Monday, April 27, 2009




De Abril de 1974, só más recordações. A liberdade emprestou um sabor amargo que ainda hoje não comemoro com euforia. A morte do meu pai. Voou-se da minha vida. Talvez seja por isso que prefiro flores selvagens. Terrenas. E não é anarquia. É a minha forma de dizer que continua a doer perder ou ganhar. Aprendi, no entanto, com outras perdas e ganhos, a apreciar todos os abris que se enchem de fertilidade e me trazem mais afectos, seja nas germinações da terra, dos animais, seja na presença das pessoas, seja nos momentos de reflexão.

Thursday, April 23, 2009


Recado para um marido atento




Entre fazer publicidade do gabinete, pessoalmente, pelas 38 freguesias pertencentes a Penafiel e consultas e recibos e telefonemas, o dia de ontem chegou ao fim da melhor forma. Jantar a casa da minha prima Alice, algures entre Paredes e Bitarães. Levamos uma garrafa de Chaminé, meia dúzia de ovos moles e um pedaço de broa da que eu gosto e ainda nem tinhamos entrado em casa e já no quintal se sentia o cheiro do frango caseiro no tacho. Ela aguardava-nos chegar para meter o arroz pra cabidela que o meu filho tanto gosta. Montar o pc não foi preciso, o Fernando havia-se encarregado disso. Foi lavar as mãos e sentar. A cabidela estava deliciosa. Acompanhamos este manjar, eu e a Alice, com vinho Gazela fresco. Eles foram-se aos alentejanos. O Tomás ficou-se pela coca-cola. Havia salada de alface e tomate fresquinha. Depois, entre resmungos e brincadeira, começei a levantar aqueles pratos repletos de ossos e a Alice servia a salada de morangos salteados em açucar. Terminamos com cafezinho e só eu com cigarrinho. Passava das 9 horas quando demos de frosques. As aulas do Tomás começam cedo e tem horas de deitar.


No sítio dos Mochos, hoje e mais uma vez, a primavera belisca a terra pra rebentar em fertilidade. E quase se pode sentir isso tal a volúpia com que cada amanhecer amacia o nosso olhar para os brotos do feijão rasteiro, para os caules vigorosos dos tomateiros. As figueiras que haviam sido literalmente devoradas pela cabra Mimi e pelo carneiro Silva, também elas estão em flor. Esta é a minha segunda pele, a não existência perante tudo o resto. Sinto-me em paz aqui. O gato Kiko, sentado no meu colo e olhando o pc pede-me para ir brincar com ele lá fora. Os melros, as andorinhas, as vespas e bezouros, todos se unem na sinfonia desta estação quase disfarçada de verão. Depois de ter levado o Silva e a Mimi para o campo pastar, apanhei ervas e couves para "pensar" as galinhas e pintos. Os cães dormitam, volta e meia incomodados por uma vareja ou moscardo e, a roupa na máquina vai centrifugando. Ao longe, a Maria Zé, filhas e netas andam de volta do campo recém amanhado, retirando ervas ao cebolo, sachando batatas para abrigá-las destas temperaturas que continuam a subir pelo norte. Vou meter umas margaridas de arbusto na terra e verificar se todos têm água, tomar o duche da praxe e dar de frosques que há coisas pendentes e consultas marcadas. A Sofia ficou de aparecer para um cafezinho, lá mais para o meio do dia. Espreguiço-me quinhentas vezes e corrijo as lacunas ou erros e acendo mais um cigarrito. Penso no Ambrósio. Hoje apetecia-me algo de bom... Talvez peixe!

