Tuesday, December 29, 2009

Why don't you weep?

Brazen

called you brazen Called you whore right to your face And watched you silently And publicly disgraced I didn't notice When you strengthened like a vice That you were trembling And burned beneath the ice Ooh, ooh Why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Nah nah nah nah nah, nah nah nah nah nah Nah nah nah nah nah You said a prayer And I betrayed you with a kiss You never realized That all had come to this So keep your dignity Don't throw it all to waste Stronger feelings Than you've ever learned to face Ooh, ooh Why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Nah nah nah nah nah, nah nah nah nah nah Nah nah nah nah nah, nah nah nah nah nah Oooooh Why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Oh why don't you weep When I hurt you? Why don't you weep When I cut you? You don't bleed And the anger builds up inside Oooh (Nah nah nah nah nah) Why don't you weep? Why don't you weep? Why don't you weep? Why don't you weep? Why don't you weep? Why don't you weep? Weep Weep Weep

Friday, December 25, 2009

For no one


De Lennon no original, aqui com Elliot Smith, também ido. Herança deixada para apreciadores.
Onde me incluo.

Wednesday, December 16, 2009

O paraíso, segundo algumas mulheres

Ela ainda se lembra de arruaceiro e de galã que ele era. Era porque foi toda a vida até mirrar na doença e ser enfiado na caixa a sete palmos abaixo de terra, onde os bichos mendigam alimento.
Lurdes tinha muitos irmãos, tantos que para saber o número certo, socorre-se sempre dos dedos cheios de peles finas, mãos bonitas pra mulher da terra e, depois, vai fechando os olhos a cada nome de irmão conseguido, como se tal fosse esforço sobrehumano. É do cansaço da idade, talvez. Ela nega cansaço. Aponta apenas o coração que já foi segmentado e rectificado duas vezes nesta vida. Tonjarro era um homem aparatoso de bonito e vaidoso que só ela e Deus sabiam. Uns olhos verdes enormes num rosto amendoado. O moreno da pele devia-o ao campo e ás imensas horas de monda com o gado. A vida, ainda assim, tinha-lhe sido mãe e não madrasta, como muitos da sua geração lamuriam. Lurdes suspira quando fala dele. Está morto e isso não a entristece, de maneira nenhuma. Pois, está certo que se vive e se tem de morrer. Ficava-se pra semente? Ela não quer ser semente, já Tonjarro desejava que a sua morte tivesse sido ao mesmo tempo ou após a morte dela. Não lhe tinha amor? Oh tinha e ímpetos de paixão, ainda com 70 e muitos anos e mais que tudo, posse. Esse sentimento de posse dele dera-lhe muitos desconfortos no matrimónio e ela desfiava-os todos, após a sua ida. Lurdes continua bonita e veste-se bem. Ainda toma o seu duche e se preocupa com o perfume e o colar, a echarpe e o sorriso. Esse tem-no a tiracolo sempre. E faz caminhadas, muitas, todos os dias, visitando os amigos e amigas que se mantiveram perto durante toda a vida. Pergunto-lhe: Tia, nem uma saudade bateu ainda dos queixumes do tio? Nada nadinha?
-Nada! Vou-te contar uma coisa, rapariga. Ele era um chato, nestes últimos anos, aquando de ter ficado doente, e depois de vir do hospital. - Ela imita-o nos trejeitos e tenta fazê-lo na voz, pra que eu perceba - Ludres, Ludres, anda cá, oh Ludres, rai's te foda, mulher, anda cá que eu estou a chamar-te ou não?Que queres tu?, perguntava-lhe eu, se ainda saí de perto de ti agorinha mesmo? E era isto o dia todo. Olha, ele pedia-me: Ludres, tu que rezas tanto, eu sei que Deus te ouve , pede-lhe Ludres, pra morrermos no mesmo dia, de preferência no mesmo caixão!!! Eu desatava a rir e ela também, continuando: Mas oh homem, o caixão não dá pra dois. Será que nem depois de morta me vais deixar sossegada?Ele só pensava em pinar, em me montar, e foi assim desde que casemos...Um manfio é o que é! Depois lá voltava ele: - Ludres, já pediste a Deus nas tuas orações do que te falei? E eu nem lhe respondia. Se lhe dissesse, ele ainda passava mal. E nas minhas orações, eu pedi muitas vezes: Ou ele ou eu, que já não o posso aguentar mais! E se for ele a ir embora primeiro, nem que eu fique cá umas horas, só umas horas, só pra saber a que sabe o sossego dele se ir embora, a paz que sabor tem, que com ele nunca soube o que era. Tantos netos e bisnetos que tenho, que alegria!
E tantos dias e meses se passaram e ainda nem acredito que afinal, mereci o paraíso. É isso, eu vivo no paraíso desde que ele se foi! E rimo-nos todos, os que ouvem  e os que re-ouvem a história.
Há quem viva à espera de um paraíso depois da morte, há quem o encontre na morte dos outros.

Saturday, November 21, 2009

Monday, November 09, 2009


Nos últimos tempos, a anestesia das dores e dos dias que se seguem "ao tem que ser" dos que da lei da morte se libertam (como diz o Roger), mantém-se. Estou a viver na margem de um não-sei-o-quê e nem-pra-quê. Mas a vida não se reclama, aceita-se. Talvez tenha nascido daí, o comodismo e o laisser passez. Assim, vai a vida interna em mim. Quanto à externa, não se compraz das minhas anestesias, nem mesmo quando, logicamente, me enfureço por achar que há um tempo pra tudo, eu que, também, acho desprezível esta dimensão de contagem dos segundos em eternidades, esta necessidade de rasgar as décadas e os séculos pra regularizar auxiliares de memória. No dia 26 de Outubro morreu uma amiga de sempre. E SEMPRE já não se pode dizer, passou a ser insignificante. Um sempre sem a minha eternidade que acompanhe a tomada de conversas em dia, a constatação de que fazemos parte da vida de outros e outros também compartilham de quem somos e contam connosco. Nem antever como crescerá a filha que verá no rosto dos outros o medo de soprar o nome materno, com medo que o castelo de areia vá ruir, de tão frágil.Ouvirá, bem mais tarde,  falar nos seus olhos curiosos e enormes, na sua figura esbelta, na sua graciosidade de bailarina, na sua capacidade de sonhar tão ao jeito do melhor dos Peter Pans que conheci. Vi-lhe as primeiras brancas mas isso não se diz. No domingo anterior a se ter apagado, como uma vela apanhada entre uma corrente de ar de uma porta esquecida aberta, dizia-lhe a minha mãe que tinha madeixas bonitas. As madeixas eram as brancas. Esporádicas e pontuais numa farta e forte cabeleira castanha mel. Não lhe ouvirei ralhetes a propósito das minhas mais recentes asneiras. Nada, nada. Da sua mãe, receberei sempre o mesmo sorriso ou abraço quase chorado, dizendo que sou uma memória viva dela. Muitos natais passarão sem que o rosto se apague, porque ainda hoje a vi, aqui, do outro lado desta janela, junto à churrasqueira, rindo das travessuras dos animais e tentando não mancar, tentando não mexer nos medos disciplinados.
Morreu e morremos também, morreu e continuamos vivos, na espera de um sinal. Há-de conseguir espreitar por detrás do rosto da filha, diante de todos os animais que amava, espelhando-se por ela dentro, sem que ela possa sequer adivinhar que carrega a mãe até nos tiques. Fico a pensar se a morte é assim tão má! Nunca ninguém voltou. E o corpo atrapalha quando a missão que temos é voar. Era o caso.


No fim de semana que se seguiu às cerimónias fúnebres e da cremação (Claúdia está no mar), a filha veio com o pai passar o dia com o Tomás. Constatámos que havia um centro hípico desactivado em Penafiel, visitamos as crias do labrador Martim, almoçamos ao ar livre, andaram a pintar a manta os miudos e os adultos ficaram-se a trocar pensamentos, palavras e actos da "ida". Entretanto, encontrei estes animais pelo caminho, já entrou mais uma cria de labrador em minha casa que dá pelo nome de Lolita. Preta e com dois meses. E não, não é filha do Martim. Essas crias só terei acesso daqui a dois meses, pois estão no desmame.
Vagueio pelo presente em tons de incerteza, com esta dor de lado que me persegue há meses. Disse a um amigo de sempre, a quem abraçei de saudades, que este ano era o pior de sempre. Sinto que mais virá. E que nunca estamos preparados pra coisa nenhuma. Nunca será a hora certa de receber choques, de sofrer faltas, de perder. Perdi uma grande amiga. Ganhei um novo medo, o medo de desacreditar e o seu reverso. Porque ambos nos tiram o tapete e nos atiram para o chão. Como se fôssemos cacos de uma peça irrepetível e impossível do capricho d'Ele.


E Mia Couto sussurra este verso:

Horário do Fim


morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento



in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Saturday, October 10, 2009



E diz Nietszche: The individual has always had to struggle to keep from being overwhelmed by the tribe. If you try it, you will be lonely often, and sometimes frightened. But no price is too high to pay for the privilege of owning yourself. - Be yourself, Morcheeba ;)
Pois, mas depois diz Daniel sampaio: Vivemos livres numa prisão. Aqui, a leitura integral.

Monday, October 05, 2009



Passo metade da vida a pensar o que vou fazer com a outra metade que me resta.
No ideas.

