Monday, April 13, 2009


O sabor da palavra provincia




Recordo-me com alguma desfocagem imagética, admito, do tempo de infância primeiro, em que tomei contacto embasbacado com o campo, as suas gentes e cores. Mas deve ter sido um choque, á semelhança do que senti quando entrei no serviço Enfermaria p 09 ou residência de psicóticos, no antigo hospital Conde Ferreira, actual Centro Hospitalar com o mesmo nome mas agora pertencente à Santa Casa da Misericórdia. Realidades fora do âmbito do que estamos habituados a lidar com, nunca nos deixam indiferentes, seja positiva ou negativamente. Comigo, ambas resultaram positivas. Com relação ao campo, a minha mãe descende de uma família humilde da província e, embora tenha perdido muitos dos laços afectivos que a iam unindo a esse mundo (foi pra cidade jovem ainda, com 12 anos, logo após a morte dos pais), continua a ter alguns irmãos vivos nas suas origens. E foi através deles, tios e tias, que tomei o gosto á terra, aos campos, ao feitiço das semeaduras e das colheitas, ao cheiro dos amanheceres e ao romper da noite, ao frio e á chuva, ás receitas partilhadas na intimidade de uma cozinha de lenha e aos ditados populares. Acabei por me apaixonar por tudo isto, pela maneira como chamam as pessoas o nome ás coisas, á sua forma angulosa de ver o resto do mundo. Mantenho algumas reservas quanto à religião e mais ainda nestes meios rurais, perfeitamente explorada pelos seus representantes. O que é certo é que nem tais reservas conseguiram tirar-me da ideia vir morar num lugar que nem no mapa vem, numa rua até há pouco tempo sem nome e nem número, onde quando se vai á cidade comprar, ainda se usa o vocábulo mercar, o então ainda é vocábulo pouco presente em sua representação ouve-se o adei, pensar os animais - alimentá-los, etc. Os habitantes, a par do nome próprio, têm apelido ganho pelo povo do lugar, do tipo Luís de Beco, Micas de Cosme, Maria Zé lo Lúcio, ainda Manel Carteira Grossa ou Maria da Naia. De uma riqueza cultural que não acaba. Assim como, para semear ou colher, espera o povo a conjugação meteorológica a par da sabedoria antiga. A lua nova ou os quartos crescentes. O arejo e a geada, o calor e a orvalhada ganham uma dimensão dantesca para todos os que vivem e sobrevivem á conta da agricultura. Os estranhos são temidos e espreitados, a desconfiança não lhes retira a hospitalidade mas só aceitam ou não os ditos estranhos, quando confirmam os seus pareceres íntimos. Claro que ainda me vou sentindo um pouco estranha, aqui e acolá, porque sou da cidade, do bulicio dos carros e das multidões. Quem me conhece, não acredita na escolha que fiz, na troca eterna da praia - de que tenho saudades e muitas - pelo acordar ao som dos pássaros, do meu galo pedrês ou das avé-marias na capela do desterro. Aqui, o limite é não ter limites nem canseiras. Os animais são colocados a pastar cedo, faço o "penso" deles logo pela manhã, onde me perco a espreitar ou imitar o linguajar dos galináceos, dos cães ou gatos, das andorinhas que o ano passado esmeraram-se no ninho no alpendre da minha churrasqueira e voltaram novamente carregados de filhos e malas, no espreitar do que foi semeado ou plantado e cuidar pra que a terra não tenha sede nem fome, regar o pomar e as hortas, adicionar um arbusto, uma flor nova ou um chorão, que os olhos exigem beleza. E acreditem que me perco até no espreitar dos céus, das nuvens, no estudar dos ventos e das trovoadas, no apreciar o sol, na algazarra feita pelos miudos a jogar á bola em ruas sem carros, no entardecer povoado de verdilhões e outros pássaros, de grilos, de assombrações e de silêncios benditos. As rotinas nunca chegam a ser rotinas, mesmo o lavar dos canis, do estábulo, da adega, as sombras, os verdes nunca são só verdes. O campo é cheio de nuances vivas e em movimento, não como o mar que vai e vem, que sempre vem e vai, espumando ira ou glória. Gritando contra as rochas, numa paixão tantas vezes fatal. O campo é mais calmo, aparentemente. A terra é generosa e o homem sabe ver-se e ouvir-se de um outro modo que não vi em urbes nenhumas.

Vejo muita ignorância a par com esta inofensiva e estrondosa beleza de aceitação, existente pela falta de recursos ou tempo, pelo comodismo dos anos mas prefiro-a ao hipócrito desenrolar dos segundos na agitação do que passa e não se saboreia.

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