Wednesday, August 17, 2011

Carlos Peres Feio




estou a aprender a não te ter


estou a aprender

a não te ter

é isso

penso no IVA no Iraque e na gripe

pura diversão

para não pensar em ti



não te ter tornou-se a minha crise

maior do que a das economias globais

quando julguei ser um bem

o nosso encontro

mas só agora estou a aprender

a não te ter



isto é uma declaração de amor

mas dolorosa

tive de novo de sair de mim

ouvi-me no que já esquecia

activaram-se circuitos abandonados

só me sobrou o que dispensava

ter de aprender

a não te ter

Tuesday, August 16, 2011



Liar

Telling me a bag of lies
You don't mean a thing you say tonight
You promised me days and days
Now you're gonna go and change your ways
I've seen you 'round somebody else
You must be doin' something else

You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more

No, no, no, no
Liar, liar, liar

Why you wanna do this to me
I've been so good to you can't you see
I've given everything you want
But seems to make no difference at all
I want your body, I need it now
I need some lovin', I need it somehow
Baby, you'd give me some more

You said you'd give me some more

Monday, August 15, 2011



Pablo Neruda
Não há esquecimento (Sonata)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer "Acontece".
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?

Se me perguntais donde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem a pomba amarelenta que no esquecimento dorme, mas sim faces com lágrimas, dedos na garganta,
e o que desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para lá desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.

Sunday, August 14, 2011

Saturday, August 13, 2011

O puritanismo sacode-se. Não são só as imagens que têm poder, também as palavras, a verbalidade, a expressão dos sentidos o podem fazer. O puritanismo sacode-se de muitas formas. Excêntrico, porém revelador.


alienbaby por helenlafloresta
Um documentário de uma mulher para o universo do pensamento feminino e não feminista.
Não se nasce mulher, escolhe-se sê-lo, O Segundo Sexo, é um projecto escrito por Simone de Beauvoir que contrariamente às expectativas da autora, não chega a caducar. Desde 1949, os prejuízos de ser-se mulher moral, intelectual, profissionalmente, se mantêm. Os números falam por si. Um documentário que atesta isto mesmo. São 52 minutos, sensivelmente e cada segundo conta para nos depararmos não só com o pensamento de Simone mas, mais longe ainda, com o exemplo de vida da mulher que Simone escolheu ser.
De bónus, Nelson Algren, Jean Paul Sartre, Claude Lanzmann, entre outros depoimentos.

Thursday, August 11, 2011

histor_1084.jpg

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Vitorino Nemésio

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

Wednesday, August 10, 2011





Eduarda. Tinha os olhos pequeninos. O tempo comera a extensão da iris e o brilho. Apagara a esperança. Ao perder tudo e mergulhada nessa angústia, ganhara o esquecimento dos outros. Que só sabiam da sua existência pelas rosas de santa teresinha, regadas todos os dias no varandim. Não se lembrava de dia nenhum em que os mortos não sarandassem em vagas de luz e sombra pelos corredores da sua casa.
Viver durante o dia tornava-se um copioso arrastar de segundos e gestos onde sozinha se perdia. Quando ia à banca, levantar o jornal diário, o pão e cigarros, a coisa não se sentia solidão. Os dias só podiam ser diferentes por terem nomes diferentes e os estados meteorológicos mudavam a percepção de os sentir, nada mais. Apenas nas primeiras horas da noite, logo após o lusco-fusco, Eduarda deixava de estar só com os seus pensamentos. Era tempo de entreter as almas, servindo chã e scones, confidenciando sobre os convidados de última hora que desconheciam o arrefecimento da sua própria matéria. Eduarda acordava do reino dos tristes nessa hora.





Era audácia aquela de trocar palavras com desconhecidos e, de certa forma, antevia o perigo das imagens distorcidas. Na verdade, esse era o menor perigo, na sua opinião. O perigo maior estava na incoerência de recear os outros. Que mal podiam fazer-lhe, os outros que não a conheciam, mais do que fazia a si mesma? Que isto de ser a estranha naquela cidade continuava a acarretar alguns dilemas, principalmente aos seus familiares e amigos. Mas estava cansada de conviver consigo mesma, de receber sempre as mesmas respostas a todas as suas dúvidas. Precisava de acertos à neutralidade. E quem faria essa diferença senão os outros?
Les uns et les autres...

Friday, August 05, 2011

S.O.S. - LEUCEMIA - AGENTE DA P.S.P.

Alô possíveis dadores de medula óssea da Costa da Caparica e arredores

S.O.S. - LEUCEMIA - AGENTE DA P.S.P.