Sunday, September 20, 2009




Engolir sapos. É uma expressão que, desde há muito, sei significar: fazer coisas que não gostamos, estar com pessoas com as quais não simpatizamos, aplicar ideias com as quais não concordamos. A minha mãe sempre me disse que essa era a minha maior dificuldade. Considero que tenho outras mas ela tem uma certa razão em torná-la a maior, para mim. Defender quem/o que acredito sempre pensei ser o meu rumo. Pois bem, o meu rumo mudou. É processo de aprendizagem, com toda a certeza, algo que vou ter de saber superar. Quantos de nós comeu e não gostou. E teve de comer. Por falta de alternativas. Aos 41 anos, eu que não sei viver mas vivo á minha maneira (Xutos e Pontapés) lamento (lamento mesmo muito) assumi-lo mas vou ter de, depois de todas as escadas descidas, voltar a subi-las (numa espécie de punição por erros cometidos, penso eu), patamar por patamar, grau zero a grau um e, assim sucessivamente. Sempre fui mais emotiva que racional. Continuo a ser. Agora tive de concordar com quem me ama: Razão, decisão tomada pela razão. E é dessa forma que vou organizar, não a minha vida, os meus sentires, os meus amigos, as minhas paixões pela imagem, pela escrita e leitura. Antes o alicerce estrutural. Hei-de saber engolir tantos sapos que acabarão, eventualmente, por se tornarem príncipes em mim. Wanna bet? O tempo mo dirá.

Thursday, September 10, 2009



Recauchutagem? Penas novas, então.

Ás vezes (ultimamente,mais frequente) sinto-me estranha no meio de estranhos. Sei que sou eu mas, como as cobras, a mudar a pele, mais que a pele, a alma. E foi num desses momentos que me fui inspirar pra vos escrever de Caminha. Verborreias de alma quieta, garanto-vos.

Ao todo, conto nesta enseada ou baía familiar 30 embarcações. Todas aquietadas pela maré poisada no cair do sol. Assim como tudo, de resto. Do outro lado, Santa Tecla, Espanha, tão perto que o ferry me levaria lá em cinco minutos e tão longe que seria incapaz de me erguer deste banco recentemente colocado junto á baía para o fazer.O Ínsua insinua-se á esquerda com alguns movimentos quase inaudíveis de pratos, talheres e vozes humanas. Algum agitar de gentes no sentido do Corsário e do Barracuda. De costas erguidas e olhar atento, eu.
O prazer de ver o sol deitar no fundo da tela natural é meu e ninguém mo pode tirar. Já não chovo de descrédito, talvez porque me encontre desacreditada. Nem cismo na minha quietude, porque é nela que me ancoro pra me renovar. Posso dizer que é ela que me alicerca para o restante do processo. Este processo da desilusão que faz parte da vida, como perder e ganhar, como rir e chorar, como cair e erguer de novo. Do meu lado esquerdo, oscilam tão ao de leve duas lanchas pequenas que podia jurar que são os meus olhos que as fazem oscilar de tanto as mirar. Ilusões destas nunca magoam ninguém, porventura apenas a iris do olho e é temporal e localizado, tratado e remissivo. Sem sequelas. Queria mais destas. Estou aqui, entre o rio e o mar, onde eles se abraçam e se chocam nas marés cheias e nos vazamentos e lembro-me dos cães e dos gatos lá longe nos Mochos. Quem sabe entre o dormitar, entre o sacudir de moscas chatas e a espera do jantar. Entre lambidelas e ronronadelas e miares demorados e mendiguentos pra uma rabada de peixe grelhado. As lembranças das coisas são saudades mas as saudades são mais do que as coisas, do que o lembrar delas, são os apegos, o que sentimos de falta, de ausência, de tardio ou demorado, e não cabem saudades neste pôr-do-sol rico, nesta paz emprestada. Só ela me faz demorar a respiração, não ter pressa de partir, nem vontade de chegar. Que me importam as abóboras meninas ou as cabaças a amarelarem, os figos a multiplicarem-se ou as laranjas a vergarem braçadas? Que me importam os grilos e as gralhas, se deste miradoiro semi-natural, posso cheirar o mar olhando o rio e ver as gaivotas mordiscar as águas na ilusão de um cardume de peixes doces e ainda assim, saber que a ordem natural das coisas obriga os humanos ao regadio, á manutenção dos seres vivos lá nesse longe que retardo e recuso a vivência?!
Recolho impressões em rostos deslumbrados como o meu, talvez mais deslumbrados que o meu, dos laranjas e rosas desmaiados, do fogo, do rastro de incêndio no céu que se prepara para o bréu estelar. Também eu sou quase uma estrela de cauda fugídia que se prepara para um lugar na horizontal. O meu querido saco de cama almofadado.
Os campistas, as bicicletas ocasionais, os risos intimistas e as gargalhadas á volta dos grelhados, tudo se conjuga e asfixia - thank god - outros sentimentos que recuso ampliar. E eu agnosticamente agradeço a Gaia, ao universo esta paz cheia de remendos e intervalos que me habituei a saborear em breves tragos, tal como faço com o cigarro que demoro entre os dedos e os aneis de fumo que deixo fugir para o ar que vós respirais! São prazeres tão pequenos, tão imensamente pequenos e raros. Hei-de lembrar-me disso quando já longe deste desmaiar do dia, quando longe do quebrar das ondas no mar, do ritmo das águas e do vaivém de gente disposta a esquecer um ano inteiro nos dias sem relógio, sem marcadores e sem agenda. Passei o dia em deambulações pelo centro da vila, apinhada de feirantes, de turistas e curiosos. Pela zona histórica e pelas remodelações que desconhecia por ali. Descobri combinações de artigos em lojas que agradam gregos e troianos e até quem metesse elefantes em lojas de cristais. E de lá trouxe um mocho delicioso (e carote) made in Portugal, articulado em pau preto e liga fina de estanho. Alto, esguio e atento. O tédio faz-me reparar em pormenores sem qualquer importância.
-Olha, foi mesmo ali que no ano passado conheci a dona do Micado, um gato enorme e ternurento que fotografei até me cansar. Um gato que não simpatizava com estranhos e menos com máquinas de estranhos e que a dona me confidenciou que eu devia ser pessoa boa. Que o gato dela reconhecia poucas almas dessas. Boa. O Emídio também diz que uso a máscara de boa rapariga. Seja lá o que isso quer dizer. Não uso de cinismos para expressar as reticências desta apreciação dele á minha pessoa. É uma pessoa que entende de sombras e eu de coisa nenhuma. O dia extingue-se á medida que avançam os meus pensamentos desalinhados. Comi uma francesinha numa tasca no interior de Caminha de uma angolana pura. De uma maneira própria, misturou a "francesinha" portuguesa com ingredientes, texturas e sabores angolanos, muito á Mia Couto saiu uma coisa entre o surpeendentemente estranho e o estranhamente saboroso. Chamo-lhe françolana e gostei da abertura e clareza de postura da senhora. Hei-de lá voltar, repito-me, quem sabe um dia, não tão cedo. No telemovel um sms do meu filho, a meros 500 metros de mim: -Vais ao Manel, mamã?
Encurtei a resposta e a intenção. -Mamã nao vai Manel. Precisa de dormir.
Ele encurtou mais ainda a minha resposta mendigada: Ok, beijinho.

Tantos beijinhos lhe espalhava pelo rosto se pudesse sorrir ao invés desta apatia que nem se deixa perturbar pela beleza natural de um rio parado. Paz emprestada, já sei. Paz mendigada a pulso, olho no olho, silêncio cortando o grito. Pergunta sem resposta. Silêncio responde. E se eu deixasse que os meus passos me conduzissem ao abismo das ondas que picam as embarcações e que se fazem ao mar, mais pela noite dentro, se me deixasse levar até onde a guarda costeira envia alarmes, se ouvisse rebater sinais e espumas contra os meus pés e olhos,se me deixasse levar, perderia a paz que encontrei aqui. Quietamente me mantenho, nem aos orgãos vitais dou permissão de solavancos e adrenalina. Quieta. Parada. Á margem do rio, nas margens de mim, braçadas, pernadas, destroços de créditos e esperanças que fluem em direcção á preia mar. Onde se desintegrarão na violência das águas que não admitem e rejeitam próteses. Para se transformarem um dia em memórias ou nem isso. Um dia, eu que sonhei ser feliz, fui sê-lo. E não admiti obstáculos nem sombras deles.

E somos muitas vezes surpreendidos pelo innerself que nos mostra uma nova forma de vivermos momentos novos ou deja vus, estratégias nunca ousadas ou esquecidas e voltamos a saber qual o lugar a ocupar dentro do turbilhão que nos arrastou inteiros e nos restaurou estilhaços. Querem saber o que eu acho,agora, aqui defronte ao rio, agorinha mesmo?
Que o rio correrá sempre para o mar, mate ou alimente pessoas e peixes, que o devir é ocorrência e não escolha e,que melhor que nos entregarmos á autocomiseração, é nos dedicarmos ao que queremos,tendo sempre em mente que é inevitável lutar contra os
riscos, pois são inerentes a todo o processo.
A cortina do unknown favorece-nos, mesmo quando desacreditados...é isso a e valsa lenta do piar das gaivotas rasando embarcações que me renova a perpectiva dos dias que hão-de vir, no devir onde somos mais que espectadores!

Friday, September 04, 2009









El diablo en el ojo
I wouldn't shut your eyes just yet
I wouldn't turn the lights down yet
`Cos there's things you've gotta see here
There's things you've gotta believe of me

I wouldn't turn the sound down yet

Don't even touch the dials, not yet
`Cos there's things you've gotta hear here
There's things you've gotta believe of me

I wouldn't say a word just yet
Don't even open your mouth, not yet
`Cos there's things I've gotta say here
There's things you wanna hear from me

Monday, August 17, 2009





Lugares da alma

Vagueei durante algum tempo até descobrir,
ao acaso, onde me levava a alma. Esta alma
de viajante que tenho. E nem vais acreditar.
Todos os locais onde estivemos, tu e eu,
em que eramos cúmplices de coisa nenhuma
e do amor que se construía em mim.

