Sunday, February 08, 2009



A Jorge Santiago (poema: A um Velho)


Mete o piano no poema e arranca-lhe mis
e sois e ré e fás sustenidos
e deixa-o gemer contigo. Açoita-o.

Deixa-o chorar as rugas, os amuos
os retratos de saudade, a tesão e virilidade
e a vaidade dos poetas.

Vá, castiga-o, volta-o de costas pra parede
retira-lhe qualquer pingo de natureza viva,
qualquer verde. E se preciso for, renega-o,
pisa-o, desconstrói a dor do tempo e
de qualquer arrependimento. Retira
silicones e botox, o verniz e a sombra.
Despe-o em público e dá-lhe bordoadas.
E mesmo que ao espelho te embaraçes
pelos cabelos brancos do poema, pela prótese
nunca lhe chames velho, nem dele troçes.

Terá sempre um lamiré,
um si bemol pra te dar nos momentos mais obscuros
(o ego a gozar com a tua cara).

Porque tempo de que é feita a carcaça, continua
a ser a melhor invenção do homem
pra separar os feitos e transformá-los em feitios.

4 comments:

Cosmunicando said...

santiago já leu? isso ficou ótimo!
bjos

innername said...

EHEH....O Roger leu, Santiago é que não sei...ele ontem era todo Rogério benfiquista
Bjo Mê

Arabica said...

Gostei imenso de ler, Inner, coração feito piano.

aTé ao silêncio de marfim, das teclas adomecidas.

Eu já de mochila feita, amanhã vou encher os olhos de verde e esvaziar o cinzento da cidade.

Vou-te lendo conforme a disponibilidade dos sítios.

um beijo e uma semana pianissima :)

innername said...

Arabica,
fazendo figas pra que "tudo" corra dentro do esperado. Que seja algo pra recordar durante muito tempo. Envio-te daqui energia positiva da cor da tranquilidade e amor ;) hasta