Sunday, June 26, 2011

Monday, June 06, 2011

Projecto Cedência

É dificil partilhar, oh, como é complicado
é dividir as contas, a cama, os bens e o gelado
é terrível manter a calma quando o grito do ego sai da alma!
é prova do diabo quando a discussão acende
e eu continuo a gritar razão, e tu séculos depois me dás a maldita, pra que serve?







mas que faço eu com ela se amuas e embirrentas
tarde adentro? Nem o Bordeaux do sr. Mamede é demais
nem o chocolate depois das oito sabe a menos.

é tão dificil emprestar livros
e cd's que os sinto meus mas estão aí
e o gato, os cães, todos os animais
que eu amo, são o eu versão inumana
e teimas em expulsar os meus afectos,
e quem sabe o que faço
do meu tempo livre senão eu?
E cedes pra que eu ceda.

Entender-nos diferentes é o único caminho
viável
quando todas as outras alternativas
parecem disformes ao projecto inicial.

Saudade


Uma pena a poisar, ao de leve,
no teu ombro,
esta minha saudade silenciosa
sem rumores de se alterar.

E o teu olhar preso ao melro

que beberica na margem e ondula no ar
onde se avistam ás penas o fundo.

eu sinto a casa

tu pensas o mundo.
Meditação recente




Se me fosse dada a possibilidade de ser outra pessoa, que não eu ou a luz, escolheria, igualmente, ser mulher. Mais do que no sangue, está-me na alma.


E se de repente...?



um de nós se apaga, se entrega ao dó
poderá o outro sentir sem descanso
o vazio experimentado
da morte do eco dos seus passos?


Um detalhe de vida me prende e me guia:
- o teu rosto que não esqueço.
A vontade intacta do caminho.
Quando não estiveres, estou eu.
A história do futuro



Passado, desse tempo infernal
de séculos e cometas
de dores e expectativas
estamos vivos e é isso que consta
nos dias presentes:





- nós e as metas já conseguidas.

E guardo-me dos teus olhos
enquanto rasuramos o incerto futuro.


Não profanes o sagrado

eu era o que te importava
um pouco mais que a vida
um pouco menos que a morte

por mim abdicavas das paixões
dos filhos, dos livros, dos amigos
dos segredos, recantos, motivações

como podia amar-te depois?
sem tudo o que me faz amar-te agora?


seríamos um e não dois
o nosso amor viraria pó estelar,
lembrança, rascunho, esquema
aqui neste jornal, em poema


e só poderias lembrar-me
lembrar-me do verbo amar
vulcão extinto na maresia


não, não mates o nosso amor
inventa-me hedones sem dor
recria-me todos os dias
e porque também me importas
vou manter-me como gostas,
das dualidades no amor a mais profana,
companheira e amiga,
a mais louca das amantes na tua cama.
Foto de Fritz Hoffmann
Era uma miúda, quando li 3 vidas de Gorki, o Julgamento de Nurnberg, Oh Jerusalem, Guerra e Paz de Tolstoi, os últimos dias de um condenado, O Germinal de Zhola, enfim, tenho os títulos da biblioteca do meu pai ainda a bailar nos olhos. Lembro-me que a minha mãe vinha certificar-se que estávamos deitados, a dormir ou a preparados pra isso, as luzes apagadas. Ás vezes recorria a velas mas esta alternativa revelou-se um desastre prás minhas roupas escuras e tinha uma bufa entre nós, a minha empregada doméstica, a Lurdes, que fazia queixa de cada peça queimada por mim. E lá se iam os favorecimentos e louvores. Na maioria das vezes recorri ao candeeiro pequeno que colocava ao lado da cama no chão, com uma fralda de pano do meu irmão mais novo. Tinha muitas, se alguma se queimasse com o meu descuido, havia sempre forma de não dar "barraca". E por volta dos meus 11 anitos aprendi a negociar com a Lurdes, depois de ter descoberto o seu ponto fraco. O Neca, bombeiro que ela gostava de ir namorar, por volta das 11h da matina e depois, por volta das 18h. O Neca foi-me de grande utilidade também prós livros. Quando ela se atrevia a ameaçar-me chibar as minhas leituras noite dentro, ou as asneiras dia fora, eu fazia ela pensar melhor, trazendo o Neca á baila. A minha mãe nunca concordaria com os escapes dela pra namoriscar durante a semana, sabendo que as suas três crias ficavam á sua própria mercê. Pobre mãe que nem imaginava as vezes que tal acontecia. Depois, por volta dos meus treze anos, cansei-me deste peso que a literatura tinha. O mundo dos adultos contados nestes livros do meu pai eram feios, pouco sedutores, traziam muito sofrimento e a letra era muito pequenina, penso eu hoje, que os meus olhos se gastaram nessas noitadas. Não descansava enquanto não os terminava. Como dizia, aos treze anos, a par com a descoberta dos mamilos e da menstruação, com os segredos das adolescentes escondidas no wc e os vestidos de folhos, atrevi-me a ir prá leitura das moças. Os Corin Tellados, as Sabrinas, e já não me lembro mais das restantes colecções. A minha tia Joaquina tinha magotes destas cenas. A única coisa que magoava nesta literatura era o membro tungido que surgia em nome do amor. E corria sempre bem. O Kurt, afinal, não era casado e tinha estado amargurado na sua casa em Funn por conta do desgosto que a Vanessa Soraia lhe tinha provocado com aquele abraço dado ao John que, afinal, bem vistas as coisas era irmão dela. Nada doía. Mas foi assim que descobri o amor romântico que tanto teimavam em esconder-me. E também foi nesta altura, mais coisa, menos coisa que me apareceu ás mãos, num fim de semana em casa da tia Rosalina, o livro Yargo, da Jacquelin Susan, que me deixava livre na fantasia e nos cenários...Et's a mais, deduzo. Uma humanidade que se vê redescoberta por outros mundos, uma lágrima analisada á lupa, uma perfeição longe do paraíso.