Há lugares que se apagam, aos quais
não voltamos. Nunca mais.Há outros que
teimamos em repetir, nos regressos a nós
e aos outros.


Hoje regressei a ti, nos poucos kilómetros
que fiz contigo. Voltei a chorar a saudade
do teu sorriso e da tua calma. Da tua ternura
e do teu "amor". Tinhas sombras para mim
e eu precisava delas mornas e espontâneas.
A poesia dos meus dias que me trazia o sol
e me fazia acreditar nos amanhãs todos.

Fiquei parada com a música que ouvíamos
e os vizinhos daquele prédio não deviam
perceber quem fica num sítio a olhar o vago
horas infinitas e a desprender-se do tempo
como quem se desprende da vida.
Não me importei quando me viram o rosto
molhado e nem me importei quando me
perguntaram porque não ia eu à festa.
A festa eras tu. Num sítio qualquer, onde
quer que estivesses, deverias ter-me
ouvido chamar. Sei que sim, ouviste. E
sei que gritei mas nada aconteceu.

Os lugares são pedaços de nós que
marcamos com vivências.
Decorei o contorno dos estores,
adivinhei a preparação dos jantares
por ali, vi-os sacudirem tapetes e
passarem a ferro nas marquises
transparentes. E também vi gatos
debruçados e carros com seres mal
dispostos que aguardavam que a
traunsente do veículo cedesse o
lugar de estacionamento para que
ali pudessem estacionar. Ela não cedeu.
Porque aquele lugar era dela.

E vi-te passar. Levavas o que deduzo
ser um livro e vestias uma
t shirt preta. Talvez a mesma onde as
minhas mãos já tinham acariciado o
teu peito. Ou talvez outra. Vinhas de
casa da tua mãe, porventura.
Vestias uma ganga escura. Talvez a
mesma dos nossos domingos de verão.
Que nunca aconteceram.
Que te acompanhavam nas caminhadas
a pé que tanto gostavas. Calçavas uns
tennis.Não tos vi mas adivinhei pelo
teu andar ligeiro.Não me viste.
Mas estavas em mim, sem saberes.

E porque há lugares que nos atraiçoam
e nos fazem regressar (como o de um
criminoso que volta à cena do crime,
das andorinhas que regressam
uma e outra vez ao ninho do ano anterior),
hoje estive no teu lugar e tentei
não fazer presença. Apenas amor.
Enviei-te amor nas vibrações do vento.
Só Quero que sejas tão imensamente
feliz. Num recôndito da alma,
sentiste-me dentro. Era lá que eu estava.
E é lá que volto quando perco o chão.


foto pessoal in andorinhas na chuva
música

Sunday, August 02, 2009

Babette's feast. Tenho de ver este filme e mais nada!

Tuesday, July 28, 2009

A ressaca



Faz mais ou menos duas horas que abandonei a sala de cinema cinemax, aqui em Penafiel. Quem diria que esta cidade tinha umas quatro ou cinco salas de cinema?! É que estou cá a residir sensivelmente há 3 anos e nunca ouvi falar. Queria ir ver The young Victory, afinal fiquei-me pela comédia a Ressaca, que não é bem sobre rainhas e os seus plebeus mas antes sobre uma despedida de solteiro. Gira, chega a fazer reviver o espírito de Jim Morrison, só faltavam os cogumelos mágicos e em substituição, lá apareceu um dealer com Rufilin :) ou telhadinhos, como preferirem.
As semanas sucedem-se, ora com calor desenfreado, ora com dias cinzentos á mistura, os dias tornando-se mais pequenos, as horas mais valiosas, os verdes mais vistosos e chega a altura da apanha dos legumes, de nova retirada de ervas daninhas, de regadios fartos - a relva está a ficar um bonito tapete, entremeado por choupos, árvores retorcidas e exóticas, oliveiras, castanheiros, e arbustos rasteiros....
Ao casal de kiwizeiros que tinha juntei mais um casal e uma fêmea no meio e coloquei - ordenei aos servos que o fizessem, arame suspenso e bem corrido por esticadores até junto aos telhados. De um lado, na saída de minha casa, a ramada será de kiwis, na saída de casa da minha mãe fiz o mesmo mas com viúvas alegres ou chorões, que é um arbusto de cachos de flor roxa com perfume de viuva brejeira. Esperando que as ramadas convertam as nesgas de temperaturas altas em espaços refrescantes de sombra. O jardim está renovado por imensas flores e trepadeiras, choupos espanhois e plátanos, chorões e sardinheiras, gladíolos e dálias rosa-velho. Pinga-amores laranja e chorinas, cravinas e rosinhas de sta Teresinha, madresilvas e miosótis azuis, e de tão perfeita é a natureza que, junto ao casal de kiwizeiros recentes, foram nascer melancias - que a Branca reduziu a nada - limoeiros de uma antiga árvore que só tinhamos lembrança enquanto fantasma e até uma vide de uva de mesa num canteiro de cinzas esquecido. Coisas!
Os rabanetes estão quase todos a ficar secos, a maioria já saiu da terra e já uso nas saladas, tomates e cebolas, batatas e pepinos, tudo se multiplica, abóboras crescem aos magotes, as figueiras carregadas, as laranjeiras, os limoeiros e até os morangueiros começam a pintar. Quando se deixa uma semana e meia crescer a erva no pomar, ela chega-nos á cintura, na altura da rega. As toupeiras continuam a fazer das delas, imensos buracos pelos campos, não poupam nem o jardim, nem o galinheiro, onde tive de improvisar um chão firme. Hoje chegaram 8 novos inquilinos, 4 brancos e 4 castanhos, falo de pintos. Ontem dois inquilinos piriquitos. A Tyra e o Banks, um verde e um azul (com estas coisas todas, esqueci-me de vos mencionar um outro inquilino chegado hoje, o Fred, o gato supimpa bebé que o gato Kiko decidiu que era uma ameaça a si próprio, habituado que estava a ser o centro das atenções). Convencê-lo que é mais giro, mais mais que o gato Fred não vai ser tarefa fácil mas eu aposto que o Kiko vai ser uma espécie de tio babado e em breve, os fretes do Fred vão transformar-se em aventuras e emoções fortes aqui no Sítio. Neste momento, todos os mochos dormem, desde os cães aos passaritos, ás pessoas - amanhã lagoa pra esgotar de cansaço os miudos - enquanto eu vou-me até ao gabinete fazer qualquer coisa pela vida. Em altura própria, do tipo durante o dia, postarei uma pic dos novos inquilinos. Agora, vou-me lavar a dentuça e fumar um ultimo cigarro pra ver se descanso o esqueleto. A pandemia parece menos ameaçadora, a crise parece amorteçida pelas férias dos outros que se queixavam dela e o mundo continua a ser esta bola gigante onde vejo renovada a vontade de continuar por cá, todos os dias, cada vez mais :)

Boa noite aos que passam por cá.

Thursday, July 16, 2009

Ou...

Lobo em pele de cordeiro?


Eu tenho um gato. Na verdade, já vou a caminho do segundo.
Eu tenho um marido e por causa do gato, sou bem capaz de ir a caminho de um 2º ex-marido.
Na verdade, de uma 3ª opinião. Ou pode ser tudo um erro de cálculo ou insónia.

Sunday, July 12, 2009



Palco, a vida
No princípio era a palavra
que entrava sem licença
e a voz coloquial castrava
todo o sentimento e crença,
e o rosto, dos outros
entoando aborrecimento,
um bocejo, um praguejar
vociferar em silêncio,
como se o grito fosse algo de
desprezível e gemer proibido.

Depois cheguei eu,
a palavra era mais acto
o sorrir era espontâneo
deixando de ser obrigação,
artefacto.

Tu sorrias de volta,
a voz ganhava tesão
e dos outros rostos
que não o teu, a expressão
foi ganhando interesse
despertando, e, o céu
era azul e impossível.

Alguém me chamou teatro,
e até expressão dramática
mas continuo a ser oral,
continuo a ser voz afinal
dos que sonham mais alto.

Monday, June 29, 2009



Tempos houve em que as margens deste rio me acalmavam.
Hoje apenas me confinam.

Saturday, June 27, 2009

Amazing Grace

Leann Rimes. We deserve it. Good weekend.

Wednesday, June 24, 2009




O dia amanheceu húmido de orvalhos. Ainda estou a ver a noite desenhada sem estrelas mas com cambiantes maiores, mais móveis: os balões da festa largados, o fogo a aquecer as paredes de celofane colorido, verdes, rosas, azuis e brancos desmaiados. Subida vertiginosa. Cai-não cai-incendeia-se no ar.Estrelas móveis. O cheiro e o fumo das sardinhas enchiam o ar de todas as casas e quintais. A música popular misturava-se aos cantos e esquinas de onde quer que fossemos. Não fomos, ficamos. Quedamo-nos como estátuas que analisavam possibilidades de movimento. Sem realmente nos movermos. Disseste-me que o Universo continuava ascendendo. Que sim, confirmei, que sim. Que sabia eu do Universo, com excepção deste pedaço de céu onde via recortada a realidade, a dos animais e das flores, das plantas e das pessoas estranhas e conhecidas?

Agora que tudo acalmou, que até os automóveis ronronam no sono e cansaço dos humanos, levanta-se este nevoeiro de onde, algures, hás-de surgir tu. E tu és verde, garantidamente verde e prometes, todos os dias, dias melhores. A eternidade já conheceu o seu perfeito momentum. Quando inventam novos parâmetros pra nivelar a esperança? Que os dias não chegam para as decepções mundanas (mundanas no sentido de corriqueiras, frequentes, lugar-comum) entre humanos...

