Wednesday, June 24, 2009




O dia amanheceu húmido de orvalhos. Ainda estou a ver a noite desenhada sem estrelas mas com cambiantes maiores, mais móveis: os balões da festa largados, o fogo a aquecer as paredes de celofane colorido, verdes, rosas, azuis e brancos desmaiados. Subida vertiginosa. Cai-não cai-incendeia-se no ar.Estrelas móveis. O cheiro e o fumo das sardinhas enchiam o ar de todas as casas e quintais. A música popular misturava-se aos cantos e esquinas de onde quer que fossemos. Não fomos, ficamos. Quedamo-nos como estátuas que analisavam possibilidades de movimento. Sem realmente nos movermos. Disseste-me que o Universo continuava ascendendo. Que sim, confirmei, que sim. Que sabia eu do Universo, com excepção deste pedaço de céu onde via recortada a realidade, a dos animais e das flores, das plantas e das pessoas estranhas e conhecidas?

Agora que tudo acalmou, que até os automóveis ronronam no sono e cansaço dos humanos, levanta-se este nevoeiro de onde, algures, hás-de surgir tu. E tu és verde, garantidamente verde e prometes, todos os dias, dias melhores. A eternidade já conheceu o seu perfeito momentum. Quando inventam novos parâmetros pra nivelar a esperança? Que os dias não chegam para as decepções mundanas (mundanas no sentido de corriqueiras, frequentes, lugar-comum) entre humanos...

O orvalho erguer-se á ao som do latido dos cães, da boca aberta das árvores e flores, do canto persistente das andorinhas. E a minha boca seca, como os desertos que ainda não conheço, diz-me que antes da terra, tem de haver água a anular a razão para os afectos. Que somos ilhas direccionadas para o abismo das fontes. Que somos rastilhos de pólvora seca que se esquece de rebentar. Que é urgente encontrar o verde, o melhor que há em nós, antes de colidir com as restantes ilhas. E dou comigo a baixar o lume do fogão, adicionando uma colher de chã de folhas verdes á água em ebulição. Sirvo-me de uma poção e o dia há-de prosseguir, quer eu queira, quer não queira.
foto de Lúcia Inês

2 comments:

Arabica said...

E nem o chá em ebulição verde dentro de nós, nos salvará dos abismos necessários.

Cumprir-se-ão, em sentido inverso, aos balões, ano após ano, céu acima.

Gostei de te ler. Muito.

Abraço

innername said...

Obrigado Arábica, pela visita. Gosto que gostes. Abraço