Saturday, November 29, 2008


esgrimar o frio
neva
lá fora
gelo cá dentro
incendeias
o momento



Friday, November 28, 2008




Mãe


entre as estações e as datas, os silêncios e as pausas
hás-de cumprir penas que te serão vitalícias
entre perder e ganhar que isto de viver é mais
do que nascer num apgar qualquer,

Uma palmada no rabo, gritas e dentro
desse apgar qualquer,
sentes o bisturi cortar o cordão
a que ficarás ligado pra sempre
no coração da mulher que é (tua) mãe.

Wednesday, November 26, 2008




Antecipação de ausência


Without green hopes we're just public spectateurs.

Não sei se algum de vocês sabe quem é Haruki Murakami ou, se leu o seu Crónica do Pássaro de Corda. Ando a lê-lo, quando estou em casa, graças ao esquecimento do mano, e divido esta leitura com a pedagogia centrada na Pessoa de António Ferra (sobre Carl Rogers) e com A Mancha Humana de Philip Roth. E com a Poda Fácil onde se aprende jardinagem. Diz que é para pessoas simples e para bons resultados. Não sei. Ainda não experimentei. Ando muito parada no que diz respeito a fazer coisas. Fazer. Acto de mexer mãos e pés, empreender iniciativas. A do pensamento é, porventura, a maior. Que quando vou pra cama pra dormir, não sou capaz de desligar as sinapses. Mesmo depois de tomar unisedil. E adalgur. E as dores são mais do que do corpo, da alma. Nunca encontrei ninguém perfeito e nem nada que me deslumbrasse realmente a não ser a espontaneidade das pessoas, o rir fácil das crianças, a quietude da natureza, o deslizar de um animal sem raça entre ervas daninhas, a conversa sem formalidades, a fidelidade e boa vontade dos cães, a net e o seu uso. Na verdade, na minha verdade momentânea, o céu carrega-se facilmente de nuvens e os meus olhos de chuva. A vida traz novos pensamentos e ideias a cruzarem-se com navios e portos, com pessoas e cadáveres. Com destinos e histórias que se gastaram na minha evocação. Os anos não terminam quando lhes mudamos o último algarismo. As dores não se vão quando recorremos ao doutor. Por mais competência que tenha ele. Ainda não lacrei a caixa que irá rumo a Petrópolis com meias quentes e mais uma catrafada de coisas ccvianas que gostava que lá chegassem. A Dona Maria, a do Lúcio, está em agonia. Também o Luís de Beco. E os muitos filhos. As dores não se removem pela boa vontade dos homens, pela ida à farmácia e os doutores dizem que é uma questão de tempo. O tempo da negra mancha que virá, não sabemos quando nem como e nem porquê, escolher o nosso corpo para dar a machadada final. Queremos agarrarmo-nos à ideia milenar que do outro lado um anjo nos espera ou que, por outro lado, tal mancha só surgirá quando tiver manchado todos os outros, porque a nós nos foi dado o olhar imortal sobre a mortalidade dos outros. E o cansaço das agonias e o receio do desconhecido preenchem os segundos, enquanto o olhar dos outros prescruta o nosso e encontra o vazio. Nele não se pode ver medo, nem sombra, nem nada. Porque a bem dizer, estamos tranquilos, nesta aparente tranquilidade da aceitação. Aceitamos porque não conhecemos outra forma de vivenciar esse grande finale. -Que lhe apetece hoje? Uma canjinha com galinha velha? Ou uma maçã assada?. Beba, beba esse iogurte, tem vitaminas. Dizem que pode prolongar a vida, é da Longa vida. Ou Agros, que diferença faz? Ajeitam-se as almofadas pela quinquijésima vez. Que havemos de fazer com a nossa impotência? Temos de lhe dar utilidade. As mãos caem inertes e os suspiros saem amargos e compridos. Os contrasensos crescem neste período. Em que não lhe apetece ver ninguém. Nem estar consigo. O adormecimento letal virá sem hora marcada e se, ás vezes o deseja, outras tem em que o deseja aos outros. Porquê eu? soa sempre como uma praga despregada, sem rosto ou intenção. Moi-lhe o juízo, que tem de comer, que saco roto não fica de pé. De ver limpar o que está limpo. E ela nem forças tem pra lhe gritar: deixa que o pó se acumule. Deixa isso. Olha pra mim, porque te restará poucochinho a avaliar pelo que sinto nas minhas entranhas. Nem me quiseram para quimioterapia. Nem para estudo. Vê quem cantou e dançou tanto nesta vida. E dizes que sou bonita e dás-me a tua mão, porque a juventude ainda te assiste. Porque não sabes o que é ver sumir a esperança de participar da vida. Que te corre nas veias. Que te incha as mãos no verão. Tenho medo de partir. Estou a gritar-te este medo mas nem dás conta. Porque nos meus lábios vês o mesmo sorriso amarelo, esbatido e tão gasto como esse pano que carregas pra todo o lado. Apetece-me dizer-te que gosto de ti. Que vou estar aqui sempre mesmo quando a outra me vier buscar e for ensaiado o registo fúnebre. Em que te despedirás de mim. E os outros, todos os outros, que me habituei a amar. Todos os outros que viveram comigo ou sem mim. Todos os dias me deito nesta mesma posição, com o sol alto lá fora, ou a chuva certa a bater contra a vidraça. Todos os dias enquanto vos vejo a cozinhar, todos os malditos dias em que me doi tudo, eu me despeço de vós. E até dos pássaros e das plantas, que lhes sinto a falta. Se me perguntares se ainda acredito em Deus, dir-te ei que preciso dele para continuar à espera. Porque a vontade que tenho é de berrar com ele. Mas aceito que Deus exista sem tempo pra todos os fiéis. E que a fila onde me encontro vai parecendo que nem se mexe. Ainda bem. Porque de um momento para o outro serei eu e, assim sem dar muito conta disso, vai, por certo doer menos. Não é medo da morte. É o desconhecido que chega e não traz um sorriso nos lábios de boas vindas e nem nos pergunta o que achamos, se estamos preparados ou deixamos algo inacabado. E nos rouba à existência que era nossa e também dos outros. E nos leva sem volta. Dizem que a ver a luz. Entretanto, já andam à roda do fogão, quase que em pézinhos de lã, como se o silêncio não incomodasse mais que todos os ruídos da vida a passar!- I learn a prayer to say for you
foto de Misha Gordin