O orvalho erguer-se á ao som do latido dos cães, da boca aberta das árvores e flores, do canto persistente das andorinhas. E a minha boca seca, como os desertos que ainda não conheço, diz-me que antes da terra, tem de haver água a anular a razão para os afectos. Que somos ilhas direccionadas para o abismo das fontes. Que somos rastilhos de pólvora seca que se esquece de rebentar. Que é urgente encontrar o verde, o melhor que há em nós, antes de colidir com as restantes ilhas. E dou comigo a baixar o lume do fogão, adicionando uma colher de chã de folhas verdes á água em ebulição. Sirvo-me de uma poção e o dia há-de prosseguir, quer eu queira, quer não queira.
foto de Lúcia Inês

Friday, June 19, 2009

Weak as i am

Wednesday, May 20, 2009



O tudo e nada dos dias!


Por vezes, acredito na imortalidade. Seja lá de que cor vier, acredito que o zás não vence!
Até me trazerem mais uma notícia a black de gente que, semelhante a mim nas crenças, deixa de acreditar nos super heróis, deixa de visualizar além. Deixar de acreditar é só meio caminho para dar como concreta a vida. E ela tem asas e nada de limites. Somos all-mighties todos, até deixarmos de ser.
Aqui nos Mochos, com excepção da Pintas que se finou há quase dois anos (e se encontra no céu dos cães imortais), todos somos invencíveis, diante dos mamarrachos defronte, as centrais eléctricas. Somos uma espécie de metamorfoses de afectos e combinações, cães, gente, caprinos e galináceos, gatos e repteis, grilos, pássaros e plantas, todos acesos prá vida!...
A semana passada andei de aperto no coração (agora mais aliviada) por vários motivos, um deles era a suspeita que recaía no meu filho mais velho, de pneumonia ou mesmo tuberculose. Fez exames de rastreio, colheitas de expectoração, raio x.... O raio x e o teste negativaram as suspeitas, resta-me aguardar as colheitas da expectoração para dissipar toda e qualquer dúvida.
Também o mais novo, em processo de limpeza e, de certa forma, estigmatizado pela parangona de uma fibrose quística, anda em exames intensivos e profundos (estudo genético e novos exames específicos) para abortar o rótulo (a medicação pancreática e respectivos auxiliares respiratórios em fase de desmame absoluto), a meio a provas de aferição e pré-adolescência constantemente frisada pelo próprio.....
Ser mãe é uma coisa imensa que nos faz sentir um peso no cimo da coluna e só se descola quando estamos a tomar banho e amorteçemos na água esses apêndices todos. Oh coisa boa, ser uma imortal com direito a banho diário. Imagino milhares de seres imortais em África sem acesso a isso ( e outras coisas essenciais como alimentação, saúde, bem estar) e fico ouriçada. Afinal, a vida é só o fluir da nossa imaginação, não há paredes, nem limites, nem bombas galp, nem Papa-hóstias, nem rebanhos humanos, nem gente mesquinha, nem off-shores, nem mediocridade, nem cianeto, nem exploração no trabalho, nem abuso e maus tratos, nem doenças sem cura, nem pandemias, nem somos tão maus assim, nem Deus era tão perfeito!
E vou, de rabo pro ar, tirando ervas daninhas aos rabanetes, aos tomates este ano aos magotes, ao cebolo, ás abóboras e cabaças, aos melões e melancias, aos pimenteiros e ás couves tronchudas, ás figueiras e ao feijão rasteiro. E dou banho de mangueira aos cães imortais e converso com a cabra Mimi e com o carneiro Silva e arrelio o gato Kiko e cacarejo ao galo Pedrês, chateando as galinhas poídeiras que vão a correr chocar mais ovos, com medo que eu seja uma gueixa nova pró macho delas. E o dia se consome em tarefas rotineiras de rega e limpeza, de jantas e limpeza, de café e cigarrinho costumeiro e, cansada dos ais dos outros, vou ouvir as cantorias dos grilos e dos pássaros sem hora de dormir, das cigarras e dos rouxinois, da vizinha que ainda traz a novena na boca e a colheita do ano anterior na lembrança...
Acredito na imortalidade porque me dá jeito, tenho sempre muitos amanhãs pra concluir o que não houve tempo hoje. E recuso-me ao fabrico de doenças em mim, porque preciso da saúde toda no futuro. E o futuro é o que eu vou fazer dele! Uma bela sandes de mortadela e um copito de panaché em meio a tantas outras coisas igualmente simples e necessárias. Para já, viver bem comigo!


Monday, April 27, 2009




De Abril de 1974, só más recordações. A liberdade emprestou um sabor amargo que ainda hoje não comemoro com euforia. A morte do meu pai. Voou-se da minha vida. Talvez seja por isso que prefiro flores selvagens. Terrenas. E não é anarquia. É a minha forma de dizer que continua a doer perder ou ganhar. Aprendi, no entanto, com outras perdas e ganhos, a apreciar todos os abris que se enchem de fertilidade e me trazem mais afectos, seja nas germinações da terra, dos animais, seja na presença das pessoas, seja nos momentos de reflexão.

Thursday, April 23, 2009


Recado para um marido atento




Entre fazer publicidade do gabinete, pessoalmente, pelas 38 freguesias pertencentes a Penafiel e consultas e recibos e telefonemas, o dia de ontem chegou ao fim da melhor forma. Jantar a casa da minha prima Alice, algures entre Paredes e Bitarães. Levamos uma garrafa de Chaminé, meia dúzia de ovos moles e um pedaço de broa da que eu gosto e ainda nem tinhamos entrado em casa e já no quintal se sentia o cheiro do frango caseiro no tacho. Ela aguardava-nos chegar para meter o arroz pra cabidela que o meu filho tanto gosta. Montar o pc não foi preciso, o Fernando havia-se encarregado disso. Foi lavar as mãos e sentar. A cabidela estava deliciosa. Acompanhamos este manjar, eu e a Alice, com vinho Gazela fresco. Eles foram-se aos alentejanos. O Tomás ficou-se pela coca-cola. Havia salada de alface e tomate fresquinha. Depois, entre resmungos e brincadeira, começei a levantar aqueles pratos repletos de ossos e a Alice servia a salada de morangos salteados em açucar. Terminamos com cafezinho e só eu com cigarrinho. Passava das 9 horas quando demos de frosques. As aulas do Tomás começam cedo e tem horas de deitar.


No sítio dos Mochos, hoje e mais uma vez, a primavera belisca a terra pra rebentar em fertilidade. E quase se pode sentir isso tal a volúpia com que cada amanhecer amacia o nosso olhar para os brotos do feijão rasteiro, para os caules vigorosos dos tomateiros. As figueiras que haviam sido literalmente devoradas pela cabra Mimi e pelo carneiro Silva, também elas estão em flor. Esta é a minha segunda pele, a não existência perante tudo o resto. Sinto-me em paz aqui. O gato Kiko, sentado no meu colo e olhando o pc pede-me para ir brincar com ele lá fora. Os melros, as andorinhas, as vespas e bezouros, todos se unem na sinfonia desta estação quase disfarçada de verão. Depois de ter levado o Silva e a Mimi para o campo pastar, apanhei ervas e couves para "pensar" as galinhas e pintos. Os cães dormitam, volta e meia incomodados por uma vareja ou moscardo e, a roupa na máquina vai centrifugando. Ao longe, a Maria Zé, filhas e netas andam de volta do campo recém amanhado, retirando ervas ao cebolo, sachando batatas para abrigá-las destas temperaturas que continuam a subir pelo norte. Vou meter umas margaridas de arbusto na terra e verificar se todos têm água, tomar o duche da praxe e dar de frosques que há coisas pendentes e consultas marcadas. A Sofia ficou de aparecer para um cafezinho, lá mais para o meio do dia. Espreguiço-me quinhentas vezes e corrijo as lacunas ou erros e acendo mais um cigarrito. Penso no Ambrósio. Hoje apetecia-me algo de bom... Talvez peixe!