Com 40 anos já feitos e um percurso sem linhas rectas a todos os níveis, penso que a crueldade é uma particularidade do humano básico, do que não acompanhou a raça. Claro que sei que a crueldade existe no dia-a-dia, na casa ao lado, na rua paralela á minha, nas, aldeias e nas cidades, nos montes e nas selvas. O marido que espanca a mulher quando volta bêbado a casa, na mãe que perde a paciência e bate no seu filho, as crianças que se espancam mutuamente num recreio escolar, na pessoa que vê violados os seus direitos ao trabalho, á saúde, ao alimento, na pessoa que se vê vítima de insultos e humilhações, de assédios e perseguições, os animais que são esfolados vivos pra que as nossas sociedades possam consumir futilmente acessórios, como cintos, casacos e carteiras handcraft work, para nos sentirmos mais lindos, mais in, mais vivos!!!Cor de rosa nunca foi a minha cor preferida. Sempre preferi os verdes e ás vezes os cinzas e castanhos. Hoje, dia 26 de Fevereiro deste ano de 2009, um dia igual aos outros, com a particularidade de ser diferente porque está sol, a Carmen, minha tia querida, enviou-me um video tremendo sobre a crueldade cometida contra as mulheres no Islão. Ontem enviou-me o Zeitgeist, o Dem (chip sis) e hoje isto. Há dias em que, tal como sonâmbulos parecemos aceitar tudo o que de mau existe, sem nos apercebermos de que esse tudo é muito do que existe, ainda, entre nós. Mas há outros dias em que não sabemos o que fazer com esta consciência enojada, com esta dor no peito ou com este nó na garganta. Ser humano, afinal de contas, é aceitar que a cultura pode doer noutras latitudes???

Apedrejar uma mulher na rua, espancar de pontapés e escárnio, até que esta sangre, até que morra, por ter cumprimentado um homem que não é de família, é culturalmente aceitável??? Extirpar o clitóris ou fazer uma cirurgia ao pénis não deve ser bem a mesma coisa. Teremos nós o "direito" de calar? Como disse Obama no seu discurso de tomada de posse, a propósito da religião ou religiões, da tolerância religiosa pela maioria, se Deus pedisse a Abraão hoje pra este sacrificar o seu filho, seria preso, ser-lhe ia retirada a criança. O mundo evoluiu mas não os sentimentos básicos e instintivos chamados ódio, desprezo, inveja, raiva, crueldade.
Lamentamos sentir este tipo de coisas mas é delas que continuamos a ser feitos...

