Wednesday, November 26, 2008




Antecipação de ausência


Without green hopes we're just public spectateurs.

Não sei se algum de vocês sabe quem é Haruki Murakami ou, se leu o seu Crónica do Pássaro de Corda. Ando a lê-lo, quando estou em casa, graças ao esquecimento do mano, e divido esta leitura com a pedagogia centrada na Pessoa de António Ferra (sobre Carl Rogers) e com A Mancha Humana de Philip Roth. E com a Poda Fácil onde se aprende jardinagem. Diz que é para pessoas simples e para bons resultados. Não sei. Ainda não experimentei. Ando muito parada no que diz respeito a fazer coisas. Fazer. Acto de mexer mãos e pés, empreender iniciativas. A do pensamento é, porventura, a maior. Que quando vou pra cama pra dormir, não sou capaz de desligar as sinapses. Mesmo depois de tomar unisedil. E adalgur. E as dores são mais do que do corpo, da alma. Nunca encontrei ninguém perfeito e nem nada que me deslumbrasse realmente a não ser a espontaneidade das pessoas, o rir fácil das crianças, a quietude da natureza, o deslizar de um animal sem raça entre ervas daninhas, a conversa sem formalidades, a fidelidade e boa vontade dos cães, a net e o seu uso. Na verdade, na minha verdade momentânea, o céu carrega-se facilmente de nuvens e os meus olhos de chuva. A vida traz novos pensamentos e ideias a cruzarem-se com navios e portos, com pessoas e cadáveres. Com destinos e histórias que se gastaram na minha evocação. Os anos não terminam quando lhes mudamos o último algarismo. As dores não se vão quando recorremos ao doutor. Por mais competência que tenha ele. Ainda não lacrei a caixa que irá rumo a Petrópolis com meias quentes e mais uma catrafada de coisas ccvianas que gostava que lá chegassem. A Dona Maria, a do Lúcio, está em agonia. Também o Luís de Beco. E os muitos filhos. As dores não se removem pela boa vontade dos homens, pela ida à farmácia e os doutores dizem que é uma questão de tempo. O tempo da negra mancha que virá, não sabemos quando nem como e nem porquê, escolher o nosso corpo para dar a machadada final. Queremos agarrarmo-nos à ideia milenar que do outro lado um anjo nos espera ou que, por outro lado, tal mancha só surgirá quando tiver manchado todos os outros, porque a nós nos foi dado o olhar imortal sobre a mortalidade dos outros. E o cansaço das agonias e o receio do desconhecido preenchem os segundos, enquanto o olhar dos outros prescruta o nosso e encontra o vazio. Nele não se pode ver medo, nem sombra, nem nada. Porque a bem dizer, estamos tranquilos, nesta aparente tranquilidade da aceitação. Aceitamos porque não conhecemos outra forma de vivenciar esse grande finale. -Que lhe apetece hoje? Uma canjinha com galinha velha? Ou uma maçã assada?. Beba, beba esse iogurte, tem vitaminas. Dizem que pode prolongar a vida, é da Longa vida. Ou Agros, que diferença faz? Ajeitam-se as almofadas pela quinquijésima vez. Que havemos de fazer com a nossa impotência? Temos de lhe dar utilidade. As mãos caem inertes e os suspiros saem amargos e compridos. Os contrasensos crescem neste período. Em que não lhe apetece ver ninguém. Nem estar consigo. O adormecimento letal virá sem hora marcada e se, ás vezes o deseja, outras tem em que o deseja aos outros. Porquê eu? soa sempre como uma praga despregada, sem rosto ou intenção. Moi-lhe o juízo, que tem de comer, que saco roto não fica de pé. De ver limpar o que está limpo. E ela nem forças tem pra lhe gritar: deixa que o pó se acumule. Deixa isso. Olha pra mim, porque te restará poucochinho a avaliar pelo que sinto nas minhas entranhas. Nem me quiseram para quimioterapia. Nem para estudo. Vê quem cantou e dançou tanto nesta vida. E dizes que sou bonita e dás-me a tua mão, porque a juventude ainda te assiste. Porque não sabes o que é ver sumir a esperança de participar da vida. Que te corre nas veias. Que te incha as mãos no verão. Tenho medo de partir. Estou a gritar-te este medo mas nem dás conta. Porque nos meus lábios vês o mesmo sorriso amarelo, esbatido e tão gasto como esse pano que carregas pra todo o lado. Apetece-me dizer-te que gosto de ti. Que vou estar aqui sempre mesmo quando a outra me vier buscar e for ensaiado o registo fúnebre. Em que te despedirás de mim. E os outros, todos os outros, que me habituei a amar. Todos os outros que viveram comigo ou sem mim. Todos os dias me deito nesta mesma posição, com o sol alto lá fora, ou a chuva certa a bater contra a vidraça. Todos os dias enquanto vos vejo a cozinhar, todos os malditos dias em que me doi tudo, eu me despeço de vós. E até dos pássaros e das plantas, que lhes sinto a falta. Se me perguntares se ainda acredito em Deus, dir-te ei que preciso dele para continuar à espera. Porque a vontade que tenho é de berrar com ele. Mas aceito que Deus exista sem tempo pra todos os fiéis. E que a fila onde me encontro vai parecendo que nem se mexe. Ainda bem. Porque de um momento para o outro serei eu e, assim sem dar muito conta disso, vai, por certo doer menos. Não é medo da morte. É o desconhecido que chega e não traz um sorriso nos lábios de boas vindas e nem nos pergunta o que achamos, se estamos preparados ou deixamos algo inacabado. E nos rouba à existência que era nossa e também dos outros. E nos leva sem volta. Dizem que a ver a luz. Entretanto, já andam à roda do fogão, quase que em pézinhos de lã, como se o silêncio não incomodasse mais que todos os ruídos da vida a passar!- I learn a prayer to say for you
foto de Misha Gordin

2 comments:

vida de vidro said...

Fantástico texto este teu, Nina! Este é dos que nos dá a volta por dentro. No sítio onde estão todos os medos e dúvidas acumulados. **

innername said...

obrgd Alice