Monday, January 05, 2009




Antigamente era fácil falar de rotinas ou de cansaços, de olheiras e de corpos partidos, porque nada disso me deixava mal. Na segurança do amor ou no escaldar da paixão não cabem queixas ou indagações. É um quebrar de corpos sem dor, um esgotar de horas nocturnas onde a rotina do teu suor na minha pele causava dependência do prazer, mamilos espetados furando a palma das tuas mãos, ancas viciadas no samba dos teus quadris, num ir e vir, beijos que caíam, desabavam por pescoços e bocas por coxas e olhos. Equiparava as tuas palavras sussurradas e sedutoras aos murmurios de fundo das conchas do mar, á brisa redentora do final da tarde na colina, antigamente eras o mel que me adoçava os dias. É por isto que escrevo, com receio de que as minhas memórias se percam no fundo do mar que já não somos, numa demência de rituais e febres, num transladar de novas direcções e objectivos. Sou eu a praguejar, ainda viva, ainda presente nos meus deslumbramentos acerca de ti. Ainda presa a momentos de luxo nesse tal planeta de afectos onde o teu nome em neon ilumina corredores e salões, esquinas e ruas convexas. Se te doer o presente, grava-me editada em mp3, pra que possas continuar a viver do passado que já fomos, tu e eu. Mas nesse dia jorra-me pétalas em cima e beija o rosto já manchado de humidade, logo abaixo onde diz : Aqui jaz Saudade.
foto de Dionisio Leitão in Da Mulher

2 comments:

Cosmunicando said...

belo... passa uma força e ao mesmo tempo uma tristeza.

innername said...

mercy "mê"...é isso que sinto