Tuesday, December 30, 2008

Um pouco de iluminismo não pode fazer mal!

A meditação em locais retirados, o estudo da natureza e a contemplação do universo forçam um solitário a procurar a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente.

Jean Jacques Rousseau

Aos solitários e não-solitários votos de muitas e boas reflexões pondo em causa não só o que cada um sente mas o que os outros gostariam de sentir. Vi a citação na página do Roberto e achei que valia bem o que eu acho que nos falta a todos. Feliz ano novo e que este seja um ano digno de ser registado pelos homens de bem!

Monday, December 29, 2008



Perigar o afecto


Ele dizia, não sei se sentido, não sei se-ao-calhas, não sei se conversa de sala, ou num ir-que-me-embalas, que eu despertava o melhor que nele havia, que me absorvendo se vomitava uma pessoa melhor. E a confirmação dos que o rodeavam fazia engrandecer essa constatação, engordando-a.
Pois, devo dizer-lhe que num tempo anterior a si e na procura incessante que todos fazemos pelo equilibrio e pela essência do eu que somos, também sua certamente, eu já me sabia feliz, já sabia fazer feliz, que os outros despertavam sempre, num pontilhado de dias desiguais na frequência e, na intensidade mas sempre presente, a alegria de me gostar e de gostar dos outros em mim.
E esta vida em comum é esta agonia constante, esta castração e cedência, esta mágoa presente e, esta mulher do avesso foi resultado do nós, deste conjunto desnecessário e infeliz para ambos.
Devo dizer-lhe que o comodismo, muito antes de José Régio, quando de mim se abeirou, fugiu. Sou uma inconformada feliz. Porque todas as decisões que tomo são pesadas pelo coração.
Quero subir ao céu e não ao inferno dos outros. E é aí, devo garantir-lhe, é mesmo aí que me encontra ainda, junto a esse nós perfeitamente impossível. Faça alguma coisa, se ainda me quer encontrar nos croquis alinhavados a dois do nosso passado recente. Coz i'm sick of this!

Sunday, December 28, 2008

Indo eu indo eu

a caminho do Mercador de Veneza. Tem Jeremy Irons, tem Al Pacino. Logo, tem grandes chances de eu gostar. Andei aqui a espreitar a página de alguns, onde ouvi Amália (chorarei meu triste fado), entre outros, choquei rés-vés com Mário Quintana e um Mar oceano bem gelado. Fui ao Myspace, ao Spokeo, ao coiso e também á coisa. As imensas possibilidades de leitura quase nos atropelam os olhinhos. Também vi daqui os ccv's (não vi a Cris, nem a Lúcia), vi o Roger, o headshot, claro, o Peres, o embaixador João e o seu busto, o Fagundes que vai arrasando até os que da lei da morte se vão desprendendo; o Roberto a tomar café com o Obama e a prometerem grandes cenas lá para o dia 20 de Janeiro! Andei no hot e no gmail e abri algum do correio. Gostei do video artistico da "Ronaldinha" e de um ppf que me foi enviado dos brasis pela Beatriz. O inicio das enxaquecas....foi culpa de Deus, garanto-vos!Deixo-vos com ele e vou, entonces, ao youtube e depois ao Mercador que não gosta muito de atrasos... :)))))

foto de Lúcia Inês

Thursday, December 25, 2008

O natal dos ditadores

Em tempo de consumos, não nos chegam as poupanças pra fazer um agrado a todos, mas, principalmente aos nossos filhos que, pensando que temos fábrica de fazer notas de 100 euros, nos consomem o juízo e o pastel. Querem tudo, tudo, de preferência, o mundo já desembrulhado e com todas as suas ambições prontas a consumir. É de lembrar (ou não esquecer) que já fomos daquele tamanho e que as nossas ambições passavam mais longe dos euros e das máquinas e mais perto das viagens, do conhecimento, do descobrir os sonhos possíveis. Quanto mais perto regarmos as ambições milhentas deles, mais ditadores se tornam. A lembrar (não esquecer) que um dia crescerão e sedentos como os trazemos, nem este mundo chegará pra lhes matar a sede e, depois não estaremos cá pra nos culparmos dos erros cometidos pelo excesso e pelo amor de bem fazermos. Ás vezes o bem pode ser uma faca de dois gumes. Melhor ir devagar na satisfação deles. Melhor exigir umas bekas antes. Se não leram o livro de Javier Urra, deviam. O pequeno ditador mostra o rei em miniatura criado em casa de gente boa e é sempre pelo coração que nos tomam a carteira. Vai daí que excessos e caldos de galinha devem ser moderados. Acho que já disse isto, mas é que todos os anos, todos os dias, parecemos esquecer que o amor acarreta outras coisas como disciplina, tolerância e tentativa de nos colocarmos no lugar do outro e, por vezes nos esquecemos ou não temos tempo pra reflectir. Urge olhar em volta e perceber o que está mal e, com pulso, mudar, antes que seja tarde demais. É chã? Da hora de almoço. Abraços multiplianos

Wednesday, December 24, 2008




Do desejo

Trememos e não foi de frio
gritamos e não foi de dor
os teus dedos eram armas
com que se fez o amor
e o meu corpo o rio
onde passeavas o suor


depois disso foi natal
no calendário dos outros
no lá de casa a paragem breve
num tempo
que só existe pra nós.

Thursday, December 18, 2008

Ao pai natal lá de casa

Atrasada, em cima da hora do teu tempo de antena de leres pedidos...

Pois é Pai Natal, sabes que me porto muito bem e sempre atendo a que na tua mesa, cama e meandros da vida de mãe natal, nada te falte. Ponho as tuas barbas de molho, arejo-te a cabeça quando te tiro o barrete e o visto eu, lavo-te a farda e sabes que detesto o encarnado, quando vens cansado, recomendo-te o descanso e as canjas de galinha velha, etc etc e tal. Este ano resolveste terminar o ano mais cedo e, sem me consultares até me deste presentes que não queria, não precisava e que me souberam bem, sabes o apreço que te tenho, também sabes que não faltam por aí muitas mães-natal pra me substituir (3 de 20) mas há algo que eu quero que não cabe neste ano e que terás que ceder. Trata-se de uma nova viagem literária, mais precisamente ao amor através da poesia. Tenho um amigo lá prós lados das Lisbias, Carcavelos, o Peres Feio de quem já ouviste falar muito, que vai apresentar o seu livro de poesia e que não posso dispensar. Agradecia que, em conjunto, nós parte da equipa, sem trenó e sem renas - renas não permitidas no recinto - possamos nos deslocar lá e adquirir uma voltinha de baloiço. Eu que nunca te peço mais que calma, paciência e ovos moles, venho desta forma, atrasada e pública -ai, que te dá uma coisa - pedir e agradecer pedido satisfeito, sob risco de ter de arranjar novo namorado, se não me satisfizeres. Sei que vais marcar na tua agenda o 14 de Fevereiro :).

