Tuesday, December 30, 2008

Um pouco de iluminismo não pode fazer mal!

A meditação em locais retirados, o estudo da natureza e a contemplação do universo forçam um solitário a procurar a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente.

Jean Jacques Rousseau

Aos solitários e não-solitários votos de muitas e boas reflexões pondo em causa não só o que cada um sente mas o que os outros gostariam de sentir. Vi a citação na página do Roberto e achei que valia bem o que eu acho que nos falta a todos. Feliz ano novo e que este seja um ano digno de ser registado pelos homens de bem!

Monday, December 29, 2008



Perigar o afecto


Ele dizia, não sei se sentido, não sei se-ao-calhas, não sei se conversa de sala, ou num ir-que-me-embalas, que eu despertava o melhor que nele havia, que me absorvendo se vomitava uma pessoa melhor. E a confirmação dos que o rodeavam fazia engrandecer essa constatação, engordando-a.
Pois, devo dizer-lhe que num tempo anterior a si e na procura incessante que todos fazemos pelo equilibrio e pela essência do eu que somos, também sua certamente, eu já me sabia feliz, já sabia fazer feliz, que os outros despertavam sempre, num pontilhado de dias desiguais na frequência e, na intensidade mas sempre presente, a alegria de me gostar e de gostar dos outros em mim.
E esta vida em comum é esta agonia constante, esta castração e cedência, esta mágoa presente e, esta mulher do avesso foi resultado do nós, deste conjunto desnecessário e infeliz para ambos.
Devo dizer-lhe que o comodismo, muito antes de José Régio, quando de mim se abeirou, fugiu. Sou uma inconformada feliz. Porque todas as decisões que tomo são pesadas pelo coração.
Quero subir ao céu e não ao inferno dos outros. E é aí, devo garantir-lhe, é mesmo aí que me encontra ainda, junto a esse nós perfeitamente impossível. Faça alguma coisa, se ainda me quer encontrar nos croquis alinhavados a dois do nosso passado recente. Coz i'm sick of this!

Sunday, December 28, 2008

Indo eu indo eu

a caminho do Mercador de Veneza. Tem Jeremy Irons, tem Al Pacino. Logo, tem grandes chances de eu gostar. Andei aqui a espreitar a página de alguns, onde ouvi Amália (chorarei meu triste fado), entre outros, choquei rés-vés com Mário Quintana e um Mar oceano bem gelado. Fui ao Myspace, ao Spokeo, ao coiso e também á coisa. As imensas possibilidades de leitura quase nos atropelam os olhinhos. Também vi daqui os ccv's (não vi a Cris, nem a Lúcia), vi o Roger, o headshot, claro, o Peres, o embaixador João e o seu busto, o Fagundes que vai arrasando até os que da lei da morte se vão desprendendo; o Roberto a tomar café com o Obama e a prometerem grandes cenas lá para o dia 20 de Janeiro! Andei no hot e no gmail e abri algum do correio. Gostei do video artistico da "Ronaldinha" e de um ppf que me foi enviado dos brasis pela Beatriz. O inicio das enxaquecas....foi culpa de Deus, garanto-vos!Deixo-vos com ele e vou, entonces, ao youtube e depois ao Mercador que não gosta muito de atrasos... :)))))

foto de Lúcia Inês

Thursday, December 25, 2008

O natal dos ditadores

Em tempo de consumos, não nos chegam as poupanças pra fazer um agrado a todos, mas, principalmente aos nossos filhos que, pensando que temos fábrica de fazer notas de 100 euros, nos consomem o juízo e o pastel. Querem tudo, tudo, de preferência, o mundo já desembrulhado e com todas as suas ambições prontas a consumir. É de lembrar (ou não esquecer) que já fomos daquele tamanho e que as nossas ambições passavam mais longe dos euros e das máquinas e mais perto das viagens, do conhecimento, do descobrir os sonhos possíveis. Quanto mais perto regarmos as ambições milhentas deles, mais ditadores se tornam. A lembrar (não esquecer) que um dia crescerão e sedentos como os trazemos, nem este mundo chegará pra lhes matar a sede e, depois não estaremos cá pra nos culparmos dos erros cometidos pelo excesso e pelo amor de bem fazermos. Ás vezes o bem pode ser uma faca de dois gumes. Melhor ir devagar na satisfação deles. Melhor exigir umas bekas antes. Se não leram o livro de Javier Urra, deviam. O pequeno ditador mostra o rei em miniatura criado em casa de gente boa e é sempre pelo coração que nos tomam a carteira. Vai daí que excessos e caldos de galinha devem ser moderados. Acho que já disse isto, mas é que todos os anos, todos os dias, parecemos esquecer que o amor acarreta outras coisas como disciplina, tolerância e tentativa de nos colocarmos no lugar do outro e, por vezes nos esquecemos ou não temos tempo pra reflectir. Urge olhar em volta e perceber o que está mal e, com pulso, mudar, antes que seja tarde demais. É chã? Da hora de almoço. Abraços multiplianos

