Saturday, December 31, 2011

E tudo o vento levou...




É oficial. Digo oficial e agarro-me a essa formalidade que pode, eventualmente, concorrer para um momento de fraqueza, porém para outros tantos momentos -e nesse aspecto, quero-me prática - em que a dor, a saudade ou a falta de vontade de renovações se transmutem. Hoje, agora, just about now, servirá de utilidade a data.
Porque me comprometi comigo a mudar. Ontem, há duas horas atrás, já ontem, dia 31 de Dezembro de 2011 fiz um compromisso comigo que selei com um brinde, eliminar o que me faz mal, o supérfluo, o veneno, a desilusão, enfim. Os percalços surgem a cada minuto preparados ou não pela vida e pelo tempo. Ou não. Todos os outros de que somos conhecedores e promotores nos tornam cúmplices e não posso permitir-me ser em parte, inimiga de mim mesmo. Não sou masoquista e nem sádica.
Existem afectos que escalam negativamente até se(nos)  transformarem em antídotos da nossa natureza.
Porque gosto de mim, porque preciso de gostar dos outros para que goste de mim também, a decisão foi tomada. Ainda que me custe muito, ainda que a luta seja a mais feia e injusta: lutar contra mim mesma.
Mas ele há coisas piores.
Acabei de rever pela quinquagésima vez o filme E tudo o vento levou, a história da Scarlet O'Hara.
O vento arrumou com a paixão de Reth Butler. E a coisa foi fácil. A música subiu de tom e escala, a chuva continuou a refolgar lá fora, misturada a uma névoa que permitia que o drama se adensasse. O feitiço virou-se contra o feitiçeiro mas em momento nenhum, ela deu parte de fraca. Amanhã, outro dia. E se eles me pudessem ouvir, iria existir uma deixa que fortaleceria essa coisa temporal, amanhã não é só outro dia, é outro ano! E vocês sabem lá o que os anos podem fazer connosco! E é disso que fico à espera em mim, das mudanças que vou ajudar a fazer para que a grande mudança se opere.
Uma excelente forma de me despedir deste ano, o tema no vídeo esplendidamente interpretado por Ennio Morricone e Dulce Pontes, Someone you once knew.
Bom ano! E não façam promessas que não podem cumprir e se fizerem, cumpram-nas.
Brindando novamente a 2012.




Friday, December 30, 2011

We'll fly like angels...

Jan Zahradil dá recadinho a Durão Barroso

Uma "meeting" entre Os conservadores reformistas europeus e a União Europeia. Sobre o novo paradigma para a União Europeia. E diz o sr. President Jan Zahradil (EUR) ao sr. Presidente Barroso: Esta assembleia é mais parte do problema do que parte da solução. E fala ainda do Euro e do que os povos pensam acerca desta salvação do euro a todo o custo. A confederação dos estados Unidos da Europa, um sonho problemático!?

Saturday, December 24, 2011

Thursday, December 15, 2011

Meninos grandes não choram



Quando me recupero de uma queda, logo depois de acertadas e desinfectadas as escoriações, vejo-me envolta em nova queda. Aos trambolhões pela vida desde cedo, joelhos esfolados, mãos esgadanhadas de experiências e formigueiros nos membros por excessos na coluna. Corpo imortal, pensei sempre. "Conseguiste isto e ainda vais conseguir mais..."
Lembro-me de ir satisfeita na minha primeira gravidez ao médico de família, antes de consultar aquele que viria a ser o meu obstetra duas vezes, na gravidez do Rui e depois na gravidez do Tomás. O médico de família era verdadeiramente o médico de família, que havia recebido as minhas tias e tios, pai, avós, enfim, a catrafada de gente, dessa gente de quem herdei os genes de mau feitio. Sério, muito sério, disse-me: Alzira, tens este filho, depois deste, nada! Tens um corpo esbelto mas não é só esbelto, é sadio. Esfrega bem o creme anti-estrias quando a pele começar a esticar ou arrepender-te ás depois! O corpo das mulheres não foi feito para procriar mas para o prazer e para as andanças que a vida exige! Não precisas de dois filhos. Se todos fizerem como eu, se todos tiverem um filho, bastará para combater a extinção da raça...
Não me assustou, nem pouco mais ou menos. O corpo lá ficou com meia dúzia de estrias, lá ficou mais flácido aqui, menos sadio acolá. Mas a saúde não vem só do corpo e nem a falta dela.
Neste momento, sinto uma espécie de dor-sombra desde que acordo até que adormeço. Pesa-me não sei-o-quê nem porquê. Os medos voltam com força, medo de tomar decisões, medo de ao ter de tomá-las de estar a ser injusta com outros, medo de se pensar nos outros me esquecer de pensar em mim, medo de existir e medo de existir com medo. E toda eu sou isso, esses pensamentos divergentes de saúde e convergentes de inferno. O meu inferno sou eu...
Amar, dizia a vó Bina, ah filha, amar é preciso, amar é bom, tu verás. E vi! E quando as dores do amor trouxeram os primeiros medos de amar, a vó Bina disse-me, ah filha, a dor de amar está implícita, ninguém ama sem dor! E não! E aí, eu chorava e ela para me consolar, - e conseguiu algumas vezes- ela dizia-me, ah filha, atrás daquela montanha tem outra mais alta! E tinha, e fazia sentido o que ela dizia e muito embora não atingindo a dimensão das entrelinhas na altura, a vida lá me fez o desenho.
 E então, hoje, tantas montanhas depois, somo e sigo, mas talvez esta dor-sombra que se sobrepõe ao meu optimismo seja, inevitavelmente, a minha vó Bina lá de longe a dizer-me, ah filha, um amor esquece-se nos braços de outro!
Hoje, eu sou um cemitério de homens, amanhã talvez seja o céu de um apenas :(

Sunday, December 11, 2011

Saturday, December 10, 2011

Someone like you

James Vincent McMorrow, Adele's cover. Great cover, by the way.