Agora, vou-me por na alheta, sabes bem das minhas mondas. Ps. I love you qb.


Palco de Moliére

No princípio era a palavra
que entrava sem licença
e a voz coloquial castrava
todo o sentimento e crença,
e do rosto, dos outros
entoando aborrecimento,
um bocejo, um praguejar
vociferar em silêncio,
como se o grito fosse algo de
desprezível e gemer proibido.


Depois cheguei eu,
a palavra era mais acto
o sorrir era espontâneo
deixando de ser obrigação,
artefacto.

Tu sorrias de volta,
a voz ganhava tesão
e dos outros rostos
que não o teu, a expressão
foi ganhando interesse
despertando, e, o céu
era azul e impossível.


Alguém me chamou teatro,
e até expressão dramática
mas continuo a ser oral,
continuo a ser voz afinal
dos que sonham mais alto.

Monday, December 15, 2008




Avessos


A combinação não era lá essas coisas. Nunca fui forte a combinar coisas. E pessoas não se combinam. Sentam-se juntas.
Sentámo-nos. Sem assunto. Não inventamos. Não havia o que inventar. Nem o frio que corria a esplanada, nem o empregado a trazer o café, nem o cigarro que teimava em queimar, levando o fumo a lamber-te a cara, nem o meu sorriso satisfeito e nem o teu olhar amedrontado. O assunto era o desassunto. Nem por isso foste embora, nem por isso fiquei. E depois e depois, os teus olhos, e depois o mar que se espelhava neles,e depois a tua forma de fugires ao meu olhar e depois, tantos depois estamos por aqui, ambos sem medo, ambos - os dois.
Tu eras vinho e eu água de rio. Doce, dizias. E eras todos as crónicas que não li e eu uma frase solta que por mais que negasses, batia-te inconveniente.E depois, todos os "nãos" que te dei e todos os dias que te não quis, ficaste lá, aqui, em todo o lado, aguardando a presa. E depois? Estamos ambos presos no emaranhado de dias que perdemos a conta, num emaranhado de sentidos que me fazem perder a noção dos outros e até de mim. Não sou capaz de viver os depois sem ti. E esta cumplicidade torna-nos menos avessos a nós.

Sunday, December 14, 2008





Díade razão/afecto : corroborando outras teses.



Quem sabe, se em mim acender o desejo e arrancar á boca o beijo, possa reinventar outra forma de fazer o amor porque acho que perdi no cansaço das palavras e dos gestos toda e qualquer tesão. Não depreender desta confissão outra coisa qualquer outra palavra não dita, dis-cussão, sou a mesma mulher, o coração é que palpita mais devagar. Quem sabe o amor seja um hábito do qual nos desabituamos quando não há o jeito calmo de dizer palavrões de tropeçar carícias-azedume e de mascar pragas silenciosas quando voltas as costas. Quem sabe de culpas sejam os dois, de cansaços ambos. E a faísca não risca incêndios tal como nos foi acostumando.

Adio, então a razão, a com-preensão, essa velha necessidade que tenho de entender os afectos e as mudanças, os corpos sãos e os estilhaços. E já não te vou colher, recolher, escolher belas poesias para o teu regaço, palma da mão, bebo-as directas quando a noite se redimir, em nome da nossa, da outra, outrora combustão.







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Wednesday, December 10, 2008




Que faço deste tempo arrastado
onde só os pássaros enfrentam o gelo
e até os peixes se arrepiam de rio?
Que faço com o vento na cara
se não é uma ave rara
e não vem pelo entardecer
ajudar a recolher
os animais no pasto?
Que faço com a tarde de frio
que amontoou cartas sem selo
dos meus quereres antigos?

Que faço de mim, que faço comigo,
daqui pra sala, da sala
para um livro qualquer
gasturas, suspiros, saudades caladas
e passam, entretanto, anos, vidas
mas nem sombra do teu ombro
Do que me recordo, dos cigarros,
da música, dos escritos
no teu abraço morno?

Que faço eu desta tarde,
que não posso fazer contigo?
que faço com esta data de calendário
que assinala aniversário antigo?
Que faço meu pai, hoje
quando a chuva ameaça
contágio e a desolação traz o teu
nome e sabe a nunca mais?
in Dores d'alma

Tuesday, December 09, 2008




Poesia pra gritar à esperança num dia sem escolha
O amor não é infindo como não é o Inverno...


chuva fria molha
face quente sem doer
neve queima cultura
mas não é dura
como martirizar ou moer


que dói mais
a palavra que sai seca
no calor da discussão
rasga muito o amor
quando gritado na posse
da suposta paixão

desamor abriga dias
do mofo nasce o bolor
cereais aguardam sol
ou morrem


não há qualquer amor na prisão
nem o amor por nós próprios

Sunday, December 07, 2008




A driblar palavras era rápido e se fossem amargas, a tarefa facilitava-se. E a mim fazia-me tanta confusão ver essa facilidade com que derrubava pessoas. Preferencialmente os que mais amava. Sílabas erectas, não havia gaguejos e nem hesitações. Dir-se ia que nascera provido de todas as más-criações. Ferir, achava ele, seria levantar um braço dos seus, de homem de 1,92m e empurrar um prato de sopa insosso. Ou esbofetear as costas de um amigo, como quem diz: olá bom dia, já por cá? Ou amandar-se contra um condutor que cometesse um erro contra ele ou contra outro, perto de si. O carro virava do avesso, impedindo a fuga do homem e depois era um ver-se-te-avias até a polícia chegar e convencê-lo que a violência não dava respostas ás injustiças do dia-a-dia.

Sensibilidade era palavra fora do seu ãmbito. Se lha dissesse, remataria: Acabemos o palavreado, afinal sou esperto mas estrangeiro ou paneleiro é coisa que não! E levantava-se, vencido, fugia ermos adiante ou portas afora. Investiguei sobre a vida dele. Mais do que familiar, era um homem de boa aparência, bons modos e melhor coração. Era assim que o lembrava na minha infância. Alguma coisa sucedera pra criar tanto azedume. E acontecera. Fora despedido da câmara de uma forma injusta e sem muito que pudesse fazer. Pai de dois filhos e de esposa doméstica, a família dependia do seu ordenado certo.