Wednesday, December 24, 2008




Do desejo

Trememos e não foi de frio
gritamos e não foi de dor
os teus dedos eram armas
com que se fez o amor
e o meu corpo o rio
onde passeavas o suor


depois disso foi natal
no calendário dos outros
no lá de casa a paragem breve
num tempo
que só existe pra nós.

Thursday, December 18, 2008

Ao pai natal lá de casa

Atrasada, em cima da hora do teu tempo de antena de leres pedidos...

Pois é Pai Natal, sabes que me porto muito bem e sempre atendo a que na tua mesa, cama e meandros da vida de mãe natal, nada te falte. Ponho as tuas barbas de molho, arejo-te a cabeça quando te tiro o barrete e o visto eu, lavo-te a farda e sabes que detesto o encarnado, quando vens cansado, recomendo-te o descanso e as canjas de galinha velha, etc etc e tal. Este ano resolveste terminar o ano mais cedo e, sem me consultares até me deste presentes que não queria, não precisava e que me souberam bem, sabes o apreço que te tenho, também sabes que não faltam por aí muitas mães-natal pra me substituir (3 de 20) mas há algo que eu quero que não cabe neste ano e que terás que ceder. Trata-se de uma nova viagem literária, mais precisamente ao amor através da poesia. Tenho um amigo lá prós lados das Lisbias, Carcavelos, o Peres Feio de quem já ouviste falar muito, que vai apresentar o seu livro de poesia e que não posso dispensar. Agradecia que, em conjunto, nós parte da equipa, sem trenó e sem renas - renas não permitidas no recinto - possamos nos deslocar lá e adquirir uma voltinha de baloiço. Eu que nunca te peço mais que calma, paciência e ovos moles, venho desta forma, atrasada e pública -ai, que te dá uma coisa - pedir e agradecer pedido satisfeito, sob risco de ter de arranjar novo namorado, se não me satisfizeres. Sei que vais marcar na tua agenda o 14 de Fevereiro :).

Agora, vou-me por na alheta, sabes bem das minhas mondas. Ps. I love you qb.


Palco de Moliére

No princípio era a palavra
que entrava sem licença
e a voz coloquial castrava
todo o sentimento e crença,
e do rosto, dos outros
entoando aborrecimento,
um bocejo, um praguejar
vociferar em silêncio,
como se o grito fosse algo de
desprezível e gemer proibido.


Depois cheguei eu,
a palavra era mais acto
o sorrir era espontâneo
deixando de ser obrigação,
artefacto.

Tu sorrias de volta,
a voz ganhava tesão
e dos outros rostos
que não o teu, a expressão
foi ganhando interesse
despertando, e, o céu
era azul e impossível.


Alguém me chamou teatro,
e até expressão dramática
mas continuo a ser oral,
continuo a ser voz afinal
dos que sonham mais alto.

Monday, December 15, 2008




Avessos


A combinação não era lá essas coisas. Nunca fui forte a combinar coisas. E pessoas não se combinam. Sentam-se juntas.
Sentámo-nos. Sem assunto. Não inventamos. Não havia o que inventar. Nem o frio que corria a esplanada, nem o empregado a trazer o café, nem o cigarro que teimava em queimar, levando o fumo a lamber-te a cara, nem o meu sorriso satisfeito e nem o teu olhar amedrontado. O assunto era o desassunto. Nem por isso foste embora, nem por isso fiquei. E depois e depois, os teus olhos, e depois o mar que se espelhava neles,e depois a tua forma de fugires ao meu olhar e depois, tantos depois estamos por aqui, ambos sem medo, ambos - os dois.
Tu eras vinho e eu água de rio. Doce, dizias. E eras todos as crónicas que não li e eu uma frase solta que por mais que negasses, batia-te inconveniente.E depois, todos os "nãos" que te dei e todos os dias que te não quis, ficaste lá, aqui, em todo o lado, aguardando a presa. E depois? Estamos ambos presos no emaranhado de dias que perdemos a conta, num emaranhado de sentidos que me fazem perder a noção dos outros e até de mim. Não sou capaz de viver os depois sem ti. E esta cumplicidade torna-nos menos avessos a nós.