Friday, December 09, 2011

Jacques Fresco

Natália Ferreira

O estado a que chegou este Estado e a premonição terrível
para 2012 fez-me lembrar a última das telas.












Coroada de mirtos
visto a túnica de linho branco
e aberta a porta, 
caminho para o lugar
onde cai o véu
do mistério final.






O que diria Natália face ao estado nada democrático?
Face á inércia deste povo? Teria vergonha. Teria lutado.
Sagradapoesia: O cavalo de pau
e o fogo no rabo da literatura
A á...
: O cavalo de pau e o fogo no rabo da literatura A água não me livra da secura nossa senhora da taberna a ti dedico esta novena. O cava...

Tuesday, November 22, 2011

Olhos nos olhos





«Olhos nos Olhos» apresenta, todas as semanas, o olhar de Henrique Medina Carreira e Judite Sousa sobre os grandes problemas financeiros e económicos que atravessam Portugal e o Mundo. Na próxima segunda-feira o programa aborda a corrupção. Para uma análise sobre um dos maiores flagelos mundiais, a TVI24 conta com a presença de Paulo Morais, antigo vereador da Câmara Municipal do Porto. «Olhos nos olhos», com Medina Carreira e Judite Sousa, na segunda-feira, dia 21 de Novembro, às 21h30, na TVI24.



Sunday, November 20, 2011

Esboço (en)tarde(cer)...

A vida é, na verdade, toda a verdade. De coisas boas e más, vão-nos sobrando cansaços e cabelos brancos mas viver, escrevia Pedro Paixão, todos os dias cansa. E cansados, vamos amontoando as experiências ao lado dos amigos, lado a lado e riscando os dias ao calendário.
Tem dias em que o existencialismo nos esboça nuvens e outras em que nos aponta caminhos.
Fico-me com o grande tema de Carlos Paredes, interpretado pelo quinteto Belle Chase Hotel e pinto de verde este final de tarde invernoso que do Outono, roubou apenas as folhas amarelas dos carvalhos  e as sacudiu,  ad hoc, nos passeios e ruas desta avenida...
Os resistentes, menos-existencialistas que eu, deixam-se engravidar da esperança exterior! Porventura, a mesma que eu encontrei nesta interpretação (guitarras que apaixonam) dos verdes anos.
Magnífica, by the way. A serenar, fica, então este esboço imortal de Carlos Paredes.

Friday, November 18, 2011

Tom Waits



 It is so hard And it's cold here
And I'm tired of taking orders
And I miss old Rockford town
 Up by the Wisconsin border
But I miss you won't believe
Shoveling snow and raking leaves
 And my plane will touch tomorrow
On the day after tomorrow

Tuesday, November 15, 2011

Monday, November 14, 2011

Lost gold, poor world



Like a puppy on a trampoline
What do you mean?
Bewildered
We heard you laughing
 What do you mean?
Felicity
It is a vibration
 it moves in a wave
You are a surfer on that clarion tone
 I hope so, we know so, I hope so
Like a salmon headed up a stream
What do you mean?
Ambivalent
We heard you whistling
 What do you mean
Contentment