Como se isolava muito e era possante, todos receavam tocar no assunto proibido. Não fosse a Alice ser agredida verbalmente á conta disso. Nunca mais ninguém o viu num compromisso profissional. Fazia uns biscates, era bom de mãos e de ideias. Um excelente artesão, um artista. E não sabia obedecer. Nem mandar. A esposa começou a trabalhar aos dias, para aguentar as despesas, depois dos filhos casarem. Hoje ia fazer limpeza em casa da dona Fernanda, amanhã passar a ferro pra casa de uma vizinha. No dia seguinte, pra Lousada ajudar a costurar cortinas num atelier e assim levava a vida, ela. Ele com os seus biscates ganhava o suficiente pra si mesmo, prá gasolina que gastava, ora no tractor ora na carrinha, pra comprar uma nova máquina ou comprar mais um animal. Estimava os bichos. Dizia-se que tratava melhor os bichos que a família, depois desse incidente. Falar pouco falava, a não ser com estranhos se a situação o exigisse. Com a esposa em casa, grunhia qualquer coisa, mas pouco, o suficiente pra ela saber que era infeliz e assim continuaria. E tal criou o efeito bola de neve. Um dia ela chegou a casa e encontrou-o de bruços, deitado no corredor, ainda com o anorak vestido de ter vindo da rua. Dizia o sr. João que saira da beira dele bem disposto. Mas o sr. João não sabia que ele tinha vindo mais uma vez da câmara, de ter esperado solução para o problema dele. Não havia soluções e ele jurava que era complô contra ele por não ser do psd. Políticas à parte, o remédio de escaravelho tinha escorrido por entre as paredes da casa até chegar à cozinha. Alice sabia que aquele cheiro era estranho e horrível. E quase a impedia de falar, secando-lhe a garganta.

- Fernando, Fernando, gritara-lhe, mas o Fernando não estava lá, só o seu corpo bruto e dificil de arrastar. Alice gritou o que pôde que, a sogra que morava de frente chamasse os bombeiros. E essa tivera sido a primeira de muitas outras vezes. A última levara Fernando a ser internado no Hospital Magalhães Lemos. E a ser transferido para o hospital da área, na enfermaria de psiquiatria. Num tempo já recente, onde as pessoas aceitavam melhor que a psiquiatria era o mesmo que outras especialidades humanas e não um sítio onde se escondiam loucos que nunca mais eram recuperados. Pra Alice, as tentativas de morrer dele já eram o fado que sabia ser seu mas que nunca se habituara. Quando saía para o trabalho, achava que aquela seria a ultima vez que o via vivo ou normal, sem estar chumbado de medicação. O azedume dele viria dos meses deambulando pelos corredores dos hospitais onde outros como ele deambulavam? Não, o azedume tinha vindo da injustiça, do desemprego obrigado e injusto. De não saber como governar uma família que tivera sido sempre a sua responsabilidade. O facto era que Fernando sabia fazer de tudo, tinha habilidade para trabalhar com madeiras e até fazer esculturas e pintar. Também sabia tocar instrumentos musicais, reparar automóveis, fossem quais fossem as avarias, lavrar o campo, construir casas e fazer de conta que a vida não era dificil. Mas acarinhar, fazer um mimo ou falar com doçura eram coisas de uma dificuldade tal que preferia morrer. As pessoas não entendiam, pois educação não lhe faltava, era culto o suficiente, lia o jornal com frequência e via todos os dias os noticiários, os debates, os programas culturais. O amor era-lhe a tarefa árdua e impossível. Porque provinha da confiança e isso ele perdera muito tempo atrás, confiança na humanidade. Anteontem, arranquei-lhe meia dúzia de palavras menos agressivas, mais doces e uma lágrima. Depois fugiu, escondido entre os seus medos de lhe ler a alma e a raiva de não saber enfrentar o amor e retribuir.

Wednesday, December 03, 2008




Tocar-te me.

dedos devorando pressa e tempo
urgência desejo, arfar, corrida
negação da paz esta guerra
fúria que exige ser combatida.

fechar os olhos
ter-te onde o desejo queima mais perto
fonte generosa, drink indigesto
testa em brasa, beber-te
toco o orgasmo e esgoto o cio
apalpo o meu seio, ardente de frio

invento beijos, flagelo hemisférios
provoco-me, então, o doce arrepio
vibramos os dois, em camas diferentes,
no vazio do nosso leito
combato alguns dos teus medos,
ainda sinto o teu coração correr
qual cavalo, no meu peito entre o lençol de algodão
e agora já calmos, os teus nos meus dedos.
Masturbação.

Saturday, November 29, 2008


esgrimar o frio
neva
lá fora
gelo cá dentro
incendeias
o momento



Friday, November 28, 2008




Mãe


entre as estações e as datas, os silêncios e as pausas
hás-de cumprir penas que te serão vitalícias
entre perder e ganhar que isto de viver é mais
do que nascer num apgar qualquer,

Uma palmada no rabo, gritas e dentro
desse apgar qualquer,
sentes o bisturi cortar o cordão
a que ficarás ligado pra sempre
no coração da mulher que é (tua) mãe.

Wednesday, November 26, 2008




Antecipação de ausência


Without green hopes we're just public spectateurs.