Monday, April 13, 2009


O sabor da palavra provincia




Recordo-me com alguma desfocagem imagética, admito, do tempo de infância primeiro, em que tomei contacto embasbacado com o campo, as suas gentes e cores. Mas deve ter sido um choque, á semelhança do que senti quando entrei no serviço Enfermaria p 09 ou residência de psicóticos, no antigo hospital Conde Ferreira, actual Centro Hospitalar com o mesmo nome mas agora pertencente à Santa Casa da Misericórdia. Realidades fora do âmbito do que estamos habituados a lidar com, nunca nos deixam indiferentes, seja positiva ou negativamente. Comigo, ambas resultaram positivas. Com relação ao campo, a minha mãe descende de uma família humilde da província e, embora tenha perdido muitos dos laços afectivos que a iam unindo a esse mundo (foi pra cidade jovem ainda, com 12 anos, logo após a morte dos pais), continua a ter alguns irmãos vivos nas suas origens. E foi através deles, tios e tias, que tomei o gosto á terra, aos campos, ao feitiço das semeaduras e das colheitas, ao cheiro dos amanheceres e ao romper da noite, ao frio e á chuva, ás receitas partilhadas na intimidade de uma cozinha de lenha e aos ditados populares. Acabei por me apaixonar por tudo isto, pela maneira como chamam as pessoas o nome ás coisas, á sua forma angulosa de ver o resto do mundo. Mantenho algumas reservas quanto à religião e mais ainda nestes meios rurais, perfeitamente explorada pelos seus representantes. O que é certo é que nem tais reservas conseguiram tirar-me da ideia vir morar num lugar que nem no mapa vem, numa rua até há pouco tempo sem nome e nem número, onde quando se vai á cidade comprar, ainda se usa o vocábulo mercar, o então ainda é vocábulo pouco presente em sua representação ouve-se o adei, pensar os animais - alimentá-los, etc. Os habitantes, a par do nome próprio, têm apelido ganho pelo povo do lugar, do tipo Luís de Beco, Micas de Cosme, Maria Zé lo Lúcio, ainda Manel Carteira Grossa ou Maria da Naia. De uma riqueza cultural que não acaba. Assim como, para semear ou colher, espera o povo a conjugação meteorológica a par da sabedoria antiga. A lua nova ou os quartos crescentes. O arejo e a geada, o calor e a orvalhada ganham uma dimensão dantesca para todos os que vivem e sobrevivem á conta da agricultura. Os estranhos são temidos e espreitados, a desconfiança não lhes retira a hospitalidade mas só aceitam ou não os ditos estranhos, quando confirmam os seus pareceres íntimos. Claro que ainda me vou sentindo um pouco estranha, aqui e acolá, porque sou da cidade, do bulicio dos carros e das multidões. Quem me conhece, não acredita na escolha que fiz, na troca eterna da praia - de que tenho saudades e muitas - pelo acordar ao som dos pássaros, do meu galo pedrês ou das avé-marias na capela do desterro. Aqui, o limite é não ter limites nem canseiras. Os animais são colocados a pastar cedo, faço o "penso" deles logo pela manhã, onde me perco a espreitar ou imitar o linguajar dos galináceos, dos cães ou gatos, das andorinhas que o ano passado esmeraram-se no ninho no alpendre da minha churrasqueira e voltaram novamente carregados de filhos e malas, no espreitar do que foi semeado ou plantado e cuidar pra que a terra não tenha sede nem fome, regar o pomar e as hortas, adicionar um arbusto, uma flor nova ou um chorão, que os olhos exigem beleza. E acreditem que me perco até no espreitar dos céus, das nuvens, no estudar dos ventos e das trovoadas, no apreciar o sol, na algazarra feita pelos miudos a jogar á bola em ruas sem carros, no entardecer povoado de verdilhões e outros pássaros, de grilos, de assombrações e de silêncios benditos. As rotinas nunca chegam a ser rotinas, mesmo o lavar dos canis, do estábulo, da adega, as sombras, os verdes nunca são só verdes. O campo é cheio de nuances vivas e em movimento, não como o mar que vai e vem, que sempre vem e vai, espumando ira ou glória. Gritando contra as rochas, numa paixão tantas vezes fatal. O campo é mais calmo, aparentemente. A terra é generosa e o homem sabe ver-se e ouvir-se de um outro modo que não vi em urbes nenhumas.

Vejo muita ignorância a par com esta inofensiva e estrondosa beleza de aceitação, existente pela falta de recursos ou tempo, pelo comodismo dos anos mas prefiro-a ao hipócrito desenrolar dos segundos na agitação do que passa e não se saboreia.