Saturday, November 12, 2011

Este post não sofre da inflação do IVA

Os livros não vão ser atingidos pela subida do iva para os 23%, ou seja, ler continua a custar 6% dos seus benefícios. Mas vale a pena. Receber mundos do mundo.
A revista que o meu irmão compra (a Ler) custa 5 euros. É cara mas é barata!
Li avidamente, talvez avida demais. Encontrei crónicas divertidas, interessantes, fascinantes, entrevistas inesquecíveis, apontamentos e resenhas dignos de nota. E de lá trouxe algumas sugestões de livros que quero ler e de outros que já li.
Alguns desconhecidos que despertam a curiosidade, como Andréa del Fuego, brasileira, da sua trilogia
 " Minto enquanto posso", "Nego tudo" e "Engano seu", segue-se o livro agraciado (quiça o seu último) pelo prémio José Saramago de 2010: "Os Malaquias". Ainda para quem goste de literatura intimista com muito romance à mistura, Júlia Navarro em "Diz-me quem sou!" Surge ainda um outro nome a deixar-me muito curiosa, Ali Smith, a escritora de "Amor livre e Outras Histórias (da Quetzal).
Gabriel Garcia Marquez é autor para ficar num imenso corredor sozinho, de onde nos encanta e seduz a cada livro escrito, caso disso todos os que escreveu e ainda mais este "De amor e outros demónios".
A crónica de José Eduardo Agualusa anda entre as osgas, anões e pérolas e retrata uma análise interessante sobre Rosa Montero, a autora de livros entre os quais destaco os que li, "A louca da Casa" - sugestão da Ermelinda que agradeci - e "Instruções para salvar o mundo"...e este autor faz a ponte entre o seu livro "O ano em que Zumbi tomou o rio" e os livros da autora a quem diz partilhar uma obsessão por osgas e anões. Sobre os escritores em geral, ele diz: Obsessões, revoltas e paixões são a areia que inquieta o espírito dos escritores, escrevemos como resposta a estas inquietações.
Outra das leituras recomendadas será "Peregrinação" de Enmanuel Jhesus. António Lobo Antunes e o seu mais recente romance "Comissão de Lágrimas", "Construir o inimigo" de Umberto Eco,  "Os profetas" de Alice Vieira, "Viver no fim dos tempos" de Slavoj Zizek, "O filho de mil homens" de Valter Hugo Mãe e ainda de João Magueijo, o autor de "Mais rápido do que a luz", "O grande Inquisidor" editado pela Gradiva. As entrevistas literárias acontecem entre George Steiner e António Lobo Antunes (sem cortes) e também foi entrevistado por Carlos Vaz Marques, João Magueijo que, do seu país diz: Portugal devia ser fechado para desinfeção".
Para reler, "As rosas de Atacama" de Luís Sepúlveda, "Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez
Depois, recomendações para se deliciar com os poetas. Não precisamos de recomendações destas, na verdade é tão fácil cairmos nas malhas vastas da poesia, mas em jeito de mote: Tomas Transtromer, T.S.Elliot, Charles Baudelaire, Al Berto, Yvette K Centeno, Ana Luísa Amaral, António Ramos Rosa, Ruy Belo,  Helena Carvalhão  Buesco, Hélia Correia, José Agostinho Baptista, Manuel António Pina, Rosa Alice Branco e tantos (...) outros.
Esta revista é um sem número de sugestões abertos em todas as direcções e áreas artísticas, assim este resenha minha do que li fica aquém literalmente do muito que se pode ler por lá, na Ler.
Mas depois, no Diário de Notícias, para além do grande artigo dos 80 maçons portugueses, encontramos sugestões cinematográficas como Os inquietos de Gus Van Sant, o mesmo realizador do filme polémico sobre homossexualidade, Milk. With eyes wide shut de Stanley Kubrick, filme intenso onde a raíz de uma sociedade secreta e os seus ritos iniciáticos ficam expostos de uma forma algo febril, conta com as participações de Tom Cruise e Nicole kidman no protagonismo. Ainda com o mesmo sopro, uma leitura surgida na sequência deste filme, Frederic Raphael e o seu "With eyes wide open", deslaça a montagem de Kubrik. Ainda em matéria de cinema, porque Wim Wanders é sobejamente conhecido enquanto realizador (As asas do desejo, etc), este autor vira-se agora para Once que vai despertar uma onda de interesse à volta dele. E ainda a dar que falar "Pluto" de Barrie W. Jones. Ben Hur for reeditado. "Tulpan" também vai dar que falar e é de Sergey Dvortsvoy, de Bradford Cox, "Parallax". Em matéria de música, Sérgio Godinho com "Mútuo consentimento" e Jorge Palma "Com todo o respeito", vão preenchendo as páginas em branco nacionais, entre outros. Sparklehorse edita novo album "Dreamt for light years in the belly of a mountain", corroborando que a música é um espaço onde se hospedam os príncipes e os plebeus, onde a crueza é apenas e somente a amplidão acústica do aspecto mais humano em nós. Sigur Rós lança Heima, dvd que mostra a relação forte existente entre a banda e o seu povo, depois de tournées à volta do mundo. Arvo Part edita Lamentate e Carl Orff Orpheus. Um dos meus cantores favoritos edita Bad as me, o enorme Tom Waits. A par da revista Ler que não é gratuita e vai tendo comparticipações de organismos, a Inútil é uma revista de vários autores feita por carolisse e amor às artes e dessa forma distribuída. Cheias de conteúdos. Importante também saber que em termos de webmania, foi realizado um estudo acerca do site Second love onde se chegou à conclusão que a infidelidade aumenta a auto-estima aos portugueses (não aumentará a todos?) E para um prazer maior, Cinematic Orchestra. To build a home.



A crise a dar o mote

Thursday, November 10, 2011

Friday, November 04, 2011

Branca esperança




Não perdi a deus; perdi a crença no homem e isso afastou-me de deus...

Saturday, October 29, 2011

Do peso da ortografia na expectativa



Nunca, palavra brava
que arranca possibilidades à vida,
árvores à terra
devastando céu e mar.
Pode retirar-se afinal,
tal como Sempre,
que sempre é muito tempo
é brutal, secular e omnipotente
vocabulário pertencente
apenas ao mundo dos deuses
que esses podiam aplainar doçuras
e converter paraísos ao plano infernal

E se substituíssemos por infinito
etéreo, efémero, virtual, intangível,
lá onde o amor mora
na eternidade dos sentidos
e se demora
nas carícias e beijos de boca colada
e nos permitíssemos amor
sentidos que afloram entre verbos
que dificilmente utilizam pretéritos
aflitos e evitam futuros entornados,
colar pele na pele, seio na coxa
e inventar outros ais não catalogados?

Dispensemos tudo e nada
que grude nós
no umbigo, nariz, duvido
a sós, suspiro
sem eternidades temporais
relógios dispensados
palavras que se convertem em dramas
existenciais
restamos ainda os dois.

Esse país, Bana

Friday, October 28, 2011

de arquitectura mais simples

O amor pode acontecer
num dia assim,
céu limpo,
uma manifestação de asas,
horizontal,
a visualização do Olimpo
Ou, na entrada da igreja paroquial
um querubim, papo d'anjo, arpão,
uma promessa de sol
e um desejo de fazer tudo diferente
seguindo a mesma linha,
a linha do coração.

Sunday, October 23, 2011

A loucura enquanto eureka




“Quase em toda parte, é a loucura que aplaina o caminho da idéia nova, que condena a
imposição de um costume, de uma superstição venerada”, como diz o próprio Nietzsche.



in Aurora.

Friday, October 21, 2011

I dont wanna fight

Carta de alforria
















...aludias frequentemente
 ao mesmo registo enfadonho
de cobrança e fastio
"Uma promessa que se quebrara"
Verdades não são eternas,
feliz, felizmente.

O sentimento novo,
o novo disto?
Um novo registo meu
o da substituição
do meu cansaço pela retoma
de um self
- dos dias e noites
correntemente desbotados
de alegria


quero-me livre
quero-me inteira
quero-te longe
a serenidade tomou-me
e há-de eliminar
os pingos de agonia.