Monday, April 13, 2009


O sabor da palavra provincia




Recordo-me com alguma desfocagem imagética, admito, do tempo de infância primeiro, em que tomei contacto embasbacado com o campo, as suas gentes e cores. Mas deve ter sido um choque, á semelhança do que senti quando entrei no serviço Enfermaria p 09 ou residência de psicóticos, no antigo hospital Conde Ferreira, actual Centro Hospitalar com o mesmo nome mas agora pertencente à Santa Casa da Misericórdia. Realidades fora do âmbito do que estamos habituados a lidar com, nunca nos deixam indiferentes, seja positiva ou negativamente. Comigo, ambas resultaram positivas. Com relação ao campo, a minha mãe descende de uma família humilde da província e, embora tenha perdido muitos dos laços afectivos que a iam unindo a esse mundo (foi pra cidade jovem ainda, com 12 anos, logo após a morte dos pais), continua a ter alguns irmãos vivos nas suas origens. E foi através deles, tios e tias, que tomei o gosto á terra, aos campos, ao feitiço das semeaduras e das colheitas, ao cheiro dos amanheceres e ao romper da noite, ao frio e á chuva, ás receitas partilhadas na intimidade de uma cozinha de lenha e aos ditados populares. Acabei por me apaixonar por tudo isto, pela maneira como chamam as pessoas o nome ás coisas, á sua forma angulosa de ver o resto do mundo. Mantenho algumas reservas quanto à religião e mais ainda nestes meios rurais, perfeitamente explorada pelos seus representantes. O que é certo é que nem tais reservas conseguiram tirar-me da ideia vir morar num lugar que nem no mapa vem, numa rua até há pouco tempo sem nome e nem número, onde quando se vai á cidade comprar, ainda se usa o vocábulo mercar, o então ainda é vocábulo pouco presente em sua representação ouve-se o adei, pensar os animais - alimentá-los, etc. Os habitantes, a par do nome próprio, têm apelido ganho pelo povo do lugar, do tipo Luís de Beco, Micas de Cosme, Maria Zé lo Lúcio, ainda Manel Carteira Grossa ou Maria da Naia. De uma riqueza cultural que não acaba. Assim como, para semear ou colher, espera o povo a conjugação meteorológica a par da sabedoria antiga. A lua nova ou os quartos crescentes. O arejo e a geada, o calor e a orvalhada ganham uma dimensão dantesca para todos os que vivem e sobrevivem á conta da agricultura. Os estranhos são temidos e espreitados, a desconfiança não lhes retira a hospitalidade mas só aceitam ou não os ditos estranhos, quando confirmam os seus pareceres íntimos. Claro que ainda me vou sentindo um pouco estranha, aqui e acolá, porque sou da cidade, do bulicio dos carros e das multidões. Quem me conhece, não acredita na escolha que fiz, na troca eterna da praia - de que tenho saudades e muitas - pelo acordar ao som dos pássaros, do meu galo pedrês ou das avé-marias na capela do desterro. Aqui, o limite é não ter limites nem canseiras. Os animais são colocados a pastar cedo, faço o "penso" deles logo pela manhã, onde me perco a espreitar ou imitar o linguajar dos galináceos, dos cães ou gatos, das andorinhas que o ano passado esmeraram-se no ninho no alpendre da minha churrasqueira e voltaram novamente carregados de filhos e malas, no espreitar do que foi semeado ou plantado e cuidar pra que a terra não tenha sede nem fome, regar o pomar e as hortas, adicionar um arbusto, uma flor nova ou um chorão, que os olhos exigem beleza. E acreditem que me perco até no espreitar dos céus, das nuvens, no estudar dos ventos e das trovoadas, no apreciar o sol, na algazarra feita pelos miudos a jogar á bola em ruas sem carros, no entardecer povoado de verdilhões e outros pássaros, de grilos, de assombrações e de silêncios benditos. As rotinas nunca chegam a ser rotinas, mesmo o lavar dos canis, do estábulo, da adega, as sombras, os verdes nunca são só verdes. O campo é cheio de nuances vivas e em movimento, não como o mar que vai e vem, que sempre vem e vai, espumando ira ou glória. Gritando contra as rochas, numa paixão tantas vezes fatal. O campo é mais calmo, aparentemente. A terra é generosa e o homem sabe ver-se e ouvir-se de um outro modo que não vi em urbes nenhumas.

Vejo muita ignorância a par com esta inofensiva e estrondosa beleza de aceitação, existente pela falta de recursos ou tempo, pelo comodismo dos anos mas prefiro-a ao hipócrito desenrolar dos segundos na agitação do que passa e não se saboreia.

Monday, April 06, 2009






Aprendi a gostar do meu país, quando saía dele. Não só pelas saudades com que ficava dos seus recantos e encantos, nem da gastronomia, nem de andar á solta pelas grandes cidades e encontrar vendedores ambulantes e artesãos, músicos e pés de chinelos inofensivamente ganhando a vida deles. Nem da desordem e nem do caos das filas de trânsito, nem dos polícias á cata da multa, nem dos rumores vindos das tascas e cafés com quiosque onde as parangonas dos jornais diários desportivos e não só fazem ajuntamentos obvios. Nem das pausas pró café que são sempre várias ao dia e nem dos estabelecimentos que o vendem que sãos mais do que precisamos. É do conjunto todo e do sabor que tem o café tomado em chávena quente e pequena. E do cigarro nas esplanadas apinhadas em inicio de primavera. Do cheiro dos croissants quentes com manteiga derretida e do sumo de laranja espremido na hora. Dos pratos fumegantes das francesinhas e do fado cantado em tom de desafio em qualquer esquina com gente bem disposta.

Lisboa está longe de ser a minha cidade preferida. Mas como canta bem Carlos do Carmo, Lisboa menina e moça continua a abraçar e a apaixonar muitas gentes de todo o mundo.

Gostar de Lisboa é reconhecer que apesar de portuguesa é do Mundo. Aberta e permeável ao mixed das culturas e ao enriquecimento que daí advém. Se tivesse que escolher um país único pra viver, a quem dedicar os meus ais todos, não seria nenhuma das que existe. Todas possuem encantamentos e nenhuma reúne o poder furuncular. Se tivesse muito dinheiro, viveria por aqui e por ali, sempre á cata do que me apaixona, dos cheiros da terra generosa, dos animais e das pessoas, dos comportamentos e das artes. Enfim. Estive recentemente em Inglaterra rural. Adoro a cultura que têm de rentabilizar a vida económica através da gentileza de bem servir, de bem receber. Os B&Bs (Bed and Breakfast's) como são bem conhecidos, mostram-nos muito da cultura do povo. E reconheço, oferecem conforto e mordomias a preços convidativos, não só aos foreigners como aos que vêem das grandes cidades e precisam de lá pernoitar. Existem cada vez mais admiradores deste tipo de serviço, também por cá. Faz prova disso a Arábica que inaugurou um espaço em S. Domingos de Benfica, Lisboa, com o Dormir em Lisboa. O Ap está esplêndido e quase "cheira" a romântico" mas prático. Convidativo, no mínimo, seja pra passar um fim de semana de descanso ou a trabalho. Espreita e deixa-te surpreender. Os contactos com a autora do espaço podem ser feitos na própria página, destinada a esse efeito. Quem sabe, um dia destes lá passe pra fazer o devido reconhecimento pessoal. ;) Viajem pra fora, cá dentro!!!


Thursday, April 02, 2009




Nuno Júdice e As coisas simples


Sobre os figos de H. Lawrence

Lawrence aconselhou a que se partisse um figo em 4 pedaços para o comer, depois de deitar fora a casca. Deste modo, pensava ele, a sociedade não veria com maus olhos o gesto de cortar o figo, e de o saborear lentamente, como quem lê um poema. Mas nem todos os figos se podem comer desta maneira, e, no caso dos figos verdes, o melhor é tirar-lhes a pele a partir de cima, sem que ela se desprenda completamente do fruto. E só depois de comer a parte de cima, é que chegará o momento em que só vai ficar um pouco de figo a segurar a casca. Nessa altura, pode.se arrancá-la e acabar de comer o que sobra, para que a refeição fique completa.

De facto, Lawrence também admite esta solução (e aceita que se coma também a casca) mas teremos de ir mais longe do que ele; o que significa que se deve também pensar na figueira. E se, ao comermos o figo, a árvore nos agarra a alma com os seus ramos ásperos, obrigando-nos a afastar as folhas para ver como é que se pode fugir debaixo dela, o sabor que fica na boca lembra a imagem da mulher primitiva, com o seu ventre redondo como o dos figos de S. João, os primeiros que se colhem com um gesto só, ficando inteiros na mão. Então, a mão torna-se um prolongamento da figueira e começo a pensar que talvez possam nascer folhas de figueira dos braços, como se estes fossem ramos e que essas folhas servirão para tapar os figos que irei colher mantendo a sua frescura.

Em alternativa, poderá transformar o tronco da figueira num corpo de mulher nua. E essas folhas irão vesti-la. Mas o figo que tenho na mão far-me á sentir os seus seios macios, fazendo com que ao tirar a casca do figo, a mulher saia de dentro dele, e eu possa chegar á mesma conclusão de Lawrence sobre as múltiplas formas de comer um figo.


in As coisas mais simples, D. Quixote

foto de António Saias na sua Banda Larga

Tuesday, March 31, 2009



A Lúcia Inês está numa cirurgia agora. Quando recobrar, gostava que ouvisse o John Martyn a cantar pra ela ;). May you never be in trouble, faxavôre. Oh moçoila, põe-te fina!!!! Ou não vais á praia este ano, outra vez!

Sunday, March 22, 2009



Frágil. Jorge Palma.
foto de João António Tavares.

Tuesday, February 24, 2009

Perturbação bipolar colectiva

As tradições já não são o que eram, se exceptuarmos isto ou aquilo. Todos os miúdos querem ser super-heróis. Ninguém de carne e osso os atrai, como ídolos. Os homens querem sempre "vestir" uma mulher loira. Longe de imaginarem as dificuldades que existem no dia-a-dia, ao serem mulheres e, sobretudo, loiras. É um mercado contaminado. Olhamos a folia dos brasileiros e invejamos a paciência e esforço das longas horas de exposição ao sol e quilómetros no sambódromo. Por cá, vamos copiando um pouco do Carnaval vivido em todas as latitudes. Desde a nacional (houve quem se vestisse de computador Magalhães ou de Sócrates e isso não é novidade, nem tão pouco de Obama). O frenesim das músicas e vestimentas deixa-nos tontos, a nós, os mais preguiçosos que detestamos bulir uma palha em tempo de férias. Aos mais cépticos, que a crise roubou o último fôlego. Mas esta crise também esteve presente no Carnaval. Antes havia mais cabeçudos, mais gigantones, mais tradições de humor em terras lusas. Ontem assisti a mais um update do entrudo, no lugar de Genas. A quema dos velhos, vestidos a rigor. Tem graça mas nem tanta. Tudo desaparece e a gargalhada também. Quando o casal vira cinza de mais um entrudo passado. E um pouco por todo o lado, o carnaval vai mostrando caretas e mascarados. E escondendo a dor e o medo, a desgraça e o desemprego, a fome e a miséria. Não é só no Brasil que as favelas saem á rua. Por cá também. Como esquecem as pessoas por dias, por horas, todos os seus gigantescos males?