Sunday, December 14, 2008





Díade razão/afecto : corroborando outras teses.



Quem sabe, se em mim acender o desejo e arrancar á boca o beijo, possa reinventar outra forma de fazer o amor porque acho que perdi no cansaço das palavras e dos gestos toda e qualquer tesão. Não depreender desta confissão outra coisa qualquer outra palavra não dita, dis-cussão, sou a mesma mulher, o coração é que palpita mais devagar. Quem sabe o amor seja um hábito do qual nos desabituamos quando não há o jeito calmo de dizer palavrões de tropeçar carícias-azedume e de mascar pragas silenciosas quando voltas as costas. Quem sabe de culpas sejam os dois, de cansaços ambos. E a faísca não risca incêndios tal como nos foi acostumando.

Adio, então a razão, a com-preensão, essa velha necessidade que tenho de entender os afectos e as mudanças, os corpos sãos e os estilhaços. E já não te vou colher, recolher, escolher belas poesias para o teu regaço, palma da mão, bebo-as directas quando a noite se redimir, em nome da nossa, da outra, outrora combustão.







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Wednesday, December 10, 2008




Que faço deste tempo arrastado
onde só os pássaros enfrentam o gelo
e até os peixes se arrepiam de rio?
Que faço com o vento na cara
se não é uma ave rara
e não vem pelo entardecer
ajudar a recolher
os animais no pasto?
Que faço com a tarde de frio
que amontoou cartas sem selo
dos meus quereres antigos?

Que faço de mim, que faço comigo,
daqui pra sala, da sala
para um livro qualquer
gasturas, suspiros, saudades caladas
e passam, entretanto, anos, vidas
mas nem sombra do teu ombro
Do que me recordo, dos cigarros,
da música, dos escritos
no teu abraço morno?

Que faço eu desta tarde,
que não posso fazer contigo?
que faço com esta data de calendário
que assinala aniversário antigo?
Que faço meu pai, hoje
quando a chuva ameaça
contágio e a desolação traz o teu
nome e sabe a nunca mais?
in Dores d'alma

Tuesday, December 09, 2008




Poesia pra gritar à esperança num dia sem escolha
O amor não é infindo como não é o Inverno...


chuva fria molha
face quente sem doer
neve queima cultura
mas não é dura
como martirizar ou moer


que dói mais
a palavra que sai seca
no calor da discussão
rasga muito o amor
quando gritado na posse
da suposta paixão

desamor abriga dias
do mofo nasce o bolor
cereais aguardam sol
ou morrem


não há qualquer amor na prisão
nem o amor por nós próprios

Sunday, December 07, 2008




A driblar palavras era rápido e se fossem amargas, a tarefa facilitava-se. E a mim fazia-me tanta confusão ver essa facilidade com que derrubava pessoas. Preferencialmente os que mais amava. Sílabas erectas, não havia gaguejos e nem hesitações. Dir-se ia que nascera provido de todas as más-criações. Ferir, achava ele, seria levantar um braço dos seus, de homem de 1,92m e empurrar um prato de sopa insosso. Ou esbofetear as costas de um amigo, como quem diz: olá bom dia, já por cá? Ou amandar-se contra um condutor que cometesse um erro contra ele ou contra outro, perto de si. O carro virava do avesso, impedindo a fuga do homem e depois era um ver-se-te-avias até a polícia chegar e convencê-lo que a violência não dava respostas ás injustiças do dia-a-dia.

Sensibilidade era palavra fora do seu ãmbito. Se lha dissesse, remataria: Acabemos o palavreado, afinal sou esperto mas estrangeiro ou paneleiro é coisa que não! E levantava-se, vencido, fugia ermos adiante ou portas afora. Investiguei sobre a vida dele. Mais do que familiar, era um homem de boa aparência, bons modos e melhor coração. Era assim que o lembrava na minha infância. Alguma coisa sucedera pra criar tanto azedume. E acontecera. Fora despedido da câmara de uma forma injusta e sem muito que pudesse fazer. Pai de dois filhos e de esposa doméstica, a família dependia do seu ordenado certo.