De ti, em mim saberão pouco,
nem bem nem mal,
não constas no futuro


foto de Francisco de Oliveira

Tuesday, October 18, 2011

Coisas que o tempo me há-de dizer




Time has told me
You're a rare rare find
A troubled cure
For a troubled mind.
And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore.
So I`ll leave the ways that are making me be
What I really don't want to be
Leave the ways that are making me love
What I really don't want to love.
Time has told me
You came with the dawn
A soul with no footprint
A rose with no thorn.
Your tears they tell me
There's really no way
Of ending your troubles
With things you can say.
And time will tell you
To stay by my side
To keep on trying
'til there's no more to hide.
So leave the ways that are making you be
What you really don't want to be
Leave the ways that are making you love
What you really don't want to love.
Time has told me
You're a rare rare find
A troubled cure
For a troubled mind.
And time has told me
Not to ask for more
For some day our ocean
Will find its shore.

Wednesday, October 05, 2011

Zakaria, Fukuyama e Huntington - What future for human kind?

Zakaria ...intersection on universal New Order
 Fukuyama...end of history Huntington....The clash of civilizations

El Greco - The painter

Full movie.

A danação de Fausto por Berlioz



Final Scene.

Tuesday, September 27, 2011



Prescrição médica para toda a família em jeito de ritual poético.
Por Dr. Pedro Afonso, psiquiatra no hospital Júlio de Matos.

Monday, September 26, 2011

Ninguém sai da política "com as mãos limpas" - JN
D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa sobre o papel da sociedade junto dos governos e o papel da Igreja na política.
Vídeo que merece a pena ser assistido, partilhado pela Amélia Pais.


Friday, September 16, 2011

Pedro Mexia



Identidade
A identidade, como a pele, 
renova-se, perde-se de sete 
em sete anos, muda no mesmo 
corpo, torna diferente 
a permanência humana. 
A identidade é a soma 
das intenções, uma foto 
instantânea para um propósito 
imediato que não dura. 
A identidade é um equívoco 
para camuflar o coração. 

in  "Duplo Império
"