Não sei se algum de vocês sabe quem é Haruki Murakami ou, se leu o seu Crónica do Pássaro de Corda. Ando a lê-lo, quando estou em casa, graças ao esquecimento do mano, e divido esta leitura com a pedagogia centrada na Pessoa de António Ferra (sobre Carl Rogers) e com A Mancha Humana de Philip Roth. E com a Poda Fácil onde se aprende jardinagem. Diz que é para pessoas simples e para bons resultados. Não sei. Ainda não experimentei. Ando muito parada no que diz respeito a fazer coisas. Fazer. Acto de mexer mãos e pés, empreender iniciativas. A do pensamento é, porventura, a maior. Que quando vou pra cama pra dormir, não sou capaz de desligar as sinapses. Mesmo depois de tomar unisedil. E adalgur. E as dores são mais do que do corpo, da alma. Nunca encontrei ninguém perfeito e nem nada que me deslumbrasse realmente a não ser a espontaneidade das pessoas, o rir fácil das crianças, a quietude da natureza, o deslizar de um animal sem raça entre ervas daninhas, a conversa sem formalidades, a fidelidade e boa vontade dos cães, a net e o seu uso. Na verdade, na minha verdade momentânea, o céu carrega-se facilmente de nuvens e os meus olhos de chuva. A vida traz novos pensamentos e ideias a cruzarem-se com navios e portos, com pessoas e cadáveres. Com destinos e histórias que se gastaram na minha evocação. Os anos não terminam quando lhes mudamos o último algarismo. As dores não se vão quando recorremos ao doutor. Por mais competência que tenha ele. Ainda não lacrei a caixa que irá rumo a Petrópolis com meias quentes e mais uma catrafada de coisas ccvianas que gostava que lá chegassem. A Dona Maria, a do Lúcio, está em agonia. Também o Luís de Beco. E os muitos filhos. As dores não se removem pela boa vontade dos homens, pela ida à farmácia e os doutores dizem que é uma questão de tempo. O tempo da negra mancha que virá, não sabemos quando nem como e nem porquê, escolher o nosso corpo para dar a machadada final. Queremos agarrarmo-nos à ideia milenar que do outro lado um anjo nos espera ou que, por outro lado, tal mancha só surgirá quando tiver manchado todos os outros, porque a nós nos foi dado o olhar imortal sobre a mortalidade dos outros. E o cansaço das agonias e o receio do desconhecido preenchem os segundos, enquanto o olhar dos outros prescruta o nosso e encontra o vazio. Nele não se pode ver medo, nem sombra, nem nada. Porque a bem dizer, estamos tranquilos, nesta aparente tranquilidade da aceitação. Aceitamos porque não conhecemos outra forma de vivenciar esse grande finale. -Que lhe apetece hoje? Uma canjinha com galinha velha? Ou uma maçã assada?. Beba, beba esse iogurte, tem vitaminas. Dizem que pode prolongar a vida, é da Longa vida. Ou Agros, que diferença faz? Ajeitam-se as almofadas pela quinquijésima vez. Que havemos de fazer com a nossa impotência? Temos de lhe dar utilidade. As mãos caem inertes e os suspiros saem amargos e compridos. Os contrasensos crescem neste período. Em que não lhe apetece ver ninguém. Nem estar consigo. O adormecimento letal virá sem hora marcada e se, ás vezes o deseja, outras tem em que o deseja aos outros. Porquê eu? soa sempre como uma praga despregada, sem rosto ou intenção. Moi-lhe o juízo, que tem de comer, que saco roto não fica de pé. De ver limpar o que está limpo. E ela nem forças tem pra lhe gritar: deixa que o pó se acumule. Deixa isso. Olha pra mim, porque te restará poucochinho a avaliar pelo que sinto nas minhas entranhas. Nem me quiseram para quimioterapia. Nem para estudo. Vê quem cantou e dançou tanto nesta vida. E dizes que sou bonita e dás-me a tua mão, porque a juventude ainda te assiste. Porque não sabes o que é ver sumir a esperança de participar da vida. Que te corre nas veias. Que te incha as mãos no verão. Tenho medo de partir. Estou a gritar-te este medo mas nem dás conta. Porque nos meus lábios vês o mesmo sorriso amarelo, esbatido e tão gasto como esse pano que carregas pra todo o lado. Apetece-me dizer-te que gosto de ti. Que vou estar aqui sempre mesmo quando a outra me vier buscar e for ensaiado o registo fúnebre. Em que te despedirás de mim. E os outros, todos os outros, que me habituei a amar. Todos os outros que viveram comigo ou sem mim. Todos os dias me deito nesta mesma posição, com o sol alto lá fora, ou a chuva certa a bater contra a vidraça. Todos os dias enquanto vos vejo a cozinhar, todos os malditos dias em que me doi tudo, eu me despeço de vós. E até dos pássaros e das plantas, que lhes sinto a falta. Se me perguntares se ainda acredito em Deus, dir-te ei que preciso dele para continuar à espera. Porque a vontade que tenho é de berrar com ele. Mas aceito que Deus exista sem tempo pra todos os fiéis. E que a fila onde me encontro vai parecendo que nem se mexe. Ainda bem. Porque de um momento para o outro serei eu e, assim sem dar muito conta disso, vai, por certo doer menos. Não é medo da morte. É o desconhecido que chega e não traz um sorriso nos lábios de boas vindas e nem nos pergunta o que achamos, se estamos preparados ou deixamos algo inacabado. E nos rouba à existência que era nossa e também dos outros. E nos leva sem volta. Dizem que a ver a luz. Entretanto, já andam à roda do fogão, quase que em pézinhos de lã, como se o silêncio não incomodasse mais que todos os ruídos da vida a passar!- I learn a prayer to say for you
foto de Misha Gordin



Exercício literário ou O negrum dos dias


Encosto-me, recosto-me e volto a levantar-me. Chegam-me aos ouvidos o som dos camiões na nacional misturados com os meus suspiros cortados pela respiração urgente. Sinto-me a asfixiar. Preciso nem sei bem de quê. Estou no escuro, apesar do dia claro e do calor tórrido. Apesar de toda esta sombra onde estão as nossas cadeiras colocadas. Nossas. A minha e a tua. O tanque não me permite ver o portão dos Mochos. Mas sei que está lá. E se eu fosse bater ao portão? Mas...e se incomodo? Não, volto a sentar-me e trilho uma erva entre as mãos. E olho-as, como se não fossem minhas. Como quem olha pela primeira vez pra si mesmo. Sinto-me estranhamente vazio. Como se esta erva que tenho entre mãos fosse mais viva, mais eu do que eu . Desde que partiste que não me sinto. Não durmo, e só como alguma coisa obrigado. Cansam-se de me pedir, de me mendigar que exista, que coma, que durma e que descanse. Não quero nada disso e nem sei bem o que quero. Que descansar tenho tempo quando partir, como tu. Tu, que ainda ontem eras minha, que eras tudo o que tinha pra amar. O Quim esteve aqui no fim de semana, a Nela tb, aliás, todos têem estado aqui mas não os vejo. Quero sorrir-lhes mas só me saem suspiros da boca e ais de uma existência absolutamente vazia. Os nossos filhos não entendem, fechados que estão nas suas dores, vão tendo os seus próprios filhos pra cuidar, uma vida de companheirismo e família, o outro/a e não podem entender que tu me guiavas as horas. Que sentido existe neste inferno sem a tua presença? Os pássaros continuam a cantar mas já me irrita a sua alegria. Deveria ser obrigatório fechar o coração aos dias que se seguem da tua ausência, Maria. Fazes-me tanta falta! Que me importa que a Bina continue a limpar o que está limpo? Não te preocupes, não nos pegamos mais. Porque morri quando te vi descer à terra, porque é lá que ainda estou e ninguém me entende e nem eu quero que me entendam. Esse é um esforço a que não obrigo ninguém. Avisaste-me tantas vezes: Quando eu for, terás que tomar conta das pencas, dos haveres e do tempo que te restará com saúde. Quando eu for, tenta chorar ou ficarás pior. A vida são os outros que ficam. E eu, que não sabia o que havia de fazer com as tuas dores, chamava-te tola e pedia que não dissesses disparates.Mas eu neguei sempre a possibilidade. de me morreres Não percebo como nessas palavras de condenada, podias continuar a resistir a tantas coisas que as dores e a família te trouxeram. Maria, não me sinto mais que uma extensão tua, um apêndice que se esqueceu de mirrar em simultâneo contigo. Não foi surpresa a tua morte. Mas o meu entendimento dela. Não posso aceitar que não vá ver-te sorrir só pra mim outra vez. Que não me vás dar ralhetes na hora certa! Não sei viver depois de ti. Não sei morrer sozinho. A erva jaz morta entre as minhas mãos que apalpam o que resta dela. Os nós dos dedos estão brancos e as minhas mãos inertes e cheias de calos dos anos de campo não mostram a alegria que viveram ao lado das tuas. A imensa alegria. Cantavas pra mim e eu tocava como se fossemos os unicos seres na terra. Estão guardados os cavaquinhos, as violas e todos os teus trajes e nem me atrevo a pedir a ninguém (nem a mim, vê lá tu) pra ouvir a tua voz. Não saberia ouvir-te. Desmontava-me em peças nos soluços que a tua partida me provocou. Que terrível é amar? Que terrível é perder o amor? Maria, leva-me contigo. Maria, vem buscar-me. Maria, Tu sabes que não faço falta, que me fazes falta e que perdi a identidade quando te foste. Considera este pedido.
foto retirada da web

