Tuesday, September 23, 2008




Tempo de chover


Ainda ontem me repetias que o sol não se findaria este Agosto

E me adiantaste os pôres-do-sol do nosso dia-a-dia

E hoje, muito a contragosto, muito amargo o gosto,

despencas tempestades e mais agoiros, em fim de dia


Como posso eu acreditar

quando me fazes prenha de expectativas

irrealistas?

Partos interrompidos, prematuridades


Ainda ontem acreditavas poder conter a chuva

dos meus passados nos teus braços

e afinal, choves também tu,

mendigas a belbezu

que me cale os sonhos

que o futuro silencie. Que és inocente.


Não te parece deja vus o presente?

Um tempo recorrente?

Friday, September 19, 2008

Rústico

foto de George Cereca



Rústico


Construíste-me, no quintal,
um mocho de pedra junto à Oliveira,
onde posso sentar nos finais da tarde,
a esperar-te, a memorizar os verdes.

Vislumbrava sempre uma qualquer página em branco
a gatafunhar, enquanto me perdia entre a observação
do formigueiro junto aos esteios
e as preambulações da Maria Zé e do Lúcio.

Em frente, a serra.
Perdemo-nos facilmente entre passado e futuro,
nas sombras de um chão frio, que acolhe os pés
a salvo do verão quente, no interior, lajes e loiças.


No murmúrio das águas, o poisar
dos alfaiates. No acalmar do cio.
A nascente transborda nas minhas mãos,
castanhas de barro.
E eu delicio os sentidos, bebericando os dedos
no fio límpido da fertilidade.

Na mesa, do outro lado
das sebes, alguém nos chama: - O café pronto.
Sento-me ao teu lado, malga na mão.
Nos cabelos a brisa de final de tarde
acaricia-me enquanto o céu se desdobra
em rosas e laranjas.

E falas-me da formação das nuvens,
da direcção dos ventos
porque fazes questão de ser
o meu homem da meteorologia.
Cheiro as uvas brancas.


Vamos estar em Setembro e terei
que calçar chinelos para atravessar a terra
quente e ressequida de sol.
E colher-te os primeiros bagos da padeira

Wednesday, September 17, 2008

foto de Alexandre Neves




É preciso Ser,

ou Ensaio lírico sobre o Presente


É preciso tomar as rédeas depois do descarrilamento
e fugir de quem promete tudo
de quem constroi poemas no vento
de quem se senta nos bancos
das casas e dos edifícios públicos aguardando vez pra gritar.
diluidores da paz, ameaçadores da liberdade
castradores dos outros, burocratas da democracia cansada
e de todos os sistemas viciados como as ditaduras, donos e senhores
da demagogia, da fraude, da pedofilia e das atrocidades mundiais


É preciso usar o cérebro pra pensar e contestar
é preciso acabar com o carneirismo e os conservadores de agoiros
é preciso acabar com o comodismo dos plasmas e das novelas
e destituir as chefias acomodadas ao poder
é preciso, como diz Manuel Alegre, dizer não mas frisá-lo
e terminar com os vicios dos sistemas
usar actos e não estratagemas
fazer uso da lucidez e da razão
extinguir do corporativismo os emblemas
contaminar os galardões de humildade
é preciso chamar ao banco dos réus
os carrascos do nosso silêncio consentido
os açambarcadores da nossa alma, os prozac's
violentadores do pensamento, os responsáveis
pela transfiguração da realidade,
dominadores da fraqueza dos outros
dos outros que somos nós,
placebos da nossa desgraça


é preciso sair pra rua e urgir a verdade
e arrancar ao dia o laissez faire a que nos habituamos
é preciso estancar o sangue de uma vaidade ferida
de uma identidade desrumada ao abismo, à loucura e ao nada.
Era preciso acontecer, sermos muitos ou sermos mais
mas era preciso, antes de mais, haver nós conscientes

Monday, September 15, 2008





Admirável mundo novo


Desprende-se o orvalho, sereno e húmido
cheio de tempo pra ser.
Pauso as palavras,
o fumo, o zapping quotidiano.
Numa languidez que toma conta de mim
a que ainda não me habituei (mas que é minha)
deixo-me arrebatar, tranquila e cansada
assim como a vida, lágrimas do tempo.

É o romper da aurora na serra, os pássaros
cantando o bucólico, a orquestra de grilos
o recolher do gado, o murmúrio de vozes contidas
que falseiam os acordes com receio de desaquietar o vento,
o cheiro das pinhas queimadas no fogão rasteiro e velho
A Maria Zé correndo para a novena
e o Lúcio na habitual hora do regadio,
do restolho fim de tarde.


A copa das árvores namorando o céu.
O meu rosto encostado à janela e lá fora
cai essa escuridão a que os aldeões, e muito bem,
chamam de bréu.
O tempo é de pousio na terra.
Não abdico deste mundo novo, nem mesmo
em favor de Huxley.

Wednesday, September 10, 2008





















Janela



Escavacada pelo tempo quanto baste,
uma janela guardou os movimentos internos da casa,
o útero ramificou-se de podre nos musgos
que tomam conta até dos tectos.


Vultos, imaginamos vultos,
escondidos nos umbrais
Fantasmas que nem o fluir dos dias mata.
Os que viram a sua ascensão admiram a sua queda.


E perdem-se nas horas vazias,
olhando, inventando momentos e adivinhando
razões que o tempo criou para a decadência.

Sunday, September 07, 2008

As ideias







As ideias


Não tinha vocação para urgências
o lufa-lufa de indagações e suspiros
que separava a vida da morte,
a dor da expectativa maior.

Pelo contrário, os partos, novas identidades
o sufrágio universal, sim, cresciam, sem vísceras,
o reflexo do que conhecia como humanidade.
isso era o que o sangue tinha de melhor:- as ideias

foto do Sitio dos Mochos