Thursday, September 08, 2011


Paulo José Miranda, Crónica Repetida

ISTAMBUL SEM METAFÍSICA


Em Istambul, não há metafísica. É uma cidade onde o que há, vê-se. Vê-se a riqueza, vê-se a pobreza, vêem-se os ricos, vêem-se os pobres. Vê-se quem acredita em Deus e vê-se quem não acredita em deus. E vê-se o mar, através das janelas grandes, abertas, de cortinas corridas para que haja luz entre os olhos e o mundo. Vê-se dos inúmeros terraços e esplanadas onde as pessoas se sentam para beber, falar e prestar culto ao verbo ver. E vê-se dos barcos, porque aquele que vê também se vê. Nada se esconde. Deixo a estação de barcos em Kadikoy, na Ásia, o barco passa junto às dezenas de garças negras, estáticas sobre as muralhas, a lembrar soldados numa missão de guarda a um qualquer importante posto. E, já em pleno mar de Mármara, com a Ásia do meu lado direito e a Europa do meu lado esquerdo, lembro as palavras do meu amigo Cevat, que deixei debruçado sobre uma tradução francesa do Poema Contínuo de Herberto Hélder: «A língua turca não permite existencialismos. Uma língua não consegue dizer o que não tem. Como bem sabes, nós não temos o verbo ter, e já reparaste que em turco não se consegue dizer “a língua turca não tem o verbo ter”? De facto, a língua turca é um estranho mundo interior. Nestes enormes barcos de transporte de passageiros, entre Kadikoy e Besiktas, pode-se fumar nas partes exteriores e beber chá e comer simit (um pequeno pão em forma de colar coberto de sementes de sésamo), o que faz com que inúmeras gaivotas se aproximem velozes em busca dessa guloseima. De todas as vezes, lembro sempre, apreensivo, o filme de Hitchcock. Ser-se escravo da memória é inevitável. E, por entre o fumo do tabaco e o cheiro do chá lá entramos no Bósforo, gaivotas e eu, cada qual com as suas dependências. Perguntam-me se tenho lume, melhor seria dizer: “o seu lume há?” Sorrio com a lembrança do meu amigo Cevat e lá lhe passo o isqueiro. “Muito obrigado”, recebo em troca. Atracamos em Besiktas, chegámos à Europa, em vinte minutos. Junto ao cais um outro amigo me espera, Ersan, com quem aprendo acerca das culturas Hitita, Bizantina e Otomana. A nossa conversa, obviamente, segue numa taberna, junto à estação dos barcos, por entre copos de raki, queijo e melão. «O nosso problema», diz, «é que não sabemos qual deverá ser a herança que devemos reivindicar como nossa. Somos descendentes dos hititas ou dos bizantinos? Dos otomanos ou da revolução levada a cabo por Ataturk? E, aceitar uma herança otomana, não será ir contra a República Turca? O que é que nós somos, diz-me?» Para mim, penso, a comida parece-me bastante otomana e mediterrânica, o modo de se beber e a organização do estado parece-me bizantina e a aspiração à CEE parece-me bastante kemaliana (Ataturk). Bebemos, comemos e saboreamos o silêncio que nasce em torno dos copos de raki. Nada dizemos, sentimo-nos esmagados pela imensidão de passado que atravessa a nossa tentativa de compreensão. Olhamos os barcos, as gaivotas, o Bósforo, as lindíssimas mulheres que entram e saem dos barcos, de mini-saias, de calças justíssimas aos corpos magros ou de vestidos largos e lenços na cabeça. O que nos acontece é que, perante o majestoso universo da história, acabamos por inadvertidamente deixar-nos engolir pela incompreensibilidade do presente. «Queres boleia para casa?», pergunta-me. Respondo-lhe que não, que fico mais um pouco com o silêncio do raki e que depois apanho um autocarro. Hoje a conta é minha, digo. Beijamo-nos e parte. Penso no túmulo hitita em Kaleykoy, no Mediterrâneo, entre Olimpus e Kas, meio afundado na água. Penso ainda no meu amigo João, com quem, ali, há três anos atrás saia à noite de barco para caçar javalis nas pequenas ilhas desse mar. Se não caçássemos, largávamos as redes e pescávamos. Certo era virmos carregados de morte para casa. Morte que cozinhávamos e comíamos. Era domar a morte para nos alimentarmos. Sentíamo-nos próximos do túmulo no meio do mar, próximos de um passado inexprimível. A caminho da paragem paro ainda num vendedor de programas de computador: «Tudo a 3 milhões.» Ou seja, tudo a 1,80 euros. E sinto uma satisfação quando ponho as notas na mão do rapaz, sinto estupidamente estar a prejudicar o capitalismo do mundo. Por vezes, os actos estúpidos ajudam mais a viver do que os actos inteligentes. O autocarro, a esta hora, claro, está cheio, o que me deixa mais próximo de mim. Nestes momentos tenho plena consciência de que não sou daqui. Esta fuga para dentro, a recusa em ver, em deixar que a minha vida seja os olhos, denuncia-me. É como um letreiro na testa: sou estrangeiro. Mas lá vou, Bósforo adiante, na direcção do Mar Negro e a pensar no que é que o Cevat pensará dos poemas de Herberto Hélder. Depois de passar Arnavutkoy, no outro lado do Bósforo, na Ásia, o pequeno palácio onde os sultões costumavam passar os verões está todo iluminado de uma luz branca e intensa que inunda o escuro das águas, tentando competir com a lua cheia, enorme, sempre tão enorme, tão perto de Istambul. Não consigo evitar e saio na próxima paragem. Volto para trás, para as tabernas de Arnavutkoy, os brancos da lua e do palácio trouxeram o branco do raki à memória. É a época do bonito, frito, acompanhado com rúcula. Uma dose, pois claro! Sim, senhor Irfan, traga raki, mas sem água. Apenas gelo. No mar, o peixe já teve água que chegasse. É uma piada sempre segura. A taverna não está cheia, por isso evita-se os incómodos ruídos das conversas. E também não está vazia, protegendo assim da melancolia exagerada que os brancos da lua, do palácio e do raki (logo que o gelo começa a diluir-se) produzem nos fígados mais sensíveis. E aqui há sempre o melhor dos rakis, o de 50% de álcool, com a fotografia dos poetas turcos no rótulo. Assim, lá tenho eu outra vez, à minha frente, sobre a mesa, o meu amigo Cevat. Isto sim, é que é uma bela homenagem à poesia: pôr os poetas nas garrafas do que é bom! Com um sorriso e o prato de bonito na mão, o senhor Irfan diz-me que em breve começa a época das adoradas anchovas. Claro que sei! Estas coisas, sei sempre! Em breve lá vão começar as peregrinações às tabernas, em busca dessa dádiva do Mar Negro. Continuo o raki muito para lá do peixe. E, já sem clientes, o senhor Irfan, como de costume, senta-se à minha mesa. Pega em dois copos, vaza raki com água e gelo num deles e no outro põe só água. É um clássico, este senhor Irfan! Não vai demorar muito para começar a falar mal dos políticos e do treinador do Galatasaray (clube de que é adepto e que este ano vai de mal a pior). Concordo e brindo a isso. Os políticos são os políticos e o futebol é o futebol! As tautologias também são sempre seguras, aqui, na taberna de Arnavutkoy. Está visto que temos de vazar a garrafa, acabo por dizer. Ri-se, concorda e chama-me (como sempre a esta hora) «português maluco». Chamo-lhe maluco do Mar Negro e enchemos de novo os copos. É muito tarde quando regresso a casa. Apanho um táxi. Para Baltalimani, por favor. Lá vou outra vez a olhar para dentro, como um estrangeiro. E agora não é pelo excesso de pessoas, mas pelo excesso de bebida. Em casa, ainda me sento na varanda a olhar o Bósforo. Os cargueiros e os petroleiros passam lá em baixo como fantasmas. Julgo mesmo que, de tão escuro que são, só os vemos com a memória da luz do dia. Antes de me deitar, oiço ainda a voz do Cevat no atendedor de chamadas: «Gosto imenso do poeta que me deixaste aqui em casa. Muito, muito obrigado.» De nada, Cevat, ainda bem. Amanhã temos mais Istambul, sem metafísica.

Paulo José Miranda,
Istambul, Outubro de 2003

Wednesday, August 17, 2011

Carlos Peres Feio




estou a aprender a não te ter


estou a aprender

a não te ter

é isso

penso no IVA no Iraque e na gripe

pura diversão

para não pensar em ti



não te ter tornou-se a minha crise

maior do que a das economias globais

quando julguei ser um bem

o nosso encontro

mas só agora estou a aprender

a não te ter



isto é uma declaração de amor

mas dolorosa

tive de novo de sair de mim

ouvi-me no que já esquecia

activaram-se circuitos abandonados

só me sobrou o que dispensava

ter de aprender

a não te ter

Tuesday, August 16, 2011



Liar

Telling me a bag of lies
You don't mean a thing you say tonight
You promised me days and days
Now you're gonna go and change your ways
I've seen you 'round somebody else
You must be doin' something else

You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more
You said you'd give me some more

No, no, no, no
Liar, liar, liar

Why you wanna do this to me
I've been so good to you can't you see
I've given everything you want
But seems to make no difference at all
I want your body, I need it now
I need some lovin', I need it somehow
Baby, you'd give me some more

You said you'd give me some more

Monday, August 15, 2011



Pablo Neruda
Não há esquecimento (Sonata)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer "Acontece".
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?