Thursday, November 20, 2008



Parafusos a mais



Diz o povo que, nem sempre é sábio, que lhe falta um parafuso no juízinho. Eu digo que ela tem a mais um, que quando Deus concebeu esta filha, se esqueceu dele para a cabeça de outros que não sentem a brisa de fim de tarde varrer as folhas do outono e nem admitem que a vida é esta passagem breve de momentos que vingam alguma coisa em nós.
Eduarda, nome fictício conta uma história bonita de inicio de vida. A mãe morreu-lhe cedo, tão cedo que nem aprendera sequer a palavra mãe e o pai é um desses homens rudes do campo, que andam de sachola ao ombro e amealham as noticas dobradas, debaixo do colchão, desconfiados que são dos bancos. E sempre que conta esta história fá-lo com a emoção de a reviver e de a contar pela primeiríssima vez. Havia um gato, malhado, desses iguais em todo o lado, que miava e se abelezava nos reflexos das janelas ou nos varandins. Esse gato, Miúca, igual a tantos outros, só da Emília se enamorava e só nesse colo se permitia dormir e ronrronar. Emília, uma senhora boa, dos seus 72 anos feitos em favor da comunidade. Sem filhos e sem marido, acorria a todos e escusado será dizer, desde cães a pedintes, a todos dava guarida. Ou uma malga de sopa de feijão e tronchuda ou cinco milréis ou uma palavra de conforto. Era conhecida pela tia Emília da Buraca. Eduarda, porqu lhe achava graça, porque via a mãe naquela mulher pequena e franzina, encostava-se muita vez ao portão da tia, acabando por sentar-se. A boa senhora cuidava de todos e era acarinhada por todos. Miúca dormia aos pés da cama. Quando a manhã chegava, Emília empurrava as mantas e lá tacteava no chão as chinelas pra ir fazer o café e pôr o caldo a andar. Miúca esfregava-se nas suas pernas. E bebia a sua sombra todo o santo dia. Não, não era um gato igual aos outros, mais parecia um cão. As lmalhas dele é que eram iguais mas a alma desse gato, tinha-a a tia enfeitiçada. Eduarda chora quando se lembra da doença que lhe apareceu e a levou a entrevar na cama até morrer 3 meses depois. A vizinhança acorria, pra pôr o caldo a fazer, pra debulhar o milho, pra rezar o terço com ela depois da ceia. Os lençois eram mudados e a pobre da tia erguida com muito carinho da sua cama. Pra logo a seguir ser envolvida pelo cheiro fresco dos lençois mudados. Emília sabia estar perto a sua vez. E queria deixar tudo tratado. Ela que não tinha ninguém e que ninguém a tinha, que sabia assinar o seu nome e pouco mais, com um enxoval enorme. Mandou chamar o vigário e o Sr. Lopes, solicitador das suas amizades e lavrou que a casa seria para a sua filha não parida, Eduarda e o bocado da sua terra seria para fazer um belo jardim pras crianças, devendo o resto ser entregue a uma associação de cuidados a animais. Ainda rabiscou a sua assinatura e, arrancou-se lhe um suspiro a essa quietude, de quase 4 meses sem levantar. Mas não foi o último. Fez questão de dizer que queria ser enterrada no cemitério onde estavam os restos mortais dos seus pais e que queria ir dali de casa até ao cemitério a pé. Não queria carros.

- Mas tia, ainda é um pedaço a pé e talvez a tia não chegue lá acima, cansada que fica, diziam a brincar

Ela punha o sobrolho carrancudo e com cara de descrédito acrescentava: É só isso que eu peço meu rapaz. Só isso, que cansada ando eu ainda aqui e ainda su mulher pra fazer o monte sozinha e esperar que a morte chegue pra saltar! Só tenho pena do Miúca, que há-de ser dele? Eduarda, sei que tomas conta, mas onde vai ele a dormir, se não nas minhas mantas?

_ Minha tia, não se preocupe que o gato há-de ter acomodação.

Emília partiu em véspera de S. Martinho. O funral saiu de sua casa de carro até chegar à estrada nacional. Lá chegado, o carro que levava a tia roncou e estacou. Ninguém o conseguiu de lá tirar. Só de reboque. O Teixeira da Póvoa ainda lá levou outro carro que teve o mesmo destino. Roncou e estacou.

- Arre, emendou o Manel da carteira grossa, que continua teimosa a tia, mesmo depois de morta.

Pois, a tia foi a pé como o combinado e pela lei da força. No rosto da maioria da vizinhança as bagadas corriam grossas pelos olhos fora, a confundirem-se com o tempo de chuva que já caía havia uns bons 5 dias.

Eduarda ainda de avental da tia posto, limpa com a beirada uma lágrima teimosa e conta:

-O pior ainda foi depois do funeral. Procurei o Miúca, eu e o povo da Buraca e nada. Fomos encontrá.lo no forno. Morto. Garantiu o veterinário que estava morto há uns dias. Suícidio?

Foi uma dor que se lhe deu, ele e a tia eram almas confinadas, não viviam senão na sombra do outro. A Eduarda que o povo cuida de parafuso a menos doou a casa aos protectores dos animais. Em Coreixas, em Peroselo, em Ribafunda, em Moinho de Moinho até hoje não sabem que a doação foi feita pela Eduarda. A que tem um parafuso a mais.

Monday, November 17, 2008



Da Maria resta a solidão

O casaco pende-lhe aberto, o macho sobre o coccix. Roçado de um azul marinho em extinção. Chamam-lhe de Beco mas o seu nome próprio é Luís. O olhar cansado de quem já mondou demais e mandou outro tanto. Diz que tem um bom pé de meia, mas chora quando fala dela. Ela, a Maria que Deus quis chamar há pouco. E parece-lhe que é, já de muito tempo, esta dor esgaçada entre a garganta, apinhada de soluços contidos e, o coração abeirando a solidão. Por causa dela, esqueceu as punhetas de bacalhau, os jogos da malha e do dominó, os vizinhos, os filhos, os netos. Que mais podia querer da vida senão aquele sorriso que ela lhe usava dar desde que raiava o sol até que se escondia a lua, debruçada nas almofadas dos dois'? Dele, que ela já não precisa de altear a cabeça, de descanso tem ela uma vida de morte pela frente. Dizem que os mortos não falam, mas daqui do meu sítio, avisto-o e vejo-o gesticular e, da boca devem sair desesperos e ais e, quem sabe, cantigas que a Maria cantava. Já não lhe apetece o cavaquinho e nem o palco, que o negrume da ausência dela crivou. Não sabe escrever uma letra e nem contar dinheiro mas sabe que tem muito, mais do que queria. Ah, se lhe pudesse comprar a passagem de vinda dela ou da sua própria ida. O chapéu cai-lhe nos olhos, propositadamente, que lhe interessa ver as coisas do mundo se um mundo de coisas lhe foi roubado? Não sabe viver sem ela. Nem soube morrer com prontidão. E fica na espera, chutando calhaus e sorrindo um choro a que apetece dar colo. Colo é o que ele não quer. A piedade dos outros exaspera-o. E analfabeto sim, mas orgulhoso, até quando fala dela. Ela, a Maria que se finou.