Monday, April 06, 2009






Aprendi a gostar do meu país, quando saía dele. Não só pelas saudades com que ficava dos seus recantos e encantos, nem da gastronomia, nem de andar á solta pelas grandes cidades e encontrar vendedores ambulantes e artesãos, músicos e pés de chinelos inofensivamente ganhando a vida deles. Nem da desordem e nem do caos das filas de trânsito, nem dos polícias á cata da multa, nem dos rumores vindos das tascas e cafés com quiosque onde as parangonas dos jornais diários desportivos e não só fazem ajuntamentos obvios. Nem das pausas pró café que são sempre várias ao dia e nem dos estabelecimentos que o vendem que sãos mais do que precisamos. É do conjunto todo e do sabor que tem o café tomado em chávena quente e pequena. E do cigarro nas esplanadas apinhadas em inicio de primavera. Do cheiro dos croissants quentes com manteiga derretida e do sumo de laranja espremido na hora. Dos pratos fumegantes das francesinhas e do fado cantado em tom de desafio em qualquer esquina com gente bem disposta.

Lisboa está longe de ser a minha cidade preferida. Mas como canta bem Carlos do Carmo, Lisboa menina e moça continua a abraçar e a apaixonar muitas gentes de todo o mundo.

Gostar de Lisboa é reconhecer que apesar de portuguesa é do Mundo. Aberta e permeável ao mixed das culturas e ao enriquecimento que daí advém. Se tivesse que escolher um país único pra viver, a quem dedicar os meus ais todos, não seria nenhuma das que existe. Todas possuem encantamentos e nenhuma reúne o poder furuncular. Se tivesse muito dinheiro, viveria por aqui e por ali, sempre á cata do que me apaixona, dos cheiros da terra generosa, dos animais e das pessoas, dos comportamentos e das artes. Enfim. Estive recentemente em Inglaterra rural. Adoro a cultura que têm de rentabilizar a vida económica através da gentileza de bem servir, de bem receber. Os B&Bs (Bed and Breakfast's) como são bem conhecidos, mostram-nos muito da cultura do povo. E reconheço, oferecem conforto e mordomias a preços convidativos, não só aos foreigners como aos que vêem das grandes cidades e precisam de lá pernoitar. Existem cada vez mais admiradores deste tipo de serviço, também por cá. Faz prova disso a Arábica que inaugurou um espaço em S. Domingos de Benfica, Lisboa, com o Dormir em Lisboa. O Ap está esplêndido e quase "cheira" a romântico" mas prático. Convidativo, no mínimo, seja pra passar um fim de semana de descanso ou a trabalho. Espreita e deixa-te surpreender. Os contactos com a autora do espaço podem ser feitos na própria página, destinada a esse efeito. Quem sabe, um dia destes lá passe pra fazer o devido reconhecimento pessoal. ;) Viajem pra fora, cá dentro!!!


Thursday, April 02, 2009




Nuno Júdice e As coisas simples


Sobre os figos de H. Lawrence

Lawrence aconselhou a que se partisse um figo em 4 pedaços para o comer, depois de deitar fora a casca. Deste modo, pensava ele, a sociedade não veria com maus olhos o gesto de cortar o figo, e de o saborear lentamente, como quem lê um poema. Mas nem todos os figos se podem comer desta maneira, e, no caso dos figos verdes, o melhor é tirar-lhes a pele a partir de cima, sem que ela se desprenda completamente do fruto. E só depois de comer a parte de cima, é que chegará o momento em que só vai ficar um pouco de figo a segurar a casca. Nessa altura, pode.se arrancá-la e acabar de comer o que sobra, para que a refeição fique completa.

De facto, Lawrence também admite esta solução (e aceita que se coma também a casca) mas teremos de ir mais longe do que ele; o que significa que se deve também pensar na figueira. E se, ao comermos o figo, a árvore nos agarra a alma com os seus ramos ásperos, obrigando-nos a afastar as folhas para ver como é que se pode fugir debaixo dela, o sabor que fica na boca lembra a imagem da mulher primitiva, com o seu ventre redondo como o dos figos de S. João, os primeiros que se colhem com um gesto só, ficando inteiros na mão. Então, a mão torna-se um prolongamento da figueira e começo a pensar que talvez possam nascer folhas de figueira dos braços, como se estes fossem ramos e que essas folhas servirão para tapar os figos que irei colher mantendo a sua frescura.

Em alternativa, poderá transformar o tronco da figueira num corpo de mulher nua. E essas folhas irão vesti-la. Mas o figo que tenho na mão far-me á sentir os seus seios macios, fazendo com que ao tirar a casca do figo, a mulher saia de dentro dele, e eu possa chegar á mesma conclusão de Lawrence sobre as múltiplas formas de comer um figo.


in As coisas mais simples, D. Quixote

foto de António Saias na sua Banda Larga