Se me perguntais donde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem a pomba amarelenta que no esquecimento dorme, mas sim faces com lágrimas, dedos na garganta,
e o que desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para lá desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.

Sunday, August 14, 2011

Saturday, August 13, 2011

O puritanismo sacode-se. Não são só as imagens que têm poder, também as palavras, a verbalidade, a expressão dos sentidos o podem fazer. O puritanismo sacode-se de muitas formas. Excêntrico, porém revelador.


alienbaby por helenlafloresta
Um documentário de uma mulher para o universo do pensamento feminino e não feminista.
Não se nasce mulher, escolhe-se sê-lo, O Segundo Sexo, é um projecto escrito por Simone de Beauvoir que contrariamente às expectativas da autora, não chega a caducar. Desde 1949, os prejuízos de ser-se mulher moral, intelectual, profissionalmente, se mantêm. Os números falam por si. Um documentário que atesta isto mesmo. São 52 minutos, sensivelmente e cada segundo conta para nos depararmos não só com o pensamento de Simone mas, mais longe ainda, com o exemplo de vida da mulher que Simone escolheu ser.
De bónus, Nelson Algren, Jean Paul Sartre, Claude Lanzmann, entre outros depoimentos.

Thursday, August 11, 2011

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Vitorino Nemésio

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

Wednesday, August 10, 2011





Eduarda. Tinha os olhos pequeninos. O tempo comera a extensão da iris e o brilho. Apagara a esperança. Ao perder tudo e mergulhada nessa angústia, ganhara o esquecimento dos outros. Que só sabiam da sua existência pelas rosas de santa teresinha, regadas todos os dias no varandim. Não se lembrava de dia nenhum em que os mortos não sarandassem em vagas de luz e sombra pelos corredores da sua casa.
Viver durante o dia tornava-se um copioso arrastar de segundos e gestos onde sozinha se perdia. Quando ia à banca, levantar o jornal diário, o pão e cigarros, a coisa não se sentia solidão. Os dias só podiam ser diferentes por terem nomes diferentes e os estados meteorológicos mudavam a percepção de os sentir, nada mais. Apenas nas primeiras horas da noite, logo após o lusco-fusco, Eduarda deixava de estar só com os seus pensamentos. Era tempo de entreter as almas, servindo chã e scones, confidenciando sobre os convidados de última hora que desconheciam o arrefecimento da sua própria matéria. Eduarda acordava do reino dos tristes nessa hora.





Era audácia aquela de trocar palavras com desconhecidos e, de certa forma, antevia o perigo das imagens distorcidas. Na verdade, esse era o menor perigo, na sua opinião. O perigo maior estava na incoerência de recear os outros. Que mal podiam fazer-lhe, os outros que não a conheciam, mais do que fazia a si mesma? Que isto de ser a estranha naquela cidade continuava a acarretar alguns dilemas, principalmente aos seus familiares e amigos. Mas estava cansada de conviver consigo mesma, de receber sempre as mesmas respostas a todas as suas dúvidas. Precisava de acertos à neutralidade. E quem faria essa diferença senão os outros?
Les uns et les autres...

Friday, August 05, 2011

S.O.S. - LEUCEMIA - AGENTE DA P.S.P.

Alô possíveis dadores de medula óssea da Costa da Caparica e arredores

S.O.S. - LEUCEMIA - AGENTE DA P.S.P.

Saturday, July 30, 2011

Addio Ammore. Savina Yannadou

Friday, July 29, 2011

Tentei
vou continuar a tentar
mas tem sido bem difícil admitir
o erro.

Is it a sin, is it a crime
Loving you dear like I do
If it’s a crime, then, I’m guilty
Guilty of loving you
Maybe I’m wrong dreaming of you
Dreaming the lonely night thru
If it’s a crime, then, I’m guilty
Guilty of dreaming of you

What can I do?
What can I say?

After I’ve taken the blame
You say, "you’re through
You’ll go your way"
But I’ll always feel just the same
Maybe, I’m right, maybe I’m wrong
Loving you dear like I do
If it’s a crime, then, I’m guilty
Guilty of loving you

Thursday, July 28, 2011

Bruce: depois de lhe ensinarem a tocar harmónica...
Long go the days...

A Vida Não é um Sonho: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), de Terr...

A Vida Não é um Sonho: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), de Terr...: "Sublime talvez não seja palavra bastante para descrever este novo filme de Terrence Malick. São filmes como este que moldam a sétima arte e..."

Sunday, July 24, 2011

O mundo anda assim, também na pacífica e civilizada Noruega.
Perdida. Mais um génio ido.

Sunday, June 26, 2011

Monday, June 06, 2011

Projecto Cedência

É dificil partilhar, oh, como é complicado
é dividir as contas, a cama, os bens e o gelado
é terrível manter a calma quando o grito do ego sai da alma!
é prova do diabo quando a discussão acende
e eu continuo a gritar razão, e tu séculos depois me dás a maldita, pra que serve?







mas que faço eu com ela se amuas e embirrentas
tarde adentro? Nem o Bordeaux do sr. Mamede é demais
nem o chocolate depois das oito sabe a menos.

é tão dificil emprestar livros
e cd's que os sinto meus mas estão aí
e o gato, os cães, todos os animais
que eu amo, são o eu versão inumana
e teimas em expulsar os meus afectos,
e quem sabe o que faço
do meu tempo livre senão eu?
E cedes pra que eu ceda.

Entender-nos diferentes é o único caminho
viável
quando todas as outras alternativas
parecem disformes ao projecto inicial.

Saudade


Uma pena a poisar, ao de leve,
no teu ombro,
esta minha saudade silenciosa
sem rumores de se alterar.