Friday, November 14, 2008



Climatiquisses


Fazia-nos febris o tempo
trazia geada no inicio e final
e durante o dia, era verão afinal




o ar gélido e o fogo na combinação
mais do que perfeita, necessária.
uns toros pra aquecer a casa
castanhas assadas no braseiro
enquanto lá fora soprava o vento norte
dizem os que sabem que de s. martinho ao natal
é um pulinho.

Vai chover, sim, uma estação toda
um inverno inteiro
mas não hoje, que o vento ruge
e nuvens não há


vai chover sim, mas não aqui, só do outro
lado de lá
foto retirada da web

Thursday, November 13, 2008



Sobre a dor temporária

Eu queria dizer-te ao ouvido que me cansam os teus queixumes
que a vida são dois dias e não uma faca de dois gumes.
Eu queria dissipar a dor que sentes permanente, que levas
pro sono urgente e escuro. Mas sabes, essa dor é que te salva,
que te esconde e te cuida de outras dores que tem o mundo
Já percebi que devo manter-te a dor a par com os dias
Que das feridas que o mundo tem, essa não te matará.


A primavera colher-se à e, afinal, ter dezembro às costas ou na mão
não há-de ser tão definitivo, pois que de janeiro a março,
devolvida e intocada
surgirá a primavera, sempre como a conhecemos, renovada.
E tu saberás valorizar, melhor do que ninguém, essa estação.

Wednesday, November 05, 2008




Fiz de ti bussola e só por isso perdoa-me.


Eu fico por lá, escondida, debaixo da escrivaninha onde ninguém me sabe ou adivinha. Talvez tu mas finges que não me vês. Vejo-te, imagina, sentado ainda no cadeirão de mogno. Os teus pensamentos não eram (não são, que ainda hoje sinto o mesmo que então) reveladores e claros, como os desenhos rasgados à madeira desse teu cadeirão. E nem a linha severa a meio da testa que te deixava mais frágil, ou ausente. Ou ambos. Se eu alisasse esse teu frisar grave do tempo e o retirasse da testa , oferecias-me o mais lindo sorriso que se pode oferecer a uma filha que não adivinhava que te ia perder. E que, com a tua perda, iria perder em simultâneo, a preocupação desse teu olhar perdido ou as linhas de mogno desse teu cadeirão (que se foi embora depois de teres ido porque nos lembrava a doer a tua presença). Onde andará esse cadeirão com braços gravados de arte? No dia mais comprido da tua apatia eterna, recordo-me, com incrível nitidez, a tua mão fria, gelada a escorrer-me os cabelos molhados de chorar.

- Que injusto, gritava eu na boca silenciada pelos outros.

- Que injusto, repetiam os segundos.

Tudo permaceu quieto, pasmado, apaticamente parado. Tu inerte, na posição de morto, eu morta, sei agora, mas foi a ti que enterraram e essa injustiça de te roubarem a nós é que me matou. Ainda hoje, paizinho, ainda hoje e já lá vão 30 anos ou mais, continuo morta e por enterrar. Poderá ser isto, de morrer-se e permanecer a descoberto sem que os abutres nos devorem ao primeiro sinal nocturno de fim?
O teu perfil recortado de um candeeiro de pé frio e estanhado, onde um abajour de luz desmaiada projectava o teu nariz na parede lateral. Quatro molduras de veleiros a carvão misturavam-se aos movimentos de vivo que havia em ti.
No dia comprido da nossa morte, estavas inquieto mas devia ser uma espécie de prognóstico teu reservado à tua solidão buscada. Porque te exilaste de nós, lendo Tolstoi e praguejando isto e aquilo em jeito de riso. Pesava já na tua carcaça, mais do que a patologia limitadora de um coração secular e velho, a draga do fim. O punhal havia já feito danos muito tempo antes e mantiveste-te de pé, ainda assim. O que te impediu de o voltares a fazer? E viveste a correr, como Sammy, pra que não fosses confundido com um corpo que se arrasta entre a piedade de uns e o desespero de outros. E amar-te foi sempre tão mais fácil. Amar as tuas ideias irreverentes, o teu não-conformismo, que mantinha vivos os olhos de quem te procurava e aos quais gargalhavas pra que te não levassem a sério. Brincadeira de mau gosto essa de não quereres que te amassem, de manteres distância nos últimos tempos que antecederam o dia comprido. Eras tão amado que os céus se fecharam, se desconjunturaram, desejosos de te levarem e de abafarem a nossa dor. Os nossos sonhos, se os visses, despenhados como folhas de papel amarrotadas, tornados pesadelos à lei da força.
Pai, estavas branco, de cera, de cal, sem gota de sangue e nem o Tolstoi a contar-te histórias te manteve acordado. E a morte, essa coisa negra e derradeira, sem competência nenhuma a não ser essa de arrancar os vivos aos mortos, não te soube alisar o vinco da testa, como eu fazia. E no dia d, o da tua partida, tentei fazê-lo uma vez mais, quando me permitiram a aproximação à caixa que te conduziu ao negrume sem húmus da terra. O espaço que medeou o estares deitado dentro dessa caixa (ainda hoje a vejo sem cor, sem consistência e sem materialidade, defesa minha, já sei) termos conversado, tu e eu e, a mãe irromper numa gritaria de desamparo (precisavas de estar ao lado dela pra a confortares mas vivo). Nessa hora, eu acorajei-me de amor e afaguei a tua testa gelada de morta e pareceu-me ver-te sorrir. Mas que sabia eu dessas coisas de morte e de fim que se escondem entre a vida e o continuar dela? Pra mim, tu sabes disso, partias em mais uma das tuas viagens a Lisboa, não ias no alfa, porque precisavas ir deitado. Entendo agora o grito da mãe, perante a despedida do corpo, tu ias sem volta, ela sabia-o, eu não. Para nunca mais. E "nunca mais" no vocabulário de uma criança feliz até à data, era sempre substituída por "para sempre". O máximo que tiveste de mim nesse adeus, foi um até logo, até mais ver. E o resto das lágrimas que me corriam como rios quentes imparáveis era porque imaginava que te iam manter adormecido nesse espaço da caixa exígua e obsoleta e iam enviar-te numa viagem que não ias poder apreciar. E tu gostavas tanto de ver pessoas e coisas misturarem-se em vida com sons e cheiros. Saber-te entre tombos e vertigens encaixotado como encomenda sem destino ou com destino ao qual não tínhamos acesso (tal como todas as viagens que fizeste em nome do partido da oposição). Em nome da liberdade. Essa liberdade que nos deixou cativos, sem outra escolha. Só conheciamos a tua protecção e o teu amor.
Ainda hoje "vejo" o teu escritório, a tua escrivaninha com 6 gavetas de cada lado, encorpada e de mogno, trabalhada, num tampo onde o pó era sacudido amiúde pela Luzia, das cinzas que se espalhavam do teu ritz, do cinzeiro de estanho ou latão fino, de 3 bordos, os pisa-papéis com o nome do bisavô e do avô (que ainda tenho) da tua águia. O armário onde se apinhavam capas grossas, dossiers pesados, carregados de vidas que se penduravam nas tuas costas, aos teus pensamentos, desejando-te o melhor e encontrando em ti uma espécie de messias. Lembro-me das tossidelas do avô Rodrigo antes de sair com mais papéis e rebuçados de mentol, do tamborilar dos teus dedos quando achavas que o Sr. Bastos não ia saber resolver por ti essas vidas. Do teu casaco de bombazine cor de burro quando foge, do pullover verde musgo que trazias vestido no dia que me morreste. Da camisa creme, do maçote de papéis que carregavas no bolso das calças de fazenda vincadas. Do teu bigode curto e das tuas têmporas onde já se adivinhava o tempo. Esse tempo que não ia deixar que os teus cabelos ficassem cinza. Esperaste a chegada do fim do dia para partires, e foi entre conversas de fraldas e batatas que deixei a mãe e a Luzia na cozinha e te fui espreitar ao quarto. De lá de fora, entravam as luzes de candeeiros da rua e foram esses recortes de luz que me deixaram ver o livro entreaberto na barriga poisado e o teu braço pendendo pro infinito da cama, os teus olhos abertos e a tua testa vincada. Chamavas alguém que não veio ou foi impressão minha? Morreste e eu cá fiquei desenterrada. E a cada ano que passa, a cada década que sobrevivo penso que ficar vivo e preso aos momentos de dor pode ser a pior morte, a mais demorada e a mais lenta. Sei que estás aí, fazendo sempre o possível e o impossível pra que me recomponha. Outras vidas virão e noutras te encontrarei. Mas foi nesta que ficaste como bussola. E ando desorientada.