Em Veneza, as máscaras desfilam em bailes, os mascarados concorrem a prémios e o humor é pouco mais do que o que se encontra na vivência diária. Ninguém ridiculariza a mafia. Por cá, a crise das gargalhadas esteve presente ? Não sei, ouso acreditar que a nossa memória selectiva funciona nessa área, eliminado os maus momentos. Fazemos uma espécie de pausa, para voltarmos ao ódio de viver os dias iguais de queixumes, lá mais pra frente. O desemprego desfila, junto com a folia, com o Freeport e a comitiva fedorenta. Afinal, que carnaval queremos nós? Serpentinas e pé cochinho? Bombinhas de mau cheiro e espirros de pimenta? Férias e sol no algarve? Um spa em Tabuaço a ver o rio? Esquecer que o quotidiano existe impregnado de problemas a todos os níveis. Em Valongo, aqui perto, a perda de tradições é lamentada. A tradição de queimar os velhos, de arrumar pra escanteio o desusado, o que não presta - acredito que esta tradição possa ter a ver com a mesma de fim de ano em Braga, de jogar pra rua tudo o que está partido, escanado, parado, tipo relógios, loiça que já viu melhores dias, cinzeiros e taxos sem tampa, tupperwares e vasos secos, numa espécie de crença de que tudo o que está estragado nos atrasa a vida... Apesar de, em alguns lugares e vilarejos, se manterem tais tradições, esta através do fogo, o velho, o doentio, o fantasma, o nosso eu mais antigo, continua connosco, em brasa mas sem nunca chegar a cinzas. Somos nós, intactos, por detrás de máscaras, escondidos e perdidos dos outros nas nossas vontades e temores mais antigos. Estaremos nós a demenciar? Não, não podemos nos limpar através do fogo. O entrudo mantem-se como um sinal de que a evolução só a Darwin diz respeito. Quem vai carnavalar (sinónimo de dançar) somos nós quando o futuro chegar e continuarmos em Carnaval vivo...

Era bom fazer Carnaval num país sem crise.

Thursday, February 19, 2009

Os inaceitáveis do momento!

Indigno-me com este video. A religião continua a perder resmas do seu rebanho. Certamente, o que não é normal é falar-se assim. D. José Policarpo precisado de reforma de mentalidade. Só falta dizer que os filhos criados por casais homossexuais serão homossexuais (o que é grave), parafílicos ou, pior ainda, uns "drógádos", marginais, porque de anormais ele já os chamou!

Também inaceitável é a ira de Santos Silva, não por gostar de malhar na direita mas porque a rtp faz questão de realçar o seu gosto pelo malhanço na direita. Caro senhor, malhe e seja malhado (Alegre vai contente!). Mas os inaceitáveis não ficam por aqui (estou no despacha mas take it easy, pal), voltando ao caso do apart do Sócrates, a meu ver, inaceitável mesmo é a cambada de invejosos que gostavam de estar no lugar dele. Afinal, não somos todos a poder usufruir de um belo apartamento de 5 assoalhadas com um desconto acima dos 30 mil contos. Continuem a bater no ceguinho e depois vão votar nele pra maioria que ele há tanto anseia...

Inaceitável é a porra da educação que continua a ser pontapeada por tudo e todos. A trampa da economia (a nossa) que continua a definhar. Tempo de vacas magras, diz a vizinha e bem. A saúde também não anda grande pastilha, com mais uma greve dos enfermeiros e a cultura e as artes continuam a estar disponíveis pra quem possa, queira ou aprecie.

O melhor dos inaceitáveis é que eu vou perder o congresso do ps, com o desdito na mesma cidade e á mesma hora, por optar por ir ver Rodrigo Leão e Cinema Ensemble, ao Auditório de Espinho. Vale bem os 20 euros de bilhete único pra dois dias. E agora desunhem-se que eu vou-m'á vida. Buscar o Too-Much que anda a esta hora a gozar com o entrudo, vestido de pintor dread.Aceitem os meus votos de bom fim de semana!

Tuesday, February 17, 2009

Reinado de paciências ou a fé no novo






Reinado de paciências ou a fé no novo

não ondulem a nossa paciência
deixem-na quieta em descanso
como se em vinha d'alhos pudesse
atingir o ponto do não-descambamento
que isto de andarem a inventar novas formas´
à democracia, esta do simulamento
é coisa velha que cheira a novo.

e nós que treinamos por anos e anos
o auto-controlo, perante a ineficácia
nos revemos só impulsos e ímpetos
de esganar toda a solene hipocrisia.

já vos disse, não lhe mexam, não lhe bulam,
não lhe toquem, na era dos tansos e tachos
há-de provar do mesmo que nós
que andamos há décadas a ensinar-lhe mezinhas
e pozinhos de perlimpimpim
e afinal, desmancha-se
perante novas crenças cunhas e berbicachos
foto pessoal

Thursday, February 12, 2009

Workshop familiar: brincar

Brincar as Brincadeiras dos filhos – o Valor Simbólico do Brincar
A PSICRONOS vai realizar um Workshop para Pais que visa sensibilizar os pais para a importância do brincar e das brincadeiras das crianças entre o 1 e os 5 anos e fornecer uma melhor compreensão do significado das brincadeiras e da melhor forma de as estimular e participar. O workshop será repetido em 4 datas diferentes, sempre ao Sábado e ocupar-lhe-á apenas uma manhã, das 10:30 às 13:00h. Escolha o sábado mais conveniente para si. Venha aprender a brincar com os seus filhos.
Diz-se muitas vezes que o brincar é “o trabalhar das crianças”. Entre o 1 e os 5 anos de idade, o Brincar assume-se como actividade primordial e de extrema importância para o desenvolvimento global da criança. É o seu mundo por excelência. A criança brinca com tudo, e, tudo pode ser motivo para brincar.
O brincar, para além da função lúdica que possui por si só, bastante útil às gratificações que suscitam à criança, possui ainda uma função simbólica importante que contribui para a organização do mundo interno da criança. O Brincar, indirectamente, é igualmente uma forma de comunicação. Ao mesmo tempo que traduz o que se passa dentro do mundo da criança, privilegia a interacção e inter-relação com o universo exterior a si – brincar/comunicar com todos aqueles que a rodeiam.
Pela importância do Brincar, cumpre-se a tarefa de juntar um grupo de pais num espaço onde também se possa brincar com ideias em torno das brincadeiras dos filhos. Criar momentos de partilha e reflexão sobre o mundo mágico daqueles que são tão prezados. Quantas interrogações suscitam as suas brincadeiras, dúvidas, comentários, divagações? Afinal, Brincar, comporta também um espaço de Construção, Identidade e troca de Laços. Brincar é também aprender e Crescer.
PS: Venha com os seus filhos que eles terão um espaço para brincar.
Próximo da sala do workshop as crianças ficarão acompanhadas por 2 animadores enquanto decorre a sessão.
Dirigido por:
Dra. Ana Eduardo Ribeiro
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
Valor da Inscrição:
Individual: 30€
Casal: 50€
Modalidade de Pagamento:
Transferência Bancária
Envio de pagamento para a nossa morada
Localização:
Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº1 – Lisboa
(em frente aos Correios do Poço do Bispo)
http://www.bracodeprata.org/
Escolha a Data que mais lhe convém:
- 21 de Fevereiro
- 14 de Março
- 28 de Março
- 18 de Abril
Das 10:30H às 13:00H

Recomendo. O único risco é divertir-se e querer voltar a repetir. O que lamento é que seja em Lisboa, somente. A Psicronos


Monday, February 09, 2009



Á prova de "crespação" e de ditaduras.


Fui das curiosas (só vejo televisão quando passa o filme x ou a entrevista y mas prefiro o pc) plantada em frente do canal Sic, aguardando o desfecho da mini-série de dois episódios: A vida privada de Salazar. Ontem vi e gostei. De visita, hoje, pela página de "Lauro António apresenta", li o post que escreveu sobre o mesmo e concordei em género, grau e número. Parece que o cepticismo invadiu-nos de cinzento. Não acreditamos mais em boa televisão, em boas produções, menos ainda se forem nacionais. Agradou-me. E sobre a vida dele, não há inveja pelo tanto poder. Sobre as mulheres de Salazar, considero que a única que poderia ter feito feliz o ditador teria sido a que mais apreciou, a jornalista francesa. Com a idade, tendemos a valorizar o que é realmente importante, embora tal consideração com relação a futuro tenha sido tecida pelo próprio mas acerca da Viscondessa da Seco ;)! Homens. O eterno enigma. Elas são muitas e um homem não é de ferro. Salazar era quase.

O nosso "cavalheiro de ferro" foi eleito o maior português de sempre e não foi á toa... Como dizem bem, neste documentário, só se podem entender os grandes homens atendendo ás circunstâncias vividas na altura. Não foi totalitário. Um homem sem vida privada, mesmo na privacidade. Ainda bem que o protagonista escolhido pra esta série, Diogo Morgado, vai tendo a sua própria vida, a par com os papéis desejados por muitos com mais anos nestas lides. Por falar em Morgado, não há dois sem três...Também vi a entrevista de Mário Crespo a Maria José Morgado.

Esquivou-se bem, mantendo em "segredo de justiça" a própria justiça e a cada âncora de Crespo pra que afundasse o nariz e opinasse sobre casos específicos, escondia o sorriso e continuava vigorosa: não me capture pra casos concretos....e assim, a justiça e os seus segredos, de morosidade, das penas adiadas, cumulatórias, do fraco combate á corrupção, sobretudo pelos políticos (uma mão tem cinco dedos apenas), dos crimes económicos, do proteccionismo ao arguido, da lentidão dos processos, das escutas telefónicas, do sis, dos papões debaixo da cama continuam aguardando em marcha lenta, a justiça que demora e vai falhando. Falou-se nas escutas, nas leis e nos não previstos das mesmas leis, no continuado proteccionismo ao criminoso, na investigação criminal, no perigo dos vicios de jogo. Jogo de poder. Ouvi a palavra Freeport duas vezes e ambas na boca do jornalista.

