Monday, February 08, 2010


Maria do Rosário Pedreira

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros











O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.

As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras

são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos

outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,

tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar



a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor

à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia

laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar

ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.

Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,

antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente

a infância, postais antigos, o silêncio - nada



aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,

à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos

estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias

se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe

de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

 
in A casa e o cheiro dos livros

4 comments:

Multiolhares said...

Tantos de nós temos sonhos que não contamos a ninguém,e lemos o nosso livro escrito com os sonhos do tempo
beijinhos

innername said...

beijo :)
e lemos o nosso livro escrito com os sonhos do tempo na ágina dos outros ;)
todos diferentes, todos iguais

arabica said...

Os livros que nunca ninguém saberá ler como nós. Os livros que manterão a linha d'água da memória à superficie. Nós em palavras, nas tardes de verão.

Um beijo.

innername said...

é verdade Arábica. Nós (todos) em cada registo pessoal. Nas tardes de verão. Bem escolhido.
bj