Wednesday, October 29, 2008




Montanha russa no teu corpo


é um beijar com os dentes todos
como se arrancassemos
a improbabilidade de findar
que sabemos vir,
que adivinhamos cumprido
cedo ou tarde


mas enquanto os fogos arderem
e as línguas lamberem o mosto
não nos escusaremos a
essa mesma intensidade
da escala de sensações,
no ritmo e no rosto
tempestade de brisas doces


há festa que se abre na tua boca
fogos de artíficio
estourados entre abraços
na magia da desmemória
corpos fundidos em renascimento
gritam o fora e o dentro
como partes do mesmo abismo
dessa montanha russa em que nos vimos
e não te vais.


Química, ainda, desenfreada
abre astros nocturnos e cria
poisos às aves e perpetua saudades


Metaforicamente adornada
pelos poetas do amor,
que uns vivem e outros
se recusam a entender,
a paixão devia ser obrigatória.

Monday, October 27, 2008


Carta de marear

Cruzei os mares, por mim
nunca dantes navegados, em ti
no teu universo particular vi medos
senti receios infundados e básicos
imperfeições e suspeitas
e no todo realizei
que há um sonho em cada homem
impossível de ser devorado.
O sonho do amor.
foto retirada da web

Wednesday, October 15, 2008




Elegia ao meu amor


O amor, meu amor, um pardeeiro de sensações e lutas inglórias, de tréguas e guerra aberta,
onde os braços de ferro se mantêm, até muito depois do cansaço de ambos.

Afinal, meu amor, afinal,
o amor, meu amor é um estreito livre onde os voos se fazem individuais.
Eu uso, meu amor, as minhas asas, armas, garras e voo, meu amor, sobrevoando-te por iniciativa livre, com a minha própria adrenalina, meu poder, meu amor, poder de amar-te ou de te desamar, poder que tenho, que tens, que não temos no plural.

E tu segues-me de perto, logo atrás, ao lado, à frente, urgente, diferente ou igual.
Usas o amor, meu amor, pra me ferir, meu amor, e eu, meu amor, fingo que te deixo vencer e quando te vejo de armas baixadas, eu, meu amor, te mato uma e outra vez.
Ataque, cheque-mate. Que morras tu que a mim não me apetece, meu amor, morrer.
Não anoiteço, continuo o voo. E da liberdade quase faço um hino, porque sabes, meu amor, liberdade é a única e mais completa forma de amor que conheço.

Monday, October 13, 2008




Categorias de humanidade


que somos de mutações e mistos
tanto ou mais que pedras e xistos
muito mais que deuses e cristos
bem mais que raçados ou racistas
somos todos todos todos carne
e pele e ossos e lágrimas
por lapso, por definição
devíamos ser
essencialmente humanistas

mas só humanos de segunda
enquanto a xenofobia e o racismo
ditarem leis e regras
e fundamentalismos
enquanto se descriminarem
outros iguais a nós
enquanto a diferença for obstáculo
enquanto gritarmos sem voz!
humanos de categoria
quem sabe, um dia.
foto de Sebastião Salgado in Serra Pelada

Friday, October 03, 2008




Não há nada depois do tudo que tivemos
uma prova de noves fora nada
e por mais contas que façamos
tu e eu já não cruzamos

nem a confiança é um neologismo
nem o meu colo um porto
deixemo-nos de cinismos
de graçinhas de grafismos
não estamos juntos por desporto!


novesforanada dá nada.
foto retirada da web

Tuesday, September 23, 2008




Tempo de chover


Ainda ontem me repetias que o sol não se findaria este Agosto

E me adiantaste os pôres-do-sol do nosso dia-a-dia

E hoje, muito a contragosto, muito amargo o gosto,

despencas tempestades e mais agoiros, em fim de dia


Como posso eu acreditar

quando me fazes prenha de expectativas

irrealistas?

Partos interrompidos, prematuridades


Ainda ontem acreditavas poder conter a chuva

dos meus passados nos teus braços

e afinal, choves também tu,

mendigas a belbezu

que me cale os sonhos

que o futuro silencie. Que és inocente.


Não te parece deja vus o presente?

Um tempo recorrente?

Friday, September 19, 2008

Rústico

foto de George Cereca



Rústico


Construíste-me, no quintal,
um mocho de pedra junto à Oliveira,
onde posso sentar nos finais da tarde,
a esperar-te, a memorizar os verdes.