Á pergunta de Crespo sobre a Justiça, Maria José Morgado Esquiva responde: caro jornalista, não posso esquecer-me dos jovens magistrados que trabalharam exaustivamente pra conseguirem avanços significativos no combate do crime na noite lisboeta, dos que trabalham ao fim de semana e dos outros. São jovens, precisam de acreditar na justiça e nos seus superiores. Amanhã é feito do que fazemos hoje e do que acreditamos.Bem, eu também sei divagar. E quase me apetecia morder o jornalista que, a meu ver, esteve mal, á rasca, perdido perante a conduta mantida pela senhora. Ela é um poço e nós também. Admiro, sobretudo, o objectivo acançado de Maria José Morgado. Em boca fechada não entra mosca, nem mesmo mosca experimentada.

Mr. Crespo, time to go.

Sunday, February 08, 2009



A Jorge Santiago (poema: A um Velho)


Mete o piano no poema e arranca-lhe mis
e sois e ré e fás sustenidos
e deixa-o gemer contigo. Açoita-o.

Deixa-o chorar as rugas, os amuos
os retratos de saudade, a tesão e virilidade
e a vaidade dos poetas.

Vá, castiga-o, volta-o de costas pra parede
retira-lhe qualquer pingo de natureza viva,
qualquer verde. E se preciso for, renega-o,
pisa-o, desconstrói a dor do tempo e
de qualquer arrependimento. Retira
silicones e botox, o verniz e a sombra.
Despe-o em público e dá-lhe bordoadas.
E mesmo que ao espelho te embaraçes
pelos cabelos brancos do poema, pela prótese
nunca lhe chames velho, nem dele troçes.

Terá sempre um lamiré,
um si bemol pra te dar nos momentos mais obscuros
(o ego a gozar com a tua cara).

Porque tempo de que é feita a carcaça, continua
a ser a melhor invenção do homem
pra separar os feitos e transformá-los em feitios.


Missão de risco


Não tinhas pressa
eu idém.

E, foi na exaustão que, dissolvemos as dúvidas
todas. Quase todas.
Resta-me apenas mais uma:
- Abortamos ou não?

Wednesday, February 04, 2009




Anoitecemos


Perdemos a cabeça. Perdemos, foi isso.
quando nos abraçamos, numa maré de desafios,
e nos desesperamos do cheiro do outro,
da proximidade do outro, do sorriso.


Perdemos a cabeça. E perdemos a cabeça,
veloz, quando muito depressa
enfrentamos de indicador no nariz o outro,
e as palavras armas em punho, do rio que fomos
sobram duas margens.


Meu amor, perdemo-nos do "nós" que era o outro.
E nada nos salva, nem o silêncio algoz cozinhado
pela precipitação e feito na pressa.

Belezura e á borlex (ainda com penas de pato!)

Pois é! Muitos de vocês não sabiam. mas encontro-me em Florianópolis, esta bela cidade brasileira há uns dias, hospedada no hotel Daifa....e pretendo explorar isto antes de ser enviada pra São Salvador. O tempo está optimo, dispensei os casacos de pelo de leopardo doente, as botas de urso da Moldávia e as luvas de cobra xifruda e aproveito os sumos dos coqueiros, sentindo uma brisa de calor . Já me esfreguei de protector solar, comprei até umas havaianas fixes e um biquini do mais reduzido (tb tenho direito) que há, em laranja e verde....sinto-me, deveras no Brasil. Frio nenhum!!!! Estou a pensar em levar um pouco destre calor engarrafado quando voltar pros tugas, mas o que levo mesmo comigo é este bronze de matar de inveja ó próprio Obama.

Tenciono ir visitar amigos a Itaipava, à Goiânia e não só, cobrar as estadias prometidas. É só curtir. Não me falem de assuntos sérios enquanto cá estiver, sim?

Depois postarei fotos adequadas a um merecido post sobre esta terra de peles morenas que tanta inveja faz aos tuguinhas, por ora fica apenas uma lembrança. Desde já vos adianto que as praias conheço quase todas, desde a praia grande, á praia mole, á da laranjeira, á praia brava, praia do Santinho, á praia ponta do papagaio etctetctetc....Um verdadeiro fetiche por praias, mar e sol.....Decidi, a partir de agora abolir o inverno da minha existência física. Fui devidamente acompanhada pelo meu escudeiro, secretário, segurança, fiel e voluntarioso, moreno e anguloso, António. Não disponível pra mais nada nem ninguém. Até pra praia me leva a agenda e carrega o meu portátil.

Quanto á malta do costume, espero poder encontrar-vos, cada um no seu habitat natural, me aguardando pra um bate papo e uma caipirinha ou uma bejeka. Vemo-nos quando menos me esperarem. Intché lá.

Gol linhas aéas inteligentes, a frota mais jovem do Brasil.
Olá Sr(a).
Obrigado por escolher o WebCompras da GOL.
A sua operadora de cartão de crédito já confirmou a sua compra.
Daremos continuidade ao processamento do seu e-ticket.
Para este serviço não emitimos recibo, verifique seu extrato
na próxima fatura ou solicite em qualquer guichê informando
seu e-ticket.
E-ticket Number: CTOL1097HI
Tarifa J Adulto R$ 685,40
Sex, 23 Jan 09
Vôo 1345
Vôo 1100
07:45 Partida Florianópolis-SC (FLN)
Escala Curitiba-PR (CWB)
Conexão RIO-Galeão-RJ (GIG)
21:30 Chegada Salvador-BA (SSA)

Friday, January 30, 2009



Rigor Inverno


Apaziguamento conseguido
nas longuras do verão
face ao inverno rigoroso.

nunca a chuva foi tão densa,
os ventos tufões na eira
nem a neve tão pluviosa.


anda a alma em sol de Inverno
os varais apinhados
e a derme presa a lareiras.

Wednesday, January 28, 2009

Inquisição?

"Contos proibidos, memórias de um PS desconhecido"
Uma verdade inconveniente!!!
Este livro saiu de circulação de uma forma repentina. Não há mais cópias. Nunca mais foi visto nas livrarias. Façam uma cópia antes que seja retirado, se a democracia vos interessa..
Link para o site onde poderás fazer o download do livro



Brincadeira Literária

O Rubens fez-me um convite para um brincante jogo literário.
Ele, elegantemente, me pediu para olhar para os lados e pegar o primeiro (veja bem, não pira muito não) pegar o primeiro livro que achar. ou seja, o mais próximo.
aí, já sem saída, abrir exatamente na página 161.
Depois, disse para procurar a 5ª frase e colocá-la inteirinha no blog (para que ela possa então voar o mundo pela tela transluzente da blogosfera)


Página 161 (o mais proximo que tinha era o jornal noticias e as desgraças só atingem a pagina 161 se for com edições e desgraças acumuladas). Peguei no primeiro livro da estante.

"Quando o padre Seferino Huanca Leyva, por motivo de uma procissão em glória do Senhor de Limpias - culto introduzido por ele em Mendocita e que tinha alastrado como palha seca - anunciou triunfalmente que, na Paróquia, não havia uma só criança viva, incluídas as nascidas nas últimas dez horas, que não estivesse baptizada, um sentimento de orgulho apoderou-se dos crentes , e a hierarquia, por uma vez, entre tantas admoestações, enviou-lhe umas palavras de felicitação."de Mario Vargas Llosa, A tia Júlia e o escrevedor.
e me fez um último pedido de modo generoso:
- que eu convidasse mais 5 pessoas bacanas muito bacanas para entrar na roda dessa brincadeira
(pensei: porra, vai ser difícil!)
então resolvi o seguinte:vou convidar 4 novos amigos e um velho amigo"



Este foi, portanto, o convite recebido tal como chegou. Cabe-me, então, convidar 5 amigos. E ao contrário do Rubens, escolho 4 velhos amigos e uma nova.
Escolho a Alice Duarte, o Rogério Santos, o Francisco Oliveira, a Lúcia Inês e a Arábica.


A página da Alice: Vemos, ouvimos e lemos.
Rogério Guerra Santos: Roger's Insight.
Francisco Oliveira: Francis Live
Lúcia Inês: Só quero ser.



Monday, January 26, 2009

Serviço Crava

Quando os nossos bolsos já estão vazios, quando não há orçamento pra mais leituras, quando o mundo pula e avança, quando ficamos a olhar as vitrines com as novidades livreiras e, em época de saldos, não há editora ou livraria disposta a sorrir ás nossas ambições de conhecimento, catrapaz, é quando eu acho que o governo devia lançar uma medida para os distribuidores dos ditos (não falo de e-books online em formato digital, diz a conservadora), distribuirem livrinhos aos interessados e, complementado pel' o plano nacional de leitura, havendo um cartão soma-e-segue. Esse cartão ia registando todos os livros que adquirimos e quando atingisse determinada soma, teríamos um plafond de x pra adquirirmos y's gratuitamente. Andamos em maré de livros. Eu entre poesia e prosa. Dava-me jeito leitura técnica. A minha mãe ofereceu-me há dias os dois que ainda não tinha do Daniel Sampaio, Vozes e ruídos e Lições do Abismo. Mas agora, entrando na página da Arábica, pimba na mouche: Ana Beatriz Barbosa Silva e o seu Mentes Perigosas - o psicopata mora ao lado...como querem incentivar e motivar futuros leitores, se os livros estão pela hora da morte? A crise das iniciativas andará a par com o anafabetismo agudo por esse interior e urbes adentro? O serviço crava-livro ia remendar esta sede. Oh, se ia!




Trocada em silêncio.


