Thursday, February 16, 2012

Inês Pedrosa



Tomei consciência de que ia morrer no dia em que pela primeira vez me olhei no espelho e me reconheci. Soube da minha morte antes mesmo de saber exprimir-me correctamente. Hoje, as crianças já sabem fazer contas e manipular computadores antes mesmo de saber quem são e de onde vieram. Ensinam-nas a andar cada vez mais cedo e já não passam pela fase de gatinhar. Quando eu era criança havia sempre muita gente a morrer lentamente, passando o tranquilo testemunho da sua morte aos descendentes. Os mortos eram jovens e vagarosos, projectavam-se sobre os vivos como anjos-da-guarda, abrandavam-lhes ganâncias e invejas, ridicularizavam-lhes as urgências da vida. Os homens morriam mais cedo que as mulheres, e com menor glória de reminiscências, que é a única glória que verdadeiramente existe. Havia mais por onde lembrar as mulheres porque elas estavam à margem da luta dos homens pelas coisas da Terra. Eles gastavam o tempo a aumentar dinheiros e prédios que ficavam depois, na sua quietude eterna, a rir-se da precariedade dos que os tinham engrandecido. Quando uma mulher morria, levava com ela a mão para as compotas e a maneira de amar. Não deixava nada que a apoucasse.
Tu dizias: ." A razão é do género feminino e o sentimento é do género macho." Querias provocar-me, e fazias bem porque as tuas provocações tinham o condão de me tornar instantaneamente lapidar: - "Será. A sensatez não brilha nem ressoa, mas os tesouros do espírito têm a suprema vantagem de serem à prova de roubo."


in Nas tuas Mãos
Foto de Lúcia Inês Araújo

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