Já não leio Corin Tellados e nem Tolstoi ou Zhola mas posso dizer-vos que continuo a sentir o peso de todos os livros escritos, de todas as perspectivas recebidas em nome da cultura e nada disso ser importante pra melhorar este conceito de humanidade. Na realidade, é isso mesmo que me pesa. Darwin, já longe da Origem das Espécies, na "Descendência do homem" profetiza o que hoje sabemos ser verdade: "O homem ainda traz em sua estrutura fisica a marca indelével de sua origem primitiva."

Todo o resto são trocos. Indignem-se ou metam a cabeça na areia como a avestruz. A ver se os homens do Islão se importam!!


No Carnaval dos teus braços



abrir a boca ao beijo
abrir as pernas ao segredo
que me vais contar com a mão
abrir o sexo á palavra quente
abrir-me em copas, ardente
deitar as pálpebras no cobertor
da tua pele e beber mel

vou sentir-te distante
dentro de mim
abrir-te o desejo guardado
e provar de ti a noite,
o nosso ardor de tempo cozinhado
vou bordar um sem-nexo,
mastigar o poema revelado,
esgrimir esse teu sexo
Virás pedir-me pela manhã
o café e a nicotina
sussurrar o amor em surdina
espreguiçar-me ei no teu abraço e
sem grande estardalhaço
enroscar-me novamente

fazer do breve eternamente
e oferecer-me ao diálogo carnal
das nossas mãos urgentes
deslumbrar-me ás
com os mistérios do madrigal e,
no teu sexo, eu, mascaro-me de gueixa
e serves-me uma e outra vez até esgotar,
o carnaval
Os pássaros chilreiam e poisam em saltos intermitentes. Toda a relva no seu esplendor rejubila verde e fertilidade, ainda húmida da geada da noite. São 6h da tarde, de uma tarde qualquer - que perderam importância nas tardes, nas outras tardes em que havia fogo no sangue. Como disse, são 6 da tarde nesta tarde qualquer e não há ameaças de pôr-do-sol com fitas laranjas e rosa no fundo do horizonte. Tudo se assemelha aos cinza-húmidos-colados á derme e á dermatose provocada pelo inverno. A perturbação de fios eléctricos não atenua o sentido negro-vacuum. Os cães apreciam esta pseudo-quietude. As lebres escondem-se, assim como as toupeiras, raposas e cobras. Até se certificarem que os animais de grande porte, como eu ou os meus cães se calem, sinal de desaparecimento. O único cão que reclama o silêncio parece estar distante demais para perturbar seja o que for. E dentro de mim, onde mora a paz que este lugar me destinou? E em mim, porque não sossegam as dúvidas e os dias?
Sinto-me dentro de um nevoeiro denso, líquido, cruzando entre as árvores de grande porte e os arbustos, gritando os ecos que deixei de ouvir. De um verde musgo, o casario divide-se nas partes mais altas. Um pontilhado de almas com destinos indecifráveis. Ouvem-se morfemas e fones mas não se entendem os contextos. As mensagens ficam presas nos fios eléctricos destas torres de mau aspecto, como gigantones ets, prontos a devorar a saúde dos que permanecem.
A única prisioneira de sentidos pareço ser eu, neste meu mutismo aparente, a descolorir o vermelho da estação passada, em alertas cerebrais.
As dálias rosa querem abrir, as flores da japoneira, finalmente, encontram cor. Os pequenos amores perfeitos mantêm-se tímidos e as ramadas permanecem esteréis, determinando o meu limite territorial. Em vão, vou pelos dias dentro, ancorada ás saudades e ás dores antigas, como tatuagens eternas. Em vão, vão meus beijos mar afora, nesses grandes barcos que nunca chegam a ti. Suspeito que é aqui que se dividem passado presente e futuro, sem mais recursos ou alternativas. Em vão?

Preciso de me ancorar, fixar num porto.
Por isso, recolho textos de um outro blog que vai desaparecer, o To be a Woman.
Os textos são autobiográficos e quando não têm nome de autor significa que o autor é de casa.
Conjugo-te o verbo saudade do cio




eu sinto-te mais dentro
tu sentes-me ao cio
nós sentimos tanto
quando enrolamos
coxas nas pernas, pingando suor
sexo furando, ponto orgâsmico
e na boca receptiva,
em flor.
Es-gota-do teu rio.