Exercício literário ou O negrum dos dias


Encosto-me, recosto-me e volto a levantar-me. Chegam-me aos ouvidos o som dos camiões na nacional misturados com os meus suspiros cortados pela respiração urgente. Sinto-me a asfixiar. Preciso nem sei bem de quê. Estou no escuro, apesar do dia claro e do calor tórrido. Apesar de toda esta sombra onde estão as nossas cadeiras colocadas. Nossas. A minha e a tua. O tanque não me permite ver o portão dos Mochos. Mas sei que está lá. E se eu fosse bater ao portão? Mas...e se incomodo? Não, volto a sentar-me e trilho uma erva entre as mãos. E olho-as, como se não fossem minhas. Como quem olha pela primeira vez pra si mesmo. Sinto-me estranhamente vazio. Como se esta erva que tenho entre mãos fosse mais viva, mais eu do que eu . Desde que partiste que não me sinto. Não durmo, e só como alguma coisa obrigado. Cansam-se de me pedir, de me mendigar que exista, que coma, que durma e que descanse. Não quero nada disso e nem sei bem o que quero. Que descansar tenho tempo quando partir, como tu. Tu, que ainda ontem eras minha, que eras tudo o que tinha pra amar. O Quim esteve aqui no fim de semana, a Nela tb, aliás, todos têem estado aqui mas não os vejo. Quero sorrir-lhes mas só me saem suspiros da boca e ais de uma existência absolutamente vazia. Os nossos filhos não entendem, fechados que estão nas suas dores, vão tendo os seus próprios filhos pra cuidar, uma vida de companheirismo e família, o outro/a e não podem entender que tu me guiavas as horas. Que sentido existe neste inferno sem a tua presença? Os pássaros continuam a cantar mas já me irrita a sua alegria. Deveria ser obrigatório fechar o coração aos dias que se seguem da tua ausência, Maria. Fazes-me tanta falta! Que me importa que a Bina continue a limpar o que está limpo? Não te preocupes, não nos pegamos mais. Porque morri quando te vi descer à terra, porque é lá que ainda estou e ninguém me entende e nem eu quero que me entendam. Esse é um esforço a que não obrigo ninguém. Avisaste-me tantas vezes: Quando eu for, terás que tomar conta das pencas, dos haveres e do tempo que te restará com saúde. Quando eu for, tenta chorar ou ficarás pior. A vida são os outros que ficam. E eu, que não sabia o que havia de fazer com as tuas dores, chamava-te tola e pedia que não dissesses disparates.Mas eu neguei sempre a possibilidade. de me morreres Não percebo como nessas palavras de condenada, podias continuar a resistir a tantas coisas que as dores e a família te trouxeram. Maria, não me sinto mais que uma extensão tua, um apêndice que se esqueceu de mirrar em simultâneo contigo. Não foi surpresa a tua morte. Mas o meu entendimento dela. Não posso aceitar que não vá ver-te sorrir só pra mim outra vez. Que não me vás dar ralhetes na hora certa! Não sei viver depois de ti. Não sei morrer sozinho. A erva jaz morta entre as minhas mãos que apalpam o que resta dela. Os nós dos dedos estão brancos e as minhas mãos inertes e cheias de calos dos anos de campo não mostram a alegria que viveram ao lado das tuas. A imensa alegria. Cantavas pra mim e eu tocava como se fossemos os unicos seres na terra. Estão guardados os cavaquinhos, as violas e todos os teus trajes e nem me atrevo a pedir a ninguém (nem a mim, vê lá tu) pra ouvir a tua voz. Não saberia ouvir-te. Desmontava-me em peças nos soluços que a tua partida me provocou. Que terrível é amar? Que terrível é perder o amor? Maria, leva-me contigo. Maria, vem buscar-me. Maria, Tu sabes que não faço falta, que me fazes falta e que perdi a identidade quando te foste. Considera este pedido.
foto retirada da web

