em simultâneo, a preocupação desse teu olhar perdido ou as linhas de mogno desse teu cadeirão (que se foi embora depois de teres ido porque nos lembrava a doer a tua presença). 
Onde andará esse cadeirão com braços gravados de arte? No dia mais comprido da tua apatia eterna, recordo-me, com incrível nitidez, a tua mão fria, gelada a escorrer-me os cabelos molhados de chorar.

- Que injusto, gritava eu na boca silenciada pelos outros.

- Que injusto, repetiam os segundos.

Tudo permaceu quieto, pasmado, apaticamente parado. Tu inerte, na posição de morto, eu morta, sei agora, mas foi a ti que enterraram e essa injustiça de te roubarem a nós é que me matou. 
Ainda hoje, paizinho, ainda hoje e já lá vão 30 anos ou mais, continuo morta e por enterrar. Poderá ser isto, de morrer-se e permanecer a descoberto sem que os abutres nos devorem ao primeiro sinal nocturno de fim?
O teu perfil recortado de um candeeiro de pé frio e estanhado, onde um abajour de luz desmaiada projectava o teu nariz na parede lateral. 
Quatro molduras de veleiros a carvão misturavam-se aos movimentos de vivo que havia em ti.
No dia comprido da nossa morte, estavas inquieto mas devia ser uma espécie de prognóstico teu reservado à tua solidão buscada. 
Porque te exilaste de nós, lendo Tolstoi e praguejando isto e aquilo em jeito de riso. Pesava já na tua carcaça, mais do que a patologia limitadora de um coração secular e velho, a draga do fim. 
O punhal havia já feito danos muito tempo antes e mantiveste-te de pé, ainda assim. O que te impediu de o voltares a fazer? 
E viveste a correr, como Sammy, pra que não fosses confundido com um corpo que se arrasta entre a piedade de uns e o desespero de outros. 
E amar-te foi sempre tão mais fácil. Amar as tuas ideias irreverentes, o teu não-conformismo, que mantinha vivos os olhos de quem te procurava e aos quais gargalhavas pra que te não levassem a sério. 
Brincadeira de mau gosto essa de não quereres que te amassem, de manteres distância nos últimos tempos que antecederam o dia comprido. 
Eras tão amado que os céus se fecharam, se desconjunturaram, desejosos de te levarem e de abafarem a nossa dor. 
Os nossos sonhos, se os visses, despenhados como folhas de papel amarrotadas, tornados pesadelos à lei da força.
Pai, estavas branco, de cera, de cal, sem gota de sangue e nem o Tolstoi a contar-te histórias te manteve acordado. 
E a morte, essa coisa negra e derradeira, sem competência nenhuma a não ser essa de arrancar os vivos aos mortos, não te soube alisar o vinco da testa, como eu fazia. 
E no dia d, o da tua partida, tentei fazê-lo uma vez mais, quando me permitiram a aproximação à caixa que te conduziu ao negrume sem húmus da terra. 
O espaço que medeou o estares deitado dentro dessa caixa (ainda hoje a vejo sem cor, sem consistência e sem materialidade, defesa minha, já sei) termos conversado, tu e eu e, a mãe irromper numa gritaria de desamparo (precisavas de estar ao lado dela pra a confortares mas vivo). Nessa hora, eu acorajei-me de amor e afaguei a tua testa gelada de morta e pareceu-me ver-te sorrir. Mas que sabia eu dessas coisas de morte e de fim que se escondem entre a vida e o continuar dela? 
Pra mim, tu sabes disso, partias em mais uma das tuas viagens a Lisboa, não ias no alfa, porque precisavas ir deitado. Entendo agora o grito da mãe, perante a despedida do corpo, tu ias sem volta, ela sabia-o, eu não. 
Para nunca mais. E "nunca mais" no vocabulário de uma criança feliz até à data, era sempre substituída por "para sempre". O máximo que tiveste de mim nesse adeus, foi um até logo, até mais ver. 
E o resto das lágrimas que me corriam como rios quentes imparáveis era porque imaginava que te iam manter adormecido nesse espaço da caixa exígua e obsoleta e iam enviar-te numa viagem que não ias poder apreciar. 
E tu gostavas tanto de ver pessoas e coisas misturarem-se em vida com sons e cheiros. 
Saber-te entre tombos e vertigens encaixotado como encomenda sem destino ou com destino ao qual não tínhamos acesso (tal como todas as viagens que fizeste em nome do partido da oposição).
 Em nome da liberdade. Essa liberdade que nos deixou cativos, sem outra escolha. Só conheciamos a tua protecção e o teu amor.
Ainda hoje "vejo" o teu escritório, a tua escrivaninha com 6 gavetas de cada lado, encorpada e de mogno, trabalhada, num tampo onde o pó era sacudido amiúde pela Luzia, das cinzas que se espalhavam do teu ritz, do cinzeiro de estanho ou latão fino, de 3 bordos, os pisa-papéis com o nome do bisavô e do avô (que ainda tenho) da tua águia. 
O armário onde se apinhavam capas grossas, dossiers pesados, carregados de vidas que se penduravam nas tuas costas, aos teus pensamentos, desejando-te o melhor e encontrando em ti uma espécie de messias. 
Lembro-me das tossidelas do avô Rodrigo antes de sair com mais papéis e rebuçados de mentol, do tamborilar dos teus dedos quando achavas que o Sr. Bastos não ia saber resolver por ti essas vidas. 
Do teu casaco de bombazine cor de burro quando foge, do pullover verde musgo que trazias vestido no dia que me morreste. 
Da camisa creme, do maçote de papéis que carregavas no bolso das calças de fazenda vincadas. 
Do teu bigode curto e das tuas têmporas onde já se adivinhava o tempo. Esse tempo que não ia deixar que os teus cabelos ficassem cinza. 
Esperaste a chegada do fim do dia para partires, e foi entre conversas de fraldas e batatas que deixei a mãe e a Luzia na cozinha e te fui espreitar ao quarto. 
De lá de fora, entravam as luzes de candeeiros da rua e foram esses recortes de luz que me deixaram ver o livro entreaberto na barriga poisado e o teu braço pendendo pro infinito da cama, os teus olhos abertos e a tua testa vincada. 
Chamavas alguém que não veio ou foi impressão minha? Morreste e eu cá fiquei desenterrada. E a cada ano que passa, a cada década que sobrevivo penso que ficar vivo e preso aos momentos de dor pode ser a pior morte, a mais demorada e a mais lenta. 
Sei que estás aí, fazendo sempre o possível e o impossível pra que me recomponha. Outras vidas virão e noutras te encontrarei. Mas foi nesta que ficaste como bussola. E ando desorientada.



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