Como se isolava muito e era possante, todos receavam tocar no assunto proibido. Não fosse a Alice ser agredida verbalmente á conta disso. Nunca mais ninguém o viu num compromisso profissional. Fazia uns biscates, era bom de mãos e de ideias. Um excelente artesão, um artista. E não sabia obedecer. Nem mandar. A esposa começou a trabalhar aos dias, para aguentar as despesas, depois dos filhos casarem. Hoje ia fazer limpeza em casa da dona Fernanda, amanhã passar a ferro pra casa de uma vizinha. No dia seguinte, pra Lousada ajudar a costurar cortinas num atelier e assim levava a vida, ela. Ele com os seus biscates ganhava o suficiente pra si mesmo, prá gasolina que gastava, ora no tractor ora na carrinha, pra comprar uma nova máquina ou comprar mais um animal. Estimava os bichos. Dizia-se que tratava melhor os bichos que a família, depois desse incidente. Falar pouco falava, a não ser com estranhos se a situação o exigisse. Com a esposa em casa, grunhia qualquer coisa, mas pouco, o suficiente pra ela saber que era infeliz e assim continuaria. E tal criou o efeito bola de neve. Um dia ela chegou a casa e encontrou-o de bruços, deitado no corredor, ainda com o anorak vestido de ter vindo da rua. Dizia o sr. João que saira da beira dele bem disposto. Mas o sr. João não sabia que ele tinha vindo mais uma vez da câmara, de ter esperado solução para o problema dele. Não havia soluções e ele jurava que era complô contra ele por não ser do psd. Políticas à parte, o remédio de escaravelho tinha escorrido por entre as paredes da casa até chegar à cozinha. Alice sabia que aquele cheiro era estranho e horrível. E quase a impedia de falar, secando-lhe a garganta.

- Fernando, Fernando, gritara-lhe, mas o Fernando não estava lá, só o seu corpo bruto e dificil de arrastar. Alice gritou o que pôde que, a sogra que morava de frente chamasse os bombeiros. E essa tivera sido a primeira de muitas outras vezes. A última levara Fernando a ser internado no Hospital Magalhães Lemos. E a ser transferido para o hospital da área, na enfermaria de psiquiatria. Num tempo já recente, onde as pessoas aceitavam melhor que a psiquiatria era o mesmo que outras especialidades humanas e não um sítio onde se escondiam loucos que nunca mais eram recuperados. Pra Alice, as tentativas de morrer dele já eram o fado que sabia ser seu mas que nunca se habituara. Quando saía para o trabalho, achava que aquela seria a ultima vez que o via vivo ou normal, sem estar chumbado de medicação. O azedume dele viria dos meses deambulando pelos corredores dos hospitais onde outros como ele deambulavam? Não, o azedume tinha vindo da injustiça, do desemprego obrigado e injusto. De não saber como governar uma família que tivera sido sempre a sua responsabilidade. O facto era que Fernando sabia fazer de tudo, tinha habilidade para trabalhar com madeiras e até fazer esculturas e pintar. Também sabia tocar instrumentos musicais, reparar automóveis, fossem quais fossem as avarias, lavrar o campo, construir casas e fazer de conta que a vida não era dificil. Mas acarinhar, fazer um mimo ou falar com doçura eram coisas de uma dificuldade tal que preferia morrer. As pessoas não entendiam, pois educação não lhe faltava, era culto o suficiente, lia o jornal com frequência e via todos os dias os noticiários, os debates, os programas culturais. O amor era-lhe a tarefa árdua e impossível. Porque provinha da confiança e isso ele perdera muito tempo atrás, confiança na humanidade. Anteontem, arranquei-lhe meia dúzia de palavras menos agressivas, mais doces e uma lágrima. Depois fugiu, escondido entre os seus medos de lhe ler a alma e a raiva de não saber enfrentar o amor e retribuir.

Wednesday, December 03, 2008




Tocar-te me.

dedos devorando pressa e tempo
urgência desejo, arfar, corrida
negação da paz esta guerra
fúria que exige ser combatida.

fechar os olhos
ter-te onde o desejo queima mais perto
fonte generosa, drink indigesto
testa em brasa, beber-te
toco o orgasmo e esgoto o cio
apalpo o meu seio, ardente de frio

invento beijos, flagelo hemisférios
provoco-me, então, o doce arrepio
vibramos os dois, em camas diferentes,
no vazio do nosso leito
combato alguns dos teus medos,
ainda sinto o teu coração correr
qual cavalo, no meu peito entre o lençol de algodão
e agora já calmos, os teus nos meus dedos.
Masturbação.