E o teu olhar preso ao melro

que beberica na margem e ondula no ar
onde se avistam ás penas o fundo.

eu sinto a casa

tu pensas o mundo.
Meditação recente




Se me fosse dada a possibilidade de ser outra pessoa, que não eu ou a luz, escolheria, igualmente, ser mulher. Mais do que no sangue, está-me na alma.


E se de repente...?



um de nós se apaga, se entrega ao dó
poderá o outro sentir sem descanso
o vazio experimentado
da morte do eco dos seus passos?


Um detalhe de vida me prende e me guia:
- o teu rosto que não esqueço.
A vontade intacta do caminho.
Quando não estiveres, estou eu.
A história do futuro



Passado, desse tempo infernal
de séculos e cometas
de dores e expectativas
estamos vivos e é isso que consta
nos dias presentes:





- nós e as metas já conseguidas.

E guardo-me dos teus olhos
enquanto rasuramos o incerto futuro.


Não profanes o sagrado

eu era o que te importava
um pouco mais que a vida
um pouco menos que a morte

por mim abdicavas das paixões
dos filhos, dos livros, dos amigos
dos segredos, recantos, motivações

como podia amar-te depois?
sem tudo o que me faz amar-te agora?


seríamos um e não dois
o nosso amor viraria pó estelar,
lembrança, rascunho, esquema
aqui neste jornal, em poema


e só poderias lembrar-me
lembrar-me do verbo amar
vulcão extinto na maresia


não, não mates o nosso amor
inventa-me hedones sem dor
recria-me todos os dias
e porque também me importas
vou manter-me como gostas,
das dualidades no amor a mais profana,
companheira e amiga,
a mais louca das amantes na tua cama.
Foto de Fritz Hoffmann
Era uma miúda, quando li 3 vidas de Gorki, o Julgamento de Nurnberg, Oh Jerusalem, Guerra e Paz de Tolstoi, os últimos dias de um condenado, O Germinal de Zhola, enfim, tenho os títulos da biblioteca do meu pai ainda a bailar nos olhos. Lembro-me que a minha mãe vinha certificar-se que estávamos deitados, a dormir ou a preparados pra isso, as luzes apagadas. Ás vezes recorria a velas mas esta alternativa revelou-se um desastre prás minhas roupas escuras e tinha uma bufa entre nós, a minha empregada doméstica, a Lurdes, que fazia queixa de cada peça queimada por mim. E lá se iam os favorecimentos e louvores. Na maioria das vezes recorri ao candeeiro pequeno que colocava ao lado da cama no chão, com uma fralda de pano do meu irmão mais novo. Tinha muitas, se alguma se queimasse com o meu descuido, havia sempre forma de não dar "barraca". E por volta dos meus 11 anitos aprendi a negociar com a Lurdes, depois de ter descoberto o seu ponto fraco. O Neca, bombeiro que ela gostava de ir namorar, por volta das 11h da matina e depois, por volta das 18h. O Neca foi-me de grande utilidade também prós livros. Quando ela se atrevia a ameaçar-me chibar as minhas leituras noite dentro, ou as asneiras dia fora, eu fazia ela pensar melhor, trazendo o Neca á baila. A minha mãe nunca concordaria com os escapes dela pra namoriscar durante a semana, sabendo que as suas três crias ficavam á sua própria mercê. Pobre mãe que nem imaginava as vezes que tal acontecia. Depois, por volta dos meus treze anos, cansei-me deste peso que a literatura tinha. O mundo dos adultos contados nestes livros do meu pai eram feios, pouco sedutores, traziam muito sofrimento e a letra era muito pequenina, penso eu hoje, que os meus olhos se gastaram nessas noitadas. Não descansava enquanto não os terminava. Como dizia, aos treze anos, a par com a descoberta dos mamilos e da menstruação, com os segredos das adolescentes escondidas no wc e os vestidos de folhos, atrevi-me a ir prá leitura das moças. Os Corin Tellados, as Sabrinas, e já não me lembro mais das restantes colecções. A minha tia Joaquina tinha magotes destas cenas. A única coisa que magoava nesta literatura era o membro tungido que surgia em nome do amor. E corria sempre bem. O Kurt, afinal, não era casado e tinha estado amargurado na sua casa em Funn por conta do desgosto que a Vanessa Soraia lhe tinha provocado com aquele abraço dado ao John que, afinal, bem vistas as coisas era irmão dela. Nada doía. Mas foi assim que descobri o amor romântico que tanto teimavam em esconder-me. E também foi nesta altura, mais coisa, menos coisa que me apareceu ás mãos, num fim de semana em casa da tia Rosalina, o livro Yargo, da Jacquelin Susan, que me deixava livre na fantasia e nos cenários...Et's a mais, deduzo. Uma humanidade que se vê redescoberta por outros mundos, uma lágrima analisada á lupa, uma perfeição longe do paraíso.

Com 40 anos já feitos e um percurso sem linhas rectas a todos os níveis, penso que a crueldade é uma particularidade do humano básico, do que não acompanhou a raça. Claro que sei que a crueldade existe no dia-a-dia, na casa ao lado, na rua paralela á minha, nas, aldeias e nas cidades, nos montes e nas selvas. O marido que espanca a mulher quando volta bêbado a casa, na mãe que perde a paciência e bate no seu filho, as crianças que se espancam mutuamente num recreio escolar, na pessoa que vê violados os seus direitos ao trabalho, á saúde, ao alimento, na pessoa que se vê vítima de insultos e humilhações, de assédios e perseguições, os animais que são esfolados vivos pra que as nossas sociedades possam consumir futilmente acessórios, como cintos, casacos e carteiras handcraft work, para nos sentirmos mais lindos, mais in, mais vivos!!!Cor de rosa nunca foi a minha cor preferida. Sempre preferi os verdes e ás vezes os cinzas e castanhos. Hoje, dia 26 de Fevereiro deste ano de 2009, um dia igual aos outros, com a particularidade de ser diferente porque está sol, a Carmen, minha tia querida, enviou-me um video tremendo sobre a crueldade cometida contra as mulheres no Islão. Ontem enviou-me o Zeitgeist, o Dem (chip sis) e hoje isto. Há dias em que, tal como sonâmbulos parecemos aceitar tudo o que de mau existe, sem nos apercebermos de que esse tudo é muito do que existe, ainda, entre nós. Mas há outros dias em que não sabemos o que fazer com esta consciência enojada, com esta dor no peito ou com este nó na garganta. Ser humano, afinal de contas, é aceitar que a cultura pode doer noutras latitudes???

