Thursday, December 15, 2011

Meninos grandes não choram



Quando me recupero de uma queda, logo depois de acertadas e desinfectadas as escoriações, vejo-me envolta em nova queda. Aos trambolhões pela vida desde cedo, joelhos esfolados, mãos esgadanhadas de experiências e formigueiros nos membros por excessos na coluna. Corpo imortal, pensei sempre. "Conseguiste isto e ainda vais conseguir mais..."
Lembro-me de ir satisfeita na minha primeira gravidez ao médico de família, antes de consultar aquele que viria a ser o meu obstetra duas vezes, na gravidez do Rui e depois na gravidez do Tomás. O médico de família era verdadeiramente o médico de família, que havia recebido as minhas tias e tios, pai, avós, enfim, a catrafada de gente, dessa gente de quem herdei os genes de mau feitio. Sério, muito sério, disse-me: Alzira, tens este filho, depois deste, nada! Tens um corpo esbelto mas não é só esbelto, é sadio. Esfrega bem o creme anti-estrias quando a pele começar a esticar ou arrepender-te ás depois! O corpo das mulheres não foi feito para procriar mas para o prazer e para as andanças que a vida exige! Não precisas de dois filhos. Se todos fizerem como eu, se todos tiverem um filho, bastará para combater a extinção da raça...
Não me assustou, nem pouco mais ou menos. O corpo lá ficou com meia dúzia de estrias, lá ficou mais flácido aqui, menos sadio acolá. Mas a saúde não vem só do corpo e nem a falta dela.
Neste momento, sinto uma espécie de dor-sombra desde que acordo até que adormeço. Pesa-me não sei-o-quê nem porquê. Os medos voltam com força, medo de tomar decisões, medo de ao ter de tomá-las de estar a ser injusta com outros, medo de se pensar nos outros me esquecer de pensar em mim, medo de existir e medo de existir com medo. E toda eu sou isso, esses pensamentos divergentes de saúde e convergentes de inferno. O meu inferno sou eu...
Amar, dizia a vó Bina, ah filha, amar é preciso, amar é bom, tu verás. E vi! E quando as dores do amor trouxeram os primeiros medos de amar, a vó Bina disse-me, ah filha, a dor de amar está implícita, ninguém ama sem dor! E não! E aí, eu chorava e ela para me consolar, - e conseguiu algumas vezes- ela dizia-me, ah filha, atrás daquela montanha tem outra mais alta! E tinha, e fazia sentido o que ela dizia e muito embora não atingindo a dimensão das entrelinhas na altura, a vida lá me fez o desenho.
 E então, hoje, tantas montanhas depois, somo e sigo, mas talvez esta dor-sombra que se sobrepõe ao meu optimismo seja, inevitavelmente, a minha vó Bina lá de longe a dizer-me, ah filha, um amor esquece-se nos braços de outro!
Hoje, eu sou um cemitério de homens, amanhã talvez seja o céu de um apenas :(

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