Thursday, November 20, 2008



Parafusos a mais



Diz o povo que, nem sempre é sábio, que lhe falta um parafuso no juízinho. Eu digo que ela tem a mais um, que quando Deus concebeu esta filha, se esqueceu dele para a cabeça de outros que não sentem a brisa de fim de tarde varrer as folhas do outono e nem admitem que a vida é esta passagem breve de momentos que vingam alguma coisa em nós.
Eduarda, nome fictício conta uma história bonita de inicio de vida. A mãe morreu-lhe cedo, tão cedo que nem aprendera sequer a palavra mãe e o pai é um desses homens rudes do campo, que andam de sachola ao ombro e amealham as noticas dobradas, debaixo do colchão, desconfiados que são dos bancos. E sempre que conta esta história fá-lo com a emoção de a reviver e de a contar pela primeiríssima vez. Havia um gato, malhado, desses iguais em todo o lado, que miava e se abelezava nos reflexos das janelas ou nos varandins. Esse gato, Miúca, igual a tantos outros, só da Emília se enamorava e só nesse colo se permitia dormir e ronrronar. Emília, uma senhora boa, dos seus 72 anos feitos em favor da comunidade. Sem filhos e sem marido, acorria a todos e escusado será dizer, desde cães a pedintes, a todos dava guarida. Ou uma malga de sopa de feijão e tronchuda ou cinco milréis ou uma palavra de conforto. Era conhecida pela tia Emília da Buraca. Eduarda, porqu lhe achava graça, porque via a mãe naquela mulher pequena e franzina, encostava-se muita vez ao portão da tia, acabando por sentar-se. A boa senhora cuidava de todos e era acarinhada por todos. Miúca dormia aos pés da cama. Quando a manhã chegava, Emília empurrava as mantas e lá tacteava no chão as chinelas pra ir fazer o café e pôr o caldo a andar. Miúca esfregava-se nas suas pernas. E bebia a sua sombra todo o santo dia. Não, não era um gato igual aos outros, mais parecia um cão. As lmalhas dele é que eram iguais mas a alma desse gato, tinha-a a tia enfeitiçada. Eduarda chora quando se lembra da doença que lhe apareceu e a levou a entrevar na cama até morrer 3 meses depois. A vizinhança acorria, pra pôr o caldo a fazer, pra debulhar o milho, pra rezar o terço com ela depois da ceia. Os lençois eram mudados e a pobre da tia erguida com muito carinho da sua cama. Pra logo a seguir ser envolvida pelo cheiro fresco dos lençois mudados. Emília sabia estar perto a sua vez. E queria deixar tudo tratado. Ela que não tinha ninguém e que ninguém a tinha, que sabia assinar o seu nome e pouco mais, com um enxoval enorme. Mandou chamar o vigário e o Sr. Lopes, solicitador das suas amizades e lavrou que a casa seria para a sua filha não parida, Eduarda e o bocado da sua terra seria para fazer um belo jardim pras crianças, devendo o resto ser entregue a uma associação de cuidados a animais. Ainda rabiscou a sua assinatura e, arrancou-se lhe um suspiro a essa quietude, de quase 4 meses sem levantar. Mas não foi o último. Fez questão de dizer que queria ser enterrada no cemitério onde estavam os restos mortais dos seus pais e que queria ir dali de casa até ao cemitério a pé. Não queria carros.