Apedrejar uma mulher na rua, espancar de pontapés e escárnio, até que esta sangre, até que morra, por ter cumprimentado um homem que não é de família, é culturalmente aceitável??? Extirpar o clitóris ou fazer uma cirurgia ao pénis não deve ser bem a mesma coisa. Teremos nós o "direito" de calar? Como disse Obama no seu discurso de tomada de posse, a propósito da religião ou religiões, da tolerância religiosa pela maioria, se Deus pedisse a Abraão hoje pra este sacrificar o seu filho, seria preso, ser-lhe ia retirada a criança. O mundo evoluiu mas não os sentimentos básicos e instintivos chamados ódio, desprezo, inveja, raiva, crueldade.
Lamentamos sentir este tipo de coisas mas é delas que continuamos a ser feitos...

Já não leio Corin Tellados e nem Tolstoi ou Zhola mas posso dizer-vos que continuo a sentir o peso de todos os livros escritos, de todas as perspectivas recebidas em nome da cultura e nada disso ser importante pra melhorar este conceito de humanidade. Na realidade, é isso mesmo que me pesa. Darwin, já longe da Origem das Espécies, na "Descendência do homem" profetiza o que hoje sabemos ser verdade: "O homem ainda traz em sua estrutura fisica a marca indelével de sua origem primitiva."

Todo o resto são trocos. Indignem-se ou metam a cabeça na areia como a avestruz. A ver se os homens do Islão se importam!!


No Carnaval dos teus braços



abrir a boca ao beijo
abrir as pernas ao segredo
que me vais contar com a mão
abrir o sexo á palavra quente
abrir-me em copas, ardente
deitar as pálpebras no cobertor
da tua pele e beber mel

vou sentir-te distante
dentro de mim
abrir-te o desejo guardado
e provar de ti a noite,
o nosso ardor de tempo cozinhado
vou bordar um sem-nexo,
mastigar o poema revelado,
esgrimir esse teu sexo
Virás pedir-me pela manhã
o café e a nicotina
sussurrar o amor em surdina
espreguiçar-me ei no teu abraço e
sem grande estardalhaço
enroscar-me novamente

fazer do breve eternamente
e oferecer-me ao diálogo carnal
das nossas mãos urgentes
deslumbrar-me ás
com os mistérios do madrigal e,
no teu sexo, eu, mascaro-me de gueixa
e serves-me uma e outra vez até esgotar,
o carnaval
Os pássaros chilreiam e poisam em saltos intermitentes. Toda a relva no seu esplendor rejubila verde e fertilidade, ainda húmida da geada da noite. São 6h da tarde, de uma tarde qualquer - que perderam importância nas tardes, nas outras tardes em que havia fogo no sangue. Como disse, são 6 da tarde nesta tarde qualquer e não há ameaças de pôr-do-sol com fitas laranjas e rosa no fundo do horizonte. Tudo se assemelha aos cinza-húmidos-colados á derme e á dermatose provocada pelo inverno. A perturbação de fios eléctricos não atenua o sentido negro-vacuum. Os cães apreciam esta pseudo-quietude. As lebres escondem-se, assim como as toupeiras, raposas e cobras. Até se certificarem que os animais de grande porte, como eu ou os meus cães se calem, sinal de desaparecimento. O único cão que reclama o silêncio parece estar distante demais para perturbar seja o que for. E dentro de mim, onde mora a paz que este lugar me destinou? E em mim, porque não sossegam as dúvidas e os dias?
Sinto-me dentro de um nevoeiro denso, líquido, cruzando entre as árvores de grande porte e os arbustos, gritando os ecos que deixei de ouvir. De um verde musgo, o casario divide-se nas partes mais altas. Um pontilhado de almas com destinos indecifráveis. Ouvem-se morfemas e fones mas não se entendem os contextos. As mensagens ficam presas nos fios eléctricos destas torres de mau aspecto, como gigantones ets, prontos a devorar a saúde dos que permanecem.
A única prisioneira de sentidos pareço ser eu, neste meu mutismo aparente, a descolorir o vermelho da estação passada, em alertas cerebrais.
As dálias rosa querem abrir, as flores da japoneira, finalmente, encontram cor. Os pequenos amores perfeitos mantêm-se tímidos e as ramadas permanecem esteréis, determinando o meu limite territorial. Em vão, vou pelos dias dentro, ancorada ás saudades e ás dores antigas, como tatuagens eternas. Em vão, vão meus beijos mar afora, nesses grandes barcos que nunca chegam a ti. Suspeito que é aqui que se dividem passado presente e futuro, sem mais recursos ou alternativas. Em vão?

Preciso de me ancorar, fixar num porto.
Por isso, recolho textos de um outro blog que vai desaparecer, o To be a Woman.
Os textos são autobiográficos e quando não têm nome de autor significa que o autor é de casa.
Conjugo-te o verbo saudade do cio




eu sinto-te mais dentro
tu sentes-me ao cio
nós sentimos tanto
quando enrolamos
coxas nas pernas, pingando suor
sexo furando, ponto orgâsmico
e na boca receptiva,
em flor.
Es-gota-do teu rio.