Vislumbrava sempre uma qualquer página em branco
a gatafunhar, enquanto me perdia entre a observação
do formigueiro junto aos esteios
e as preambulações da Maria Zé e do Lúcio.

Em frente, a serra.
Perdemo-nos facilmente entre passado e futuro,
nas sombras de um chão frio, que acolhe os pés
a salvo do verão quente, no interior, lajes e loiças.


No murmúrio das águas, o poisar
dos alfaiates. No acalmar do cio.
A nascente transborda nas minhas mãos,
castanhas de barro.
E eu delicio os sentidos, bebericando os dedos
no fio límpido da fertilidade.

Na mesa, do outro lado
das sebes, alguém nos chama: - O café pronto.
Sento-me ao teu lado, malga na mão.
Nos cabelos a brisa de final de tarde
acaricia-me enquanto o céu se desdobra
em rosas e laranjas.

E falas-me da formação das nuvens,
da direcção dos ventos
porque fazes questão de ser
o meu homem da meteorologia.
Cheiro as uvas brancas.


Vamos estar em Setembro e terei
que calçar chinelos para atravessar a terra
quente e ressequida de sol.
E colher-te os primeiros bagos da padeira

Wednesday, September 17, 2008

foto de Alexandre Neves




É preciso Ser,

ou Ensaio lírico sobre o Presente


É preciso tomar as rédeas depois do descarrilamento
e fugir de quem promete tudo
de quem constroi poemas no vento
de quem se senta nos bancos
das casas e dos edifícios públicos aguardando vez pra gritar.
diluidores da paz, ameaçadores da liberdade
castradores dos outros, burocratas da democracia cansada
e de todos os sistemas viciados como as ditaduras, donos e senhores
da demagogia, da fraude, da pedofilia e das atrocidades mundiais


É preciso usar o cérebro pra pensar e contestar
é preciso acabar com o carneirismo e os conservadores de agoiros
é preciso acabar com o comodismo dos plasmas e das novelas
e destituir as chefias acomodadas ao poder
é preciso, como diz Manuel Alegre, dizer não mas frisá-lo
e terminar com os vicios dos sistemas
usar actos e não estratagemas
fazer uso da lucidez e da razão
extinguir do corporativismo os emblemas
contaminar os galardões de humildade
é preciso chamar ao banco dos réus
os carrascos do nosso silêncio consentido
os açambarcadores da nossa alma, os prozac's
violentadores do pensamento, os responsáveis
pela transfiguração da realidade,
dominadores da fraqueza dos outros
dos outros que somos nós,
placebos da nossa desgraça


é preciso sair pra rua e urgir a verdade
e arrancar ao dia o laissez faire a que nos habituamos
é preciso estancar o sangue de uma vaidade ferida
de uma identidade desrumada ao abismo, à loucura e ao nada.
Era preciso acontecer, sermos muitos ou sermos mais
mas era preciso, antes de mais, haver nós conscientes

Monday, September 15, 2008





Admirável mundo novo


Desprende-se o orvalho, sereno e húmido
cheio de tempo pra ser.
Pauso as palavras,
o fumo, o zapping quotidiano.
Numa languidez que toma conta de mim
a que ainda não me habituei (mas que é minha)
deixo-me arrebatar, tranquila e cansada
assim como a vida, lágrimas do tempo.

É o romper da aurora na serra, os pássaros
cantando o bucólico, a orquestra de grilos
o recolher do gado, o murmúrio de vozes contidas
que falseiam os acordes com receio de desaquietar o vento,
o cheiro das pinhas queimadas no fogão rasteiro e velho
A Maria Zé correndo para a novena
e o Lúcio na habitual hora do regadio,
do restolho fim de tarde.


A copa das árvores namorando o céu.
O meu rosto encostado à janela e lá fora
cai essa escuridão a que os aldeões, e muito bem,
chamam de bréu.
O tempo é de pousio na terra.
Não abdico deste mundo novo, nem mesmo
em favor de Huxley.

Wednesday, September 10, 2008





















Janela



Escavacada pelo tempo quanto baste,
uma janela guardou os movimentos internos da casa,
o útero ramificou-se de podre nos musgos
que tomam conta até dos tectos.


Vultos, imaginamos vultos,
escondidos nos umbrais
Fantasmas que nem o fluir dos dias mata.
Os que viram a sua ascensão admiram a sua queda.


E perdem-se nas horas vazias,
olhando, inventando momentos e adivinhando
razões que o tempo criou para a decadência.

Sunday, September 07, 2008

As ideias







As ideias


Não tinha vocação para urgências
o lufa-lufa de indagações e suspiros
que separava a vida da morte,
a dor da expectativa maior.

Pelo contrário, os partos, novas identidades
o sufrágio universal, sim, cresciam, sem vísceras,
o reflexo do que conhecia como humanidade.
isso era o que o sangue tinha de melhor:- as ideias

foto do Sitio dos Mochos

Friday, July 11, 2008

Não há dia nenhum




Quantos segundos contados pelo marcar do pulso
ora apressados, ora descontentes
no vagar que todas as memórias têem e na dor
que muitas arrastam


Não há dia nenhum que detenha a memória viva
nem leis nem regras
que afinem e encaixem sentimentos
no políticamente correcto


Não há dia nenhum em que o teu rosto não surja do nada
pra me sacrificar ou as tuas palavras mordazes pra me sangrar


Não há e nem vai haver forma de conter o rio
de dor que ficou quando decidiste esconder e mentir
omitir ou devassar sentidos e vidas


Sabes, não sabes?
Que dia nenhum passará
sem que estejas presente neste rio!
Não haverá dia nenhum e nem isso podes impedir.

Monday, July 07, 2008

Pintas



um céu de chuva parda
é terra e pó e nada
deslaçe de ais
balanço de corte final

enxada no ombro, ate já
pá que cobre o teu corpo
tristeza no ar e
este jeito de quem não sabe perder,
nem flores nem caixas
nem fitas nem adubos nem recordos teus
nada pode recuperar-te
oferecias sorrisos em vida
e a comunicação foi cortada.
ainda te chamo, te confundo
viva entre os demais,
chamo-te pintas pintas
e tu não voltas, nunca mais।

não te digo adeus que te mancha a paz
e a marcha na subida aos céus।
sim, porque deve haver um céu para cães agnósticos.



nunca fomos janeiro


fazias-me presa a convenções
arrancando-me os dias
estat calendarizada,
uma cidade histórica e bonita
um porto pra onde voltar
depois da vida


alteravas as necessidades e só me lembro
que o teu rosto era a fogueira perfeita
o teu parecer alimentava-me os dias
podia vir frio, dezembro


ainda de luto, fingias estar resolvido
de negro ando eu meu querido


disputavas o meu pc
a minha atenção
e nem o meu nome sabias
Eu chamo-me a mulher que se esqueceu do amor
em dezembro.