- Mas tia, ainda é um pedaço a pé e talvez a tia não chegue lá acima, cansada que fica, diziam a brincar

Ela punha o sobrolho carrancudo e com cara de descrédito acrescentava: É só isso que eu peço meu rapaz. Só isso, que cansada ando eu ainda aqui e ainda su mulher pra fazer o monte sozinha e esperar que a morte chegue pra saltar! Só tenho pena do Miúca, que há-de ser dele? Eduarda, sei que tomas conta, mas onde vai ele a dormir, se não nas minhas mantas?

_ Minha tia, não se preocupe que o gato há-de ter acomodação.

Emília partiu em véspera de S. Martinho. O funral saiu de sua casa de carro até chegar à estrada nacional. Lá chegado, o carro que levava a tia roncou e estacou. Ninguém o conseguiu de lá tirar. Só de reboque. O Teixeira da Póvoa ainda lá levou outro carro que teve o mesmo destino. Roncou e estacou.

- Arre, emendou o Manel da carteira grossa, que continua teimosa a tia, mesmo depois de morta.

Pois, a tia foi a pé como o combinado e pela lei da força. No rosto da maioria da vizinhança as bagadas corriam grossas pelos olhos fora, a confundirem-se com o tempo de chuva que já caía havia uns bons 5 dias.

Eduarda ainda de avental da tia posto, limpa com a beirada uma lágrima teimosa e conta:

-O pior ainda foi depois do funeral. Procurei o Miúca, eu e o povo da Buraca e nada. Fomos encontrá.lo no forno. Morto. Garantiu o veterinário que estava morto há uns dias. Suícidio?

Foi uma dor que se lhe deu, ele e a tia eram almas confinadas, não viviam senão na sombra do outro. A Eduarda que o povo cuida de parafuso a menos doou a casa aos protectores dos animais. Em Coreixas, em Peroselo, em Ribafunda, em Moinho de Moinho até hoje não sabem que a doação foi feita pela Eduarda. A que tem um parafuso a mais.

Monday, November 17, 2008



Da Maria resta a solidão

O casaco pende-lhe aberto, o macho sobre o coccix. Roçado de um azul marinho em extinção. Chamam-lhe de Beco mas o seu nome próprio é Luís. O olhar cansado de quem já mondou demais e mandou outro tanto. Diz que tem um bom pé de meia, mas chora quando fala dela. Ela, a Maria que Deus quis chamar há pouco. E parece-lhe que é, já de muito tempo, esta dor esgaçada entre a garganta, apinhada de soluços contidos e, o coração abeirando a solidão. Por causa dela, esqueceu as punhetas de bacalhau, os jogos da malha e do dominó, os vizinhos, os filhos, os netos. Que mais podia querer da vida senão aquele sorriso que ela lhe usava dar desde que raiava o sol até que se escondia a lua, debruçada nas almofadas dos dois'? Dele, que ela já não precisa de altear a cabeça, de descanso tem ela uma vida de morte pela frente. Dizem que os mortos não falam, mas daqui do meu sítio, avisto-o e vejo-o gesticular e, da boca devem sair desesperos e ais e, quem sabe, cantigas que a Maria cantava. Já não lhe apetece o cavaquinho e nem o palco, que o negrume da ausência dela crivou. Não sabe escrever uma letra e nem contar dinheiro mas sabe que tem muito, mais do que queria. Ah, se lhe pudesse comprar a passagem de vinda dela ou da sua própria ida. O chapéu cai-lhe nos olhos, propositadamente, que lhe interessa ver as coisas do mundo se um mundo de coisas lhe foi roubado? Não sabe viver sem ela. Nem soube morrer com prontidão. E fica na espera, chutando calhaus e sorrindo um choro a que apetece dar colo. Colo é o que ele não quer. A piedade dos outros exaspera-o. E analfabeto sim, mas orgulhoso, até quando fala dela. Ela, a Maria que se finou.

Friday, November 14, 2008



Climatiquisses


Fazia-nos febris o tempo
trazia geada no inicio e final
e durante o dia, era verão afinal




o ar gélido e o fogo na combinação
mais do que perfeita, necessária.
uns toros pra aquecer a casa
castanhas assadas no braseiro
enquanto lá fora soprava o vento norte
dizem os que sabem que de s. martinho ao natal
é um pulinho.

Vai chover, sim, uma estação toda
um inverno inteiro
mas não hoje, que o vento ruge
e nuvens não há


vai chover sim, mas não aqui, só do outro
lado de lá
foto retirada da web

Thursday, November 13, 2008



Sobre a dor temporária

Eu queria dizer-te ao ouvido que me cansam os teus queixumes
que a vida são dois dias e não uma faca de dois gumes.
Eu queria dissipar a dor que sentes permanente, que levas
pro sono urgente e escuro. Mas sabes, essa dor é que te salva,
que te esconde e te cuida de outras dores que tem o mundo
Já percebi que devo manter-te a dor a par com os dias
Que das feridas que o mundo tem, essa não te matará.


A primavera colher-se à e, afinal, ter dezembro às costas ou na mão
não há-de ser tão definitivo, pois que de janeiro a março,
devolvida e intocada
surgirá a primavera, sempre como a conhecemos, renovada.
E tu saberás valorizar, melhor do que ninguém, essa estação.

Wednesday, November 05, 2008




Fiz de ti bussola e só por isso perdoa-me.


Eu fico por lá, escondida, debaixo da escrivaninha onde ninguém me sabe ou adivinha. Talvez tu mas finges que não me vês. Vejo-te, imagina, sentado ainda no cadeirão de mogno. Os teus pensamentos não eram (não são, que ainda hoje sinto o mesmo que então) reveladores e claros, como os desenhos rasgados à madeira desse teu cadeirão. E nem a linha severa a meio da testa que te deixava mais frágil, ou ausente. Ou ambos. Se eu alisasse esse teu frisar grave do tempo e o retirasse da testa , oferecias-me o mais lindo sorriso que se pode oferecer a uma filha que não adivinhava que te ia perder. E que, com a tua perda, iria perder em simultâneo, a preocupação desse teu olhar perdido ou as linhas de mogno desse teu cadeirão (que se foi embora depois de teres ido porque nos lembrava a doer a tua presença). Onde andará esse cadeirão com braços gravados de arte? No dia mais comprido da tua apatia eterna, recordo-me, com incrível nitidez, a tua mão fria, gelada a escorrer-me os cabelos molhados de chorar.

- Que injusto, gritava eu na boca silenciada pelos outros.

- Que injusto, repetiam os segundos.

Tudo permaceu quieto, pasmado, apaticamente parado. Tu inerte, na posição de morto, eu morta, sei agora, mas foi a ti que enterraram e essa injustiça de te roubarem a nós é que me matou. Ainda hoje, paizinho, ainda hoje e já lá vão 30 anos ou mais, continuo morta e por enterrar. Poderá ser isto, de morrer-se e permanecer a descoberto sem que os abutres nos devorem ao primeiro sinal nocturno de fim?
O teu perfil recortado de um candeeiro de pé frio e estanhado, onde um abajour de luz desmaiada projectava o teu nariz na parede lateral. Quatro molduras de veleiros a carvão misturavam-se aos movimentos de vivo que havia em ti.
No dia comprido da nossa morte, estavas inquieto mas devia ser uma espécie de prognóstico teu reservado à tua solidão buscada. Porque te exilaste de nós, lendo Tolstoi e praguejando isto e aquilo em jeito de riso. Pesava já na tua carcaça, mais do que a patologia limitadora de um coração secular e velho, a draga do fim. O punhal havia já feito danos muito tempo antes e mantiveste-te de pé, ainda assim. O que te impediu de o voltares a fazer? E viveste a correr, como Sammy, pra que não fosses confundido com um corpo que se arrasta entre a piedade de uns e o desespero de outros. E amar-te foi sempre tão mais fácil. Amar as tuas ideias irreverentes, o teu não-conformismo, que mantinha vivos os olhos de quem te procurava e aos quais gargalhavas pra que te não levassem a sério. Brincadeira de mau gosto essa de não quereres que te amassem, de manteres distância nos últimos tempos que antecederam o dia comprido. Eras tão amado que os céus se fecharam, se desconjunturaram, desejosos de te levarem e de abafarem a nossa dor. Os nossos sonhos, se os visses, despenhados como folhas de papel amarrotadas, tornados pesadelos à lei da força.
Pai, estavas branco, de cera, de cal, sem gota de sangue e nem o Tolstoi a contar-te histórias te manteve acordado. E a morte, essa coisa negra e derradeira, sem competência nenhuma a não ser essa de arrancar os vivos aos mortos, não te soube alisar o vinco da testa, como eu fazia. E no dia d, o da tua partida, tentei fazê-lo uma vez mais, quando me permitiram a aproximação à caixa que te conduziu ao negrume sem húmus da terra. O espaço que medeou o estares deitado dentro dessa caixa (ainda hoje a vejo sem cor, sem consistência e sem materialidade, defesa minha, já sei) termos conversado, tu e eu e, a mãe irromper numa gritaria de desamparo (precisavas de estar ao lado dela pra a confortares mas vivo). Nessa hora, eu acorajei-me de amor e afaguei a tua testa gelada de morta e pareceu-me ver-te sorrir. Mas que sabia eu dessas coisas de morte e de fim que se escondem entre a vida e o continuar dela? Pra mim, tu sabes disso, partias em mais uma das tuas viagens a Lisboa, não ias no alfa, porque precisavas ir deitado. Entendo agora o grito da mãe, perante a despedida do corpo, tu ias sem volta, ela sabia-o, eu não. Para nunca mais. E "nunca mais" no vocabulário de uma criança feliz até à data, era sempre substituída por "para sempre". O máximo que tiveste de mim nesse adeus, foi um até logo, até mais ver. E o resto das lágrimas que me corriam como rios quentes imparáveis era porque imaginava que te iam manter adormecido nesse espaço da caixa exígua e obsoleta e iam enviar-te numa viagem que não ias poder apreciar. E tu gostavas tanto de ver pessoas e coisas misturarem-se em vida com sons e cheiros. Saber-te entre tombos e vertigens encaixotado como encomenda sem destino ou com destino ao qual não tínhamos acesso (tal como todas as viagens que fizeste em nome do partido da oposição). Em nome da liberdade. Essa liberdade que nos deixou cativos, sem outra escolha. Só conheciamos a tua protecção e o teu amor.
Ainda hoje "vejo" o teu escritório, a tua escrivaninha com 6 gavetas de cada lado, encorpada e de mogno, trabalhada, num tampo onde o pó era sacudido amiúde pela Luzia, das cinzas que se espalhavam do teu ritz, do cinzeiro de estanho ou latão fino, de 3 bordos, os pisa-papéis com o nome do bisavô e do avô (que ainda tenho) da tua águia. O armário onde se apinhavam capas grossas, dossiers pesados, carregados de vidas que se penduravam nas tuas costas, aos teus pensamentos, desejando-te o melhor e encontrando em ti uma espécie de messias. Lembro-me das tossidelas do avô Rodrigo antes de sair com mais papéis e rebuçados de mentol, do tamborilar dos teus dedos quando achavas que o Sr. Bastos não ia saber resolver por ti essas vidas. Do teu casaco de bombazine cor de burro quando foge, do pullover verde musgo que trazias vestido no dia que me morreste. Da camisa creme, do maçote de papéis que carregavas no bolso das calças de fazenda vincadas. Do teu bigode curto e das tuas têmporas onde já se adivinhava o tempo. Esse tempo que não ia deixar que os teus cabelos ficassem cinza. Esperaste a chegada do fim do dia para partires, e foi entre conversas de fraldas e batatas que deixei a mãe e a Luzia na cozinha e te fui espreitar ao quarto. De lá de fora, entravam as luzes de candeeiros da rua e foram esses recortes de luz que me deixaram ver o livro entreaberto na barriga poisado e o teu braço pendendo pro infinito da cama, os teus olhos abertos e a tua testa vincada. Chamavas alguém que não veio ou foi impressão minha? Morreste e eu cá fiquei desenterrada. E a cada ano que passa, a cada década que sobrevivo penso que ficar vivo e preso aos momentos de dor pode ser a pior morte, a mais demorada e a mais lenta. Sei que estás aí, fazendo sempre o possível e o impossível pra que me recomponha. Outras vidas virão e noutras te encontrarei. Mas foi nesta que ficaste como bussola. E ando desorientada.