Monday, November 17, 2008



Da Maria resta a solidão

O casaco pende-lhe aberto, o macho sobre o coccix. Roçado de um azul marinho em extinção. Chamam-lhe de Beco mas o seu nome próprio é Luís. O olhar cansado de quem já mondou demais e mandou outro tanto. Diz que tem um bom pé de meia, mas chora quando fala dela. Ela, a Maria que Deus quis chamar há pouco. E parece-lhe que é, já de muito tempo, esta dor esgaçada entre a garganta, apinhada de soluços contidos e, o coração abeirando a solidão. Por causa dela, esqueceu as punhetas de bacalhau, os jogos da malha e do dominó, os vizinhos, os filhos, os netos. Que mais podia querer da vida senão aquele sorriso que ela lhe usava dar desde que raiava o sol até que se escondia a lua, debruçada nas almofadas dos dois'? Dele, que ela já não precisa de altear a cabeça, de descanso tem ela uma vida de morte pela frente. Dizem que os mortos não falam, mas daqui do meu sítio, avisto-o e vejo-o gesticular e, da boca devem sair desesperos e ais e, quem sabe, cantigas que a Maria cantava. Já não lhe apetece o cavaquinho e nem o palco, que o negrume da ausência dela crivou. Não sabe escrever uma letra e nem contar dinheiro mas sabe que tem muito, mais do que queria. Ah, se lhe pudesse comprar a passagem de vinda dela ou da sua própria ida. O chapéu cai-lhe nos olhos, propositadamente, que lhe interessa ver as coisas do mundo se um mundo de coisas lhe foi roubado? Não sabe viver sem ela. Nem soube morrer com prontidão. E fica na espera, chutando calhaus e sorrindo um choro a que apetece dar colo. Colo é o que ele não quer. A piedade dos outros exaspera-o. E analfabeto sim, mas orgulhoso, até quando fala dela. Ela, a Maria que se finou.

4 comments:

melgadoporto said...

Afecto e dependência!
Onde começa um e acaba o outro.
Ou vice-versa!
Ambos “uma” droga nada leve…
:)

innername said...

Grogas necessárias. A vida só sabe bem assim e nem sequer podemos passar ao lado, fingindo o non afectos
;)

vida de vidro said...

Emociona-me sempre a forma como falas de perdas. Há pessoas de quem não admitimos a morte. No fundo é connosco e em nós que elas resistem a desaparecer. E isto não é consolo nenhum.
Um texto belo. Até sábado

innername said...

obrigado Alice, até sábado. Já postei no multiply o convite. Comigo contas.