No seu desespero profundo, confundia mistíco com religioso. Mas a fé era a mesma. Que a resposta viesse, em jeito de milagre, fora de si e ao seu encontro. Passara a vida em silêncio a escutar os outros. As suas vidas e tumultos. Os balancetes e os sonhos que construíam. O diálogo era uma coisa inventada à hora das refeições, para entreter os filhos aos pratos e ao esvaziar do tempo. Ás vezes, respondia com frases ás perguntas que lhe eram dirigidas mas na sua maioria de vezes, nem de monólogo usava, sozinha nos cómodos, na limpeza ou na arrumação dos espaços, na conversão de um lar. O lar da sua família. A presença sem palavras, sem queixumes e lamúrias, sem risos e nem gargalhadas. Reservava a comunicação aos seus pensamentos.

A outra baralhou e voltou a baralhar. Lançou-lhe um olhar do tipo: as vidas são todas iguais no seu limite inferior ou superior. E Rosalina suspirou, respondendo ao olhar com um: sei que pode ler o meu medo. - As cartas baralhadas foram partidas e entregues a uma sorte independente do seu medo. A cartomante dispô-las em 16 casas. Pegou num novo baralho de cartas, desta feita mais pequenas, e pediu a Rosalina que voltasse a partir em cima das dispostas. Prontamente, Rosalina decidiu entregar-se ás previsões do outro lado de lá. Deus, mães-de-santo ou arcanos, todos os que pudessem vir em seu socorro, seriam benvindos.

Não lhe perguntara mais do que: quer realmente saber?

E Rosalina, esposa e mãe de filhos, arrependida e temerosa, desatou num pranto. Que viria a sorte dar-lhe senão a má notícia do que vivia actualmente? Mas Nena, a misteriosa mulher não ouvia o seu pranto e atirou as mensagens das cartas numa enxorrilhada de galego que fez a chorosa mulher parar no tempo, limpando as lágrimas mil vezes derramadas pra um lenço de papel a estrear e amarrotado na hora. - O amor é ingrato? Não se aprisiona numa caixinha bem conservada. Mandou-o sair vezes demais. Que ele saiu mas não foi de vez. Vai experimentar o calor, e olhe que não é coisa recente. É uma experiência afectiva. Não lhe faça a mala. E os documentos não assine. Sejam de divórcio ou de tribunal. Guarde os bens noutras contas, noutros nomes. A outra quererá rifá-lo logo depois. E fale, converse, conquiste. Vá, e ouse passar pelo renovar da mulher. Que tem várias estações. Só não as deixe a todas penduradas no rosto! E lave o rosto com mar.

-Quanto lhe devo?



Saiu apressada. Como se fugisse dele, o benfeitor que a arrasara. Mais que um marido, era o companheiro de sempre, das confidências casuais e sigilosas, dos rompimentos e dos contratos, das discussões e dos pontos de vista partilhados. Fazer o quê com todo o vazio que lhe assomava à boca, em jeito de azia? Onde tinha errado? Onde o tinha perdido? E lá no fundo, sabia Rosalina que o amor não se acabara. Continuava refugiado do seu lado esquerdo, numa espécie de amuleto, o rosto, o nome idolatrado. José Duarte. E ao lado, com mau presságio, o rosto de uma jovem mulher a quem nada devia, nem a perda do marido, com quem ele partilhava agora a cama e os momentos de vida ausentes na dela. Quis gritar com ele, mas não saía um único som da glote. Trocada por alguém sem cumplicidades, sem afinidades, sem mensagens e sem passado. Trocada por um vestido mais curto e ousado, por uns cabelos mais artificiais, por uma imagem de marca sem marca. Por uma mulher sem escrupulos. Não, trocada por um momento de desespero e solidão. Trocada a seu pedido, pelo marido. E agora, chegada a esta encruzilhada da vida, jurava, perante o mar, que qualquer voto no amor-abnegação era em vão. Qualquer milagre, ficitício. Jurava, perante o mar, quebrar o silêncio secular, e pedia a coragem de construir a promessa avessa á sua natureza. Sem apelar a Deus de qualquer religião, ou a arcanos maiores. Tinha que reconstruir o que perdera.




Um prefácio captura


Quando a alma fala
São múltiplas as razões que explicam a escolha da Neurologia como especialidade, desde a curiosidade sobre os mistérios do cérebro, até ao puro prazer intelectual de decifrar os segredos de um diagnóstico difícil, ou ainda o entusiamo de contribuir para uma área da Medicina alimentada pela descoberta científica. É, no entanto, mais difícil compreender porque motivo se opta, dentro do campo da Neurologia, pela neurooncologia pediátrica. Claro que os bons motivos acima assinalados permanecem, mas são atenuados pelo panorama trágico que o clínico enfrenta no seu quotidiano profissional. É certo que, por vezes, também o neurologista de adultos lida com desfechos dolorosos, não sendo agradável, por exemplo, afrontar as consequências de um acidente vascular cerebral ou de uma demência de Alzheimer, já que o sofrimento e o sentimento de perda são o que são em qualquer idade. Contudo, há algo de particularmente doloroso quando as vítimas são crianças, algo de especialmente injusto quando se corta uma vida por viver. Ao contrário da maioria dos pediatras, que - segundo me dizem - se nutrem da alegria de contribuir para que os seus doentes se tornem adultos saudáveis, aos neurooncologistas pediátricos mais não resta do que dizer: "lamento".

No livro notável de Nuno Lobo Antunes, Sinto Muito, ficamos a conhecer a vida de um destes médicos, e descobrimos os motivos da sua escolha profissional. Todos os dias a especialidade lhe oferece a oportunidade de viver de perto o melhor que a humanidade contém. À primeira vista, pode parecer que os benefícios resultam simplesmente do sofrimento dos outros, uma atitude aparentemente bizarra e paradoxal. Mas não há nisso nada de bizarro ou de paradoxal. Pelo contrário, trata-se de uma resposta elaborada, refinada e nobre. A força do autor provém da coragem manifestada pelos jovens pacientes e, em particular, pelas famílias confrontadas com a crueldade do seu destino. Ao invés de adoptar uma visão cínica ou distanciada, o autor mergulha no caos dramático que o rodeia, para lhe dar forma ou razão, para oferecer socorro quando nenhum lhe parece possível. Como o menino que assobia uma melodia alegre para afastar os seus receios, o autor transforma o espectáculo aterrador que os seus olhos enfrentam, e dele retira coragem, e até apaziguamento. No fundo trata-se de uma situação idêntica à que Wordsworth tão bem prescreve, embora para circunstâncias diferentes:"Não nos lamentaremos, antes iremos encontrar força no que para trás ficou".

É possível debruçarmo-nos sobre a humanidade subjacente a esta resposta. As suas raízes profundas encontram-se no mesmo cérebro que, uma vez invadido pelas células cancerígenas, o autor tem de cuidar. Trata-se de uma variante deliberada, cultivada, tragédia Grega. É a mesma resposta que nos permite ler um romance notável, ainda que doloroso - ou ver um filme doloroso que nos emociona - e no fim emergir com mais coragem para enfrentar os nosso próprios dramas, grandes ou pequenos, e com a mais nobre das intenções: o desejo de ajudar os outros.

Sinto Muito é sobre o sofrimento em geral, ou se quisermos, sobre a dor, seguida de perda, seguida de dor. Entristece o coração, para depois o desanuviar e torná-lo mais leve. Não se trata de um livro que siga a presente moda artificial, em que os neurologistas descrevem as bizarrias dos seus doentes, ou deles próprios, na intenção de abrilhantar a cultura. Sinto Muito é o artigo genuíno. Qualquer médico com experiências semelhantes, nele se vai reconhecer, tal como quem quer que tenha estado do outro lado do espelho de Alice. Os leitores não terão dificuldade em confiar nesta nova voz-do-mestre.

Sinto Muito é um título fabuloso, que nos remete, desde logo, para a prosa muitas vezes feliz e rigorosa do autor. Apesar de o cenário ser predominantemente nova-iorquino, a matéria é filtradapor uma sensibilidade portuguesa, tanto emocional como linguística, que a torna nova e sedutora. Quando é sincera, a expressão "sinto muito" não significa o mesmo que "lamento". Esta última é uma expressão formal de lástima, a primeira acentua um sentimento devastador de perda.

A primeira vez que encontrei o Nuno Lobo Antunes, por impossível que pareça, foi há cerca de trinta anos, era ele ainda estudante de Medicina. Na altura, convencido que estava da minha capacidade de julgar as pessoas, previ-lhe uma carreira brilhante. Será preciso insistir na justeza da previsão?

E, no entanto, não foi fácil, de início, ler este livro maravilhoso. De alguma forma, os ensaios lêem-se como se de "memórias" se tratassem, e entrar nas memórias de alguém que se conhece é o mesmo que ouvir, de forma acidental uma conversa que não nos é dirigida. Transgredimos, violamos propriedade privada, e a esta infracção associa-se um sentimento de embaraço e de culpa. Ao pensar melhor, é-nos evidente que tais sentimentos não se aplicam. O desejo do autor é de que os seus relatos sejam "como se" ouvidos sem querer, as suas missivas lidas "como se" por engano. O escritor de memórias pode até desejar que o leitor, em jogo simbólico de "faz-de-conta", sinta a emoção do embaraço ou da culpabilidade, para que o poder de auto-revelação se possa gravar na mente do leitor em dois registos emocionais, um que resulta do próprio tema da escrita, o outro do papel dúbio de observador involuntário.

Nuno Lobo Antunes pretende, com bom propósito e bosn resultados, deixar que o seu coração se pronuncie, que se liberte a sua voz, que seja conhecida a sua humanidade. E, na verdade, a alma fala.


António Damásio, prefácio do livro Sinto Muito de Nuno Lobo Antunes

Los Angeles, Agosto 2008.


É, mais que um atestado de amor, um convite ao conhecimento do universo da dor, uma espreitada ao outro lado do espelho.