Monday, September 15, 2008





Admirável mundo novo


Desprende-se o orvalho, sereno e húmido
cheio de tempo pra ser.
Pauso as palavras,
o fumo, o zapping quotidiano.
Numa languidez que toma conta de mim
a que ainda não me habituei (mas que é minha)
deixo-me arrebatar, tranquila e cansada
assim como a vida, lágrimas do tempo.

É o romper da aurora na serra, os pássaros
cantando o bucólico, a orquestra de grilos
o recolher do gado, o murmúrio de vozes contidas
que falseiam os acordes com receio de desaquietar o vento,
o cheiro das pinhas queimadas no fogão rasteiro e velho
A Maria Zé correndo para a novena
e o Lúcio na habitual hora do regadio,
do restolho fim de tarde.


A copa das árvores namorando o céu.
O meu rosto encostado à janela e lá fora
cai essa escuridão a que os aldeões, e muito bem,
chamam de bréu.
O tempo é de pousio na terra.
Não abdico deste mundo novo, nem mesmo